Superando a surdez com diversidade textual


Ousar é uma tarefa constante no ofício do professor. Foi isso que vivenciamos na experiência pedagógica denominada Projeto Alfabetizando com Diversidade Textual, realizada com crianças surdas, na faixa etária de 7 a 9 anos. Ressaltamos que todas eram surdos(as) e filhos(as) de pais ouvintes, portanto, com dificuldade de comunicação e sem uma língua estabelecida.
Como professora de surdos, sempre me preocupei com os problemas pedagógicos relacionados com a leitura e a escrita do aluno surdo e, como alfabetizadora, entendo que é necessário ter material escrito de qualidade, pois para quê aprender a ler e a escrever, se não for para utilizar isto nas práticas que envolvem a leitura e a escrita?
A alfabetização não é um processo mecânico, mas dinâmico, com significado. A pessoa surda tem passado por um processo de alfabetização numa perspectiva oralista, caracterizada por treinos da linguagem oral, vocábulos soltos, frases descontextualizadas, memorização, textos pobres e treinos ortográficos. Como educadora, esta situação me fez refletir e buscar novos conhecimentos para implementar um projeto com a participação da família, numa abordagem bilíngue, como afirma Ronice Miller de Quadros: “O bilinguismo é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar” (Educação de surdos – A aquisição da linguagem, Porto Alegre, RS, Artmed, 2001).

Considerando a língua de sinais como língua materna do surdo, o bilinguismo será, portanto, a abordagem teórica que norteará o projeto, utilizando a Libras (Língua Brasileira de Sinais) como suporte para o ensino da Língua Portuguesa na modalidade oral e escrita.
Estamos inseridos em uma sociedade letrada, portanto é necessário o domínio do código letrado e, nesse contexto, a escola tem um papel relevante, pois inicia e sistematiza os conteúdos estabelecidos, concomitantemente com a formação de leitores, assim como prepara o aluno para a prática social da leitura e da escrita, o uso do letramento, como afirma Magda Soares: “Letramento: estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais que usam a leitura e a escrita” (Letramento – Um tema três gêneros, 2ª edição, Belo Horizonte, MG, Autêntica, pág. 47, 2003).
A alfabetização e o letramento são distintos, porém no decorrer do projeto foram realizados simultaneamente. O letramento favorecia o contato e a produção de textos, visando à autonomia do ler e escrever do aluno, inserido nos diversos contextos, valorizando o conhecimento de mundo, pois também a criança surda tem conhecimento de mundo; e a alfabetização, utilizando a língua de sinais, recontextualiza a escrita.

Fazer pedagógico
O Projeto Alfabetizando com Diversidade Textual tinha os seguintes objetivos a serem alcançados:
* Oportunizar à criança a vivência de situações de leitura e escrita através da abordagem de diferentes manifestações literárias.
* Possibilitar à criança reconhecer e valorizar a língua de sinais, como um processo que se constitui e se transforma nas relações e práticas sociais.
* Estimular a participação dos pais no processo ensino-aprendizagem.
As atividades cotidianas foram ordenadas em oficinas, valorizando o conhecimento de mundo das crianças, na elaboração e reelaboração de conhecimentos, num constante construir, como artesãos em uma grande e empolgante obra.
As principais oficinas foram assim denominadas:
* Oficina de texto, na qual os alunos produziam textos de forma individual ou coletiva. Nessa oficina, as crianças tinham contato com a língua portuguesa em sua modalidade escrita, favorecendo a reflexão e o conhecimento dos diferentes padrões textuais, para assim elaborar seus próprios textos.
* Oficina de Língua de Sinais, língua materna do surdo, permeava o cotidiano, sempre confrontada com a língua portuguesa. De forma divertida, lúdica e prazerosa, as crianças ressignificavam seus saberes, pois, como mostra a nossa experiência, quando elas vêm para a escola já são capazes de ordenar, classificar e diferenciar, entre outras habilidades.
Os pais também participaram de oficinas, pois, segundo Ivani Andreatta Amaral Camargo, “as possibilidades dos indivíduos estão atreladas às relações familiares, representadas pelas interações com os pais, essenciais para a efetivação da subjetividade” (O olhar de pais de sujeitos com deficiência mental sobre o letramento e escolarização de seus filhos: in Letramento e minorias, Porto Alegre, Mediação, 2004). Portanto, uma interação sadia e pedagógica com a família ajudará na aprendizagem do aluno.
As principais oficinas foram quatro, a primeira discutiu o projeto e a participação dos pais, assim como seu compromisso em acompanhar e participar das aulas, sempre que necessário. Na segunda, os pais aprenderam a contar histórias infantis, fábulas, lendas e outras, usando a língua de sinais e a expressão corporal, resgatando a tradição familiar e fortalecendo os laços de afeto.
Em uma outra oficina, os pais e as crianças, juntos, confeccionaram jogos para estimular a aprendizagem, demonstrando a importância do lúdico para um aprender prazeroso, assim como a confecção de jogos a baixo custo, pois foram utilizados rótulos, encartes, sucata, dentre outros materiais. Por fim, na última oficina que concluiu o trabalho, os pais foram orientados a estimular as crianças quanto à leitura e à escrita, assim como a acompanhar a vida escolar dos alunos.
Os resultados desse projeto foram significativos. Eles estreitaram a relação família-escola, em um trabalho conjunto, fortalecendo as relações afetivas e culturais e estimularam a aprendizagem, valorizando a língua brasileira de sinais como a primeira língua do surdo, e o uso da língua portuguesa na sua modalidade escrita. Com isso, despertam o interesse pela literatura e produção de textos e contribuem para a formação de leitores e escritores.
Pretendemos também, com este projeto, lançar um olhar sobre a alfabetização do surdo na ótica da diferença linguística, na valorização da pessoa surda e das suas potencialidades, estabelecendo a escola como um espaço de respeito e valorização da diferença, oportunizando ao aluno surdo o letramento. Desse modo, ele irá produzir e ressignificar seus próprios textos, escrever suas histórias, seus sentimentos, enfim, fazer uso da leitura e da escrita como prática social, certo de construir um momento novo no seu processo de educação.

* Mariana Moraes dos Santos
Pedagoga, mestranda em Educação no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Ufam (Universidade Federal do Amazonas). E-mail: santosmmary@bol.com.br
* Aristonildo Chagas Araújo Nascimento
Doutor em Psicologia e professor da Ufam. E-mail: aristonildo @ufam.edu.br

Revista Diálogo - Nº 40 - Outubro de 2005


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