A magia volta a incomodar a religião

Data de publicação: 22/04/2014

Antônio Flávio Pierucci*



A reação adversa de líderes religiosos cristãos ante o sucesso de público do filme e da série de livros infantis que conta em estilo vivaz as divertidas aventuras de Harry Potter, o menino órfão aprendiz de feiticeiro, explica em parte por que a distinção conceitual entre religião e magia, feita pelos clássicos da Sociologia, continua útil na atualidade.

Magia parece religião, mas não é. Ambas pertencem ao reino das crenças, lidam com coisas sagradas e são práticas apoiadas em crenças que não podem ser comprovadas cientificamente. Você saberia distinguir magia de religião? Hoje, todo estudioso das culturas humanas precisa conhecer estes conceitos.

Como a religião, a magia é um modo de relação com o sagrado, mas as duas diferem na forma. O sagrado mágico tem afinidade com a busca de soluções imediatas para problemas práticos bem definidos. Ele é acionado por interesses imediatistas, materiais ou espirituais. Já o sagrado religioso tem afinidades com interesses salvíficos de longo prazo e de amplo alcance, daí seu empenho na moralização duradoura da conduta de vida. Quanto mais eticamente exigente o sagrado religioso, maior rejeição há de nutrir pelo sagrado mágico.
 
Essa diferença tem implicações diretas sobre outra discussão, que se dá em torno da disjuntiva “desencantamento ou reencantamento do mundo” na sociedade atual. A partir da década de 70, a Sociologia da Religião passou a se perguntar se na sociedade contemporânea não estaria ocorrendo um “retorno do sagrado”. De aceitação polêmica entre os sociólogos da religião, a tese do “retorno do sagrado” foi logo confundida com a tese do “reencantamento do mundo”. Cabe perguntar: a expressão “retorno do sagrado” quer dizer o mesmo que “reencantamento”?

Sagrado mágico ou ético

A resposta que a melhor teoria sociológica pode dar aqui é negativa, ou melhor, restritiva: estritamente falando, “reencantamento” remete a um retorno da magia, o que não significa um revitalizar da religião, sobretudo cristã. Quando se fala em “retorno do sagrado”, ao observador das culturas humanas faz toda diferença saber se o sagrado que estaria retornando à cena é de caráter mágico ou de caráter ético. Quando sociólogos falam em “desencantamento” e o associam ao processo de modernização cultural liderado pelo Ocidente, estão se referindo à desmagificação do mundo, natural e sociopolítico. É crucial ter em mente que a desmagificação do mundo não é efeito apenas do avanço do conhecimento científico e do progresso tecnológico, mas, também, é o resultado do caráter ético assumido pela religião ocidental dominante, o cristianismo. “Desencantamento do mundo” designa o longo processo histórico-religioso (judaico-cristão, bem entendido) que teve início com o empenho dos profetas de Israel em “eticizar” a religião do povo e das elites.

O processo de desencantamento do mundo começou com a religião hebraica tomando posição pelo desendeusamento do mundo. Uma das implicações da fé bíblica, com seu culto exclusivo a Javé como Deus único e universal, Criador onipotente que transcende a tudo o que é criado, foi a desdivinização radical do universo: o mundo não é divino, a realidade não está povoada de seres sobrenaturais. A concepção hebraica da criação assinala uma separação entre a natureza e a divindade. Aí reside o começo da incansável luta da fé bíblica contra a magia: na recusa a divinizar as criaturas, no combate implacável à idolatria. No decorrer de um longo processo histórico protagonizado pelos profetas, a religiosidade foi se tornando cada vez mais moral, regida por princípios éticos, e menos mágica. E foi desse judaísmo “desmagificado” pela profecia ética que surgiu o cristianismo.

Daí se conclui que, se alguém for contra a magia por motivos religiosos, não pode ser ao mesmo tempo um entusiasta do “reencantamento” do mundo: não haveria coerência nisso. Vice-versa, não há lógica em aplaudir com entusiasmo o “reencantamento” e a um só tempo lutar contra a feitiçaria, a bruxaria, o ocultismo, enfim, contra a magia. Não faz sentido.

Des-magificação

O processo de desmagificação do mundo marcou de modo muito peculiar o desenvolvimento cultural do Ocidente. Nossa matriz cultural dominante é judaico-cristã, uma matriz religiosa “des-magificada” e tendencialmente “des-magificadora”. Importa contudo não esquecer que a determinação de extirpar a magia já apelou para a força bruta. Com o surgimento do protestantismo ascético na Europa dos séculos 16 e 17, a tensão entre a fé bíblico-cristã e as práticas de magia e feitiçaria só fez crescer, assumindo a forma de um antagonismo ainda mais explícito. O protestantismo tornou-se uma forma de religião empenhada em despojar de magia a prática religiosa popular. Radicalizada de um lado pela Reforma Protestante e, de outro, pela mobilização católica da Contra-Reforma, a distinção universal entre religião e magia transformou-se numa verdadeira oposição, numa antipatia fundamental. Isso redundou em perseguição aos feiticeiros e caça às bruxas, com prisão, interrogatório, tortura e a morte na fogueira. Toda forma de magia foi reduzida à pura feitiçaria, e esta, qualificada de heresia, sacrilégio e idolatria, passou a ser vista como a anti-religião por excelência, coisa do Demônio. Daí o incômodo provocado por Harry Potter.

Conceitos são instrumentos racionais valiosos. Magia e religião são conceitos diferentes: referem-se e prometem coisas diferentes. Ferramentas de grande valia quando, diante do sucesso de Harry Potter e da celeuma por ele provocada em alguns circuitos religiosos, nos vemos desafiados a entender melhor a lógica interna que rege o complexo mundo das religiosidades.


Critérios fixados pelas ciências sociais para distinguir a abordagem mágica do sagrado da religiosa:


• A magia visa fins específicos, precisos e delimitados, com resultados avulsos de ordem material, objetivos tópicos, não constituindo um sistema unificado de ações. A religião promete um reino messiânico, a libertação do povo, a salvação da alma, a bem-aventurança eterna do indivíduo. Ela tem sob a mira os grandes valores, os fins últimos. A magia não se interessa pelo Sentido da vida com “S” maiúsculo, mas pela manipulação circunstancial de forças naturais e sobrenaturais com vistas a obter resultados aqui e agora. A religião pende para o pensamento metafísico, enquanto a magia é essencialmente pragmática. A magia promete a solução de problemas concretos, definidos com clareza pelos sujeitos que a ela recorrem; já a religião, a compensação definitiva para todos os problemas do indivíduo e da comunidade. As promessas da magia são circunscritas; a promessa da religião é sem limites.

• Instrumentalidade explícita: a magia só é praticada instrumentalmente. O rito mágico é uma ação racional utilitária, com vistas a um resultado concreto. Não há prática mágica que seja um fim em si mesma, e, no entanto, é isto que muitas vezes se passa com as práticas religiosas: elas podem ser fins em si mesmas. Um ritual realizado para evitar a morte de um bebê durante o parto é totalmente diferente, quanto ao fim visado, de um rito que celebra o nascimento de uma criança. O primeiro é um ritual de caráter mágico; o segundo, um ritual religioso. Os praticantes do primeiro têm em vista uma finalidade claramente definida e um resultado final específico: assegurar a sobrevida daquela criança; já o segundo, a comemoração enquanto tal, a celebração é em si mesma sua própria finalidade: a expressão não utilitária de sentimentos e credos compartilhados por toda uma comunidade religiosa.

• A relação do mago com as pessoas que o procuram é de natureza pragmática: profissional/cliente. Já a religião se funda na relação pastor/ovelhas, ou líder/seguidores.

• A magia é uma prática muitas vezes secreta, daí seu parentesco com o ocultismo. A religião não dispensa a visibilidade, gosta da praça pública e se deleita com a monumentalidade arquitetônica.

• O critério que funciona de modo mais decisivo como divisor de águas entre a magia e a religião é a coerção que a fórmula mágica exerce sobre os seres encantados, espíritos, deuses ou demônios. O pensamento mágico parte do pressuposto: todo poder sobrenatural pode ser forçado a se pôr a serviço de um ser humano. Quem possui o carisma de saber usar os meios adequados para tanto pode impor-lhe sua vontade. Todas as vezes que um feiticeiro pronuncia corretamente a palavra mágica e segue à risca o ritual, certo de que com isso o resultado desejado está garantido, ele está coagindo potências sobrenaturais a fazerem o que o cliente quer. Para a magia, tudo se passa como se deuses e espíritos deixassem de ter livre-arbítrio quando capturados pelas malhas de um encantamento. A magia desenvolve em relação aos poderes divinos uma atitude manipuladora, ao passo que numa religião a atitude é de respeito e submissão, suplicativa e propiciatória. A ação mágica não é “serviço divino”, mas sim “coação divina”.

*Professor livre-docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, especialista em Sociologia da Religião e Teoria Sociológica, secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e editor da revista Novos Estudos Cebrap.

Fonte: Diálogo 25 - Mar/2002
Postado por: Diálogo




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