A herança dos cativos


A descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, ocasiona profundas modificações no cenário brasileiro e na cultura que começa a se instalar, mescla de portugueses, cristãos-novos (judeus convertidos à fé cristã), ciganos e a maciça presença de africanos. Com a proibição de se instalarem ordens religiosas nos campos das Minas Gerais, surgiram muitas confrarias de leigos brancos, pardos e negros, competindo entre si pelo desenvolvimento artístico em seus monumentos religiosos.
O século 18 caracteriza-se socialmente pela presença de mestiços, notadamente de mulatos, no ofício das artes – o que reapresentava um caminho de afirmação profissional e de ascensão social para eles, visto que a sociedade não previa o seu aparecimento e tão pouco a sua inserção no seu próprio meio. Aos negros eram destinados os trabalhos dos eitos e das lavras; aos brancos era vedado, por questão de status social, qualquer trabalho exercido com as mãos, exceto escrever, pois isto era considerado uma atividade intelectual e que estava proi­bida aos de­mais.
A música, a arquitetura e a escultura religiosas se desenvolveram muito nos séculos 17 e 18 e com elas puderam os negros e, notadamente, os mestiços afirmar sua criatividade artística e manufatural, sendo que esta última eralhes oficialmente vedada pelos decretos reais, como o de 20 de outubro de 1621, que dizia textualmente: “Nenhum negro, mulato ou índio pode trabalhar como ourives”. Isto acontecia na região das lavras de ouro, que usava entre outras a técnica dos bantos na extração de mi­nério e de pedras preciosas.
Além dessas restrições, cuidadosamente desleixadas, aos negros e seus descendentes não foi permitido o exercício da artesania e a utilização de símbolos próprios nas esculturas e objetos dos seus cultos originais. Só lhes restava integrar-se aos trabalhos de talha, esculpir os adornos e imagens ou pintar e dourar os templos e símbolos da religião dominante – a católica. Exatamente por aí, pelas brechas de desvão por eles criadas é que, sorrateiramente, passa a herança simbólica, os caprichos de estilo e a herança humana dos cativos. “Todas as leis e contingências vedavam-lhes qualquer expressão de sua gentilidade, forçando-os a integrar-se na religião que se confundia com a própria administração da colônia” – afirma o crítico e historiador de arte Clarival do Prado Valladares.

Do barroco aos Liceus de Arte
A forte presença do mestiço ainda é marcante na segunda metade do século 19. Começa a declinar quando o barroco se obscurece sob o impacto da chegada da Missão Francesa, trazendo o classicismo diretamente ligado à formação da elite européia e de pronto adotada pela nascente elite brasileira, como forma de expressão estética refinada em choque com o barroco popularizado pelo trato. A predominância dos artistas mestiços decresce em virtude da natural ascensão e modificação do próprio “fazer acadêmico”, prevendo anterior passagem e aceitação pelos Liceus de Artes e Ofícios ou Escola Nacional de Belas Artes. A arte torna-se então a expressão da nobreza.
Poucos países incluídos na diáspora africana têm a história de suas artes tão marcadas por homens de etnias negras como o Brasil. Verificamos que as estéticas africanas, ou sua tradição, constituem uma estrutura fundamental na obra de muitos artistas contemporâneos, assim como na criatividade popular. Exemplo disso são os trabalhos dos escultores mineiros Marino de Araújo e Francisco de Fátima de Araújo, o mestre santeiro, que ilustram este artigo.

* Maria do Carmo Arantes
Pesquisadora e crítica de arte e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
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