O mito em sala de aula

Data de publicação: 10/03/2015

Maria Augusta Randon *

Precisamos aprender a ser éticos. No mundo onde nem a família nem a lei têm conseguido oferecer princípios básicos de lealdade, a escola fica com grande parte desse encargo.
Os alunos têm interesse pelas narrativas míticas e isso é bom, porque a mitologia ensina, mostra limites e educa. A melhor forma de trazê-las para a sala de aula é aguçar a curiosidade dos alunos, mostrando o mito em relação à realidade que eles vivem. A mitologia é atual porque toca no íntimo das pessoas, fala à alma e vai à origem dos sentimentos. O homem mítico grego tem a ambição de dominar a natureza, sente-se seduzido por ela e se questiona. Assim nasce a Filosofia, que tenta explicar o princípio ori­ginário de tudo.

Desvendando um mundo novo
Ponha o aluno diante de um mundo do qual ele não tem conhecimento!
Estudando a Teogonia de Hesíodo (Hesíodo, sacerdote da antiga religião grega, escreveu a obra Teogonia no século 8o a.C., registrando as primitivas narrativas orais sobre os deuses gregos):
Escolha um dos deuses da mitologia grega e peça aos alunos que façam paralelos, partindo da vida real, “à imagem e semelhança” do ser humano atual.
Afrodite, a deusa do amor, personifica um forte sentimento humano:
Abra um debate sobre os aspectos do mito que “estão próximos de nós”.
Conhecendo o deus Dionísio:
Crie espaço para o diálogo sobre o sentimento e o significado da alegria. 
Já com a história da deusa Deméter, cuja filha é raptada:
Trabalhe o tema tristeza e sofrimento, tão presentes na vida atual!
O jogo das opções
 Aquiles foi um herói grego. Era filho de uma deusa e tinha um pai mortal. Teve chance de escolha entre uma vida longa e tranqüila no anonimato e uma morte heróica em defesa de Tróia, sua cidade natal. Optou pelo heroísmo.
Pode-se focar a função dos heróis míticos e semideuses, que superaram a esfera comum. Estamos atualmente cercados de heróis. Salvar uma vida é um ato de heroísmo. Deixar a casa dos pais é outro, suceder o pai brilhantemente numa profissão também é um ato heróico.
Para os gregos, a morte era o destino fatal e imutável do ser humano; e a vida, o tempo das opções.
Coloque o aluno diante da analogia de um jogo de futebol, que representa a vida.
O jogo tem regras e cabe a cada um ser ou não ser bom de bola.
Dentre os vários jogadores de uma seleção, sempre alguns serão os melhores.
Muitos jogadores famosos tiveram uma infância pobre e sem instrução, mas foram decididos e mudaram o rumo de suas vidas, chegando onde queriam.
O único destino imutável é a morte, mas essa certeza não limita a liberdade durante a vida. Isso é atual em qualquer época da história.


Envolva a classe no  fascínio da narrativa mítica
Com a classe, escolha uma história da mitologia.
Faça com que o texto seja lido e amplamente comentado.
Conforme a idade dos alunos, dê algumas dicas de como se escreve um livro:
• Ter objetivo claro.
•  Expressar as idéias com frases curtas e diretas.
• Usar os verbos no tempo correto, de preferência no presente.
• Usar pontos de exclamação, interrogação etc, quando necessário.
• Depois do texto pronto, criar o título.
Responda a todas as dúvidas que surgirem, até que os alunos estejam prontos a assumir o papel de escritores.
Comece então pela tradição oral, pedindo que seja recontado o mito que foi lido. Um aluno começa, outro continua, até que a história seja memorizada com o maior número possível de detalhes.
Enquanto o texto é recontado, deve ser escrito no quadro.
Com a participação de todos, faça a correção gramatical do novo texto.
A seguir, todos podem copiá-lo.
A sensação de estarem reescrevendo uma narrativa mítica é muito sedutora para os alunos, que se sentem realmente motivados.
No fim da atividade, proponha uma escolha para a ilustração: cada aluno ilustra sua cópia ou faz-se uma versão única, ilustrada com a participação de alguns ou de todos os alunos.
Por fim, confeccione um livro, no qual deve aparecer o elenco de nomes dos autores. E por que não a foto de todos?
O papel principal do professor é atualizar as narrativas míticas. Por ser a mitologia muito curiosa, o tema jamais termina, pois temos todos os deuses internalizados em nós, não importando se são eles mitos gregos ou outros. Teríamos temas para trabalhar durante uma vida inteira. Afinal, enquanto seres vivos e inteligentes, queremos sempre saber de onde viemos e para onde vamos.



* Maria Augusta Randon
É escritora e formada em Língua e Literatura Grega. Especializada em Filosofia, História da Arte e Mitologia, faz especialização em Filosofia para Crianças, na Universidade de Caxias do Sul (RS).

Fonte: Diálogo 43 - AGO/2006
Postado por: Diálogo




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