A sacralidade do texto em culturas orais

Marcos Ferreira Santos*


Régis Debray, em seu Tratado de Midiologia, estudando os suportes da informação, diz que a primeira forma de transmissão do conhecimento era dada pela tradição oral em que o valor da palavra era fundamental. Neste período, que atravessa a pré-história humana até a invenção da imprensa por Gutenberg, a forma de transmissão oralizada também valorizava elementos que acompanhavam a palavra proferida: a retórica, a declamação, a narração dramática, o vigor ou o carinho das entonações.

A seguir temos a palavra impressa e o surgimento do livro e das grandes bibliotecas de papel impresso que, ao contrário das ancestrais bibliotecas de papiros e tábuas de argila ou pedra, como a de Alexandria (Egito), possibilitavam armazenar um número jamais imaginado de informação e saber. Seus valores são a erudição, o estudo, o domínio das línguas e o exercício exegético.

Ainda na perspectiva de Debray, a revolução dos estudantes em maio de 1968, na França, sinaliza o início de uma época de rápida transmissão de informações por suportes virtuais de alta tecnologia: rádio, televisão, cinema, vídeo, transmissões via satélite, internet e superinfovias. O acúmulo de informação e sua disponibilização modificam, drasticamente, a relação do homem contemporâneo com a palavra e com a imagem que, segundo alguns especialistas, se banalizaram pela abundância e perderam seu poder mobilizador.

No entanto, mesmo neste quadro de avanços tecnológicos, percebemos, contraditoriamente, o avanço das religiões das comunidades do Livro. Tanto o cris­tianismo, como o judaísmo, o islamismo e o hinduísmo têm se propagado como nunca antes na história da humanidade. Além disso, há notícias de culturas tradicionais que permanecem vivas no Oriente, na Polinésia, na Ameríndia e que também mostram sinais de recuperação ou de estagnação nas taxas de extermínios e extinção. Algumas, inclusive, ágrafas, ou seja, que não possuem escrita.

A potência da palavra

Como o mitólogo e historiador de religiões romeno, Mircea Eliade, tentamos ultrapassar a divisão imediata entre o sagrado e o profano e podemos ver que no mais profano e cotidiano pode emergir um fenômeno religioso, bem como no quadro das mais variadas religiões vemos, com frequência, posturas profanas e burocráticas na repetição gestual e sem sentido dos mais variados rituais. Isto nos auxilia a compreender que é preciso tentar entender o fenômeno religioso de outras tradições no interior destas tradições e segundo os seus próprios procedimentos religiosos e não sob o prisma dos nossos. Dessa forma, podemos assinalar algumas características do texto sagrado na tradição oral, entre elas, a potência da palavra, a destinação dos nomes, o poder constituinte do verbo e a estruturação musical da transmissão.

A tradição oral se perpetua até os nossos dias, exatamente pelo seu caráter oral e efêmero, ensinado de geração a geração através da narração de seus valores, feitos e entidades numinosas. Ao contrário do que poderíamos pensar: se não há registro escrito da tradição e do texto, ele se perderia no esquecimento dos séculos. Esta é uma conclusão permeada de valores de erudição centrada em nossos etnocentrismos.

Tomemos como exemplo a experiência religiosa guarani (na Região Sul do con­tinente) ou quéchua (ao longo da cordilheira dos Andes) e mesmo algumas tradições afro-descendentes. Entre essas três tradições é comum o reconhecimento da potência da palavra. Isto quer di­zer: a palavra é a energia que constitui todas as coisas. Correlato da máxima genético-cristã: “No princípio era o Ver­bo”, o verbo se faz carne e materializa as coisas. No entanto, nestas tradições, de modo geral, o verbo é autônomo em relação a seu proferidor. Nós somos os portadores da palavra e não seus produtores. É dádiva divina o poder de nomear as coisas. Maldizer alguma coisa ou alguém é uma violação das leis divinas e passível de castigo. Na nação guarani, é o poder da palavra, ayvu rupy­ta, energia que acompanha a palavra e que é responsável pela constituição de tudo no mundo.

Entre os quéchuas andinos este poder da palavra é conhecido como Con, tam­bém parcela do nome do criador: Con Tijsi Illa Wuiracocha. Con é o nome ono­matopéico, como a própria estrutura da língua quéchua, que faz referência ao poder do raio e, curiosamente, também à raiz. Os portadores do espírito da pa­lavra se chamam de apu e convivem com as pessoas ensinando-lhes e protegendo-as. Uma característica da expe­riência religiosa quéchua, além do poder da pa­lavra, é a estrutura apren­dente da pró­pria pessoa. O ser é um seraprendente, aprendiz. Está, continuamente, apren­dendo. E, na medida em que apren­de, se constitui como mestre. Mestre-aprendiz.

Já na tradição afro-descendente, de matriz yorubá, esta energia da palavra é o axé. Energia, a ser reverenciada, que impregna todas as coisas, palavras e objetos, pessoas e lugares. Por isso, sua fruição é importante para evitar as desordens no mundo material causadas pela falta de energia. Cada saudação tem o seu poder especial e é orientada por uma entidade numinosa, um orixá específico. Como eles se fazem representar nos elementos naturais e deles são constituídos, há uma intrínseca ligação entre a palavra e a natureza, harmonizando a pessoa no fenômeno religioso e em suas expressões.

O canto

Esta potência da palavra se desdobra na nomeação das pessoas. Seu nome de batismo é a palavra-destino, que sintetiza sua sina no mundo. Vivemos, segundo os guarani, para cumprir o destino de nossos nomes. Portanto, os rituais de batismo são muito importantes. Não se dão num contexto de conversão (metanóia), mas de revelação. Em especial, entre os guarani, o nome é revelado antes em sonho. No ritual batismal, o nome guarda o destino da pessoa que viverá para tal mister.

Entre as heranças afro-descendentes, na tradição zulu, também a indicação do xamã se faz através do sonho. O sangoma (geralmente, feminino), é avisado pelos ancestrais, por meio do sonho, que passará a curar a aldeia e cuidar dela. Os sangoma são pessoas “escolhidas” pelos espíritos ancestrais para a tarefa de conduzir a saúde espiritual da comunidade. Não se é sangoma porque se quer. Os futuros sangoma são visitados no meio da noite pelos espíritos ancestrais e, dessa forma, não conseguem dormir pelas transformações internas e pela responsabilidade perante a comunidade. Um canto característico desta fase da escolha do sangoma é o Angilalanga (Eu Não Durmo).

Seu caráter solidário e fraternal, além do aspecto medicinal, baseia se sobretudo no respeito à ancestralidade. Uma das canções para a invocação dos espíritos ancestrais chama-se Ihoyiya (invocação), utilizada quando alguém está sob possessão ou se invoca a cura de algum doente. Em outra canção, o doente solicita ao sangoma que, pela intervenção dos ancestrais, diga o que ele tem, qual a origem de suas dores. Toda a comunidade invoca aos ancestrais que iluminem o sangoma para a cura.

É, prioritariamente, através do canto que os mitos de origem, os feitos dos deuses, a significação profunda dos nomes, a revelação do devir, a memória do passado primordial são ensinados. É através do canto que as ladainhas d’alma (expressão do filósofo Gaston Bache­lard) se perpetuam na sensibilidade das pes­soas e as coloca em contato com a dimensão numinosa da existência, dando-lhe sentido e significado. O escritor Rubem Alves diz que não é a dor que desestrutura a personalidade humana, mas a falta de sentido de sua existência. Nestes termos, o canto é a forma como este sentido invade a existência e a coloca em diálogo com as forças da natureza, do entorno da comunidade e com a própria comunidade. O canto é a estruturação musical da palavra, portanto, organização temporal de ritmos, freqüências e timbres que demonstram a profunda tessitura da palavra.

A despeito de nossa história ocidental escrita e impressa em livros deste 1450 nos tipos revolucionários de Gutenberg, portanto, há cerca de 550 anos; outros 5 mil anos de cantos são entoados e garantem a permanência da tradição religiosa e seu ensinamento, seja do muezim do alto de seu minarete islâmico, seja do xamã quéchua no vento forte dos Andes, seja do pajé guarani no pampa, na serra ou no litoral, ou da iyalorixá.

O que se sucede ao canto, através da potência da palavra, é o momento sublime de reencontro com o sagrado: o silêncio. Contemplação silenciosa do momento de diálogo profundo entre os mil mistérios da revelação e a presença numinosa em nossa alma, presente sagrado na consagração do canto.

Dedico este texto a Luiz Jean Lauand, arabista e medievalista, na busca comum das sendas e do canto da memória a este grande esquecedor que é o humano.

* Livre-docente em Cultura e Educação da Faculdade de Educação – USP (Universidade de São Paulo). Pós-Douto­ramento em Hermenêutica Simbólica pela Uni­versidad de Deusto (Bilbao, Espanha). Doutor em Filosofia da Educação.
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