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Frei Carlos Josaphat

Quando as vidas se cruzam...

por Lilian Contreira


Frei Carlos Josaphat nasceu em 1921, e não em 1922 como constam nos documentos oficiais, em um Vilarejo chamado Patos, Patos do Abaeté. Naquela época os registros não eram feitos imediatamente, então como nasceu em novembro, deixou-se para fazer a parte de documentação no ano seguinte.

O menino Josafat deixou Abaeté, sua cidade natal, para estudos aos 12 anos. Foi estudar no Seminário Menor de Diamantina, terra de Juscelino – como ele gosta de dizer. Depois de Diamantina foi para Petrópolis, fazer os estudos de Filosofia e Teologia, até sua ordenação sacerdotal em 08.12.1945. Em seguida fez um estágio ensinando humanidades no Colégio do Caraça, MG, em 1946.

Em 1947/48 ensinou Teologia no Seminário histórico de Mariana, também em Minas Gerais.

Em 1949/50 passou a ensinar no Nordeste, em Fortaleza e no Recife. Nesta última cidade, o jovem sacerdote conheceu e teve o primeiro contato com o também jovem professor Paulo Freire, no antigo Colégio Oswaldo Cruz (de propriedade dos pais da segunda esposa de Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire).

O Sr. Aluísio Araújo e a esposa Genove acolheram Paulo Freire como bolsista quando este perdera o pai, e depois, quando Paulo Freire já era professor no mesmo colégio. Acolheram também o jovem sacerdote como capelão e professor de catequese. Debaixo de uma mangueira, no terreiro do Colégio, aos domingos, D. Genove e Sr. Aluísio reuniam sua família, seus 9 filhos, e muitas vezes também Frei Carlos e Paulo Freire, para um almoço. Esse era o começo do que viria a ser uma grande amizade.

Nessa fase Frei Carlos interrompeu o ensino da Teologia, que parecia não corresponder ao sistema excessivamente conservador do Seminário onde se formava o clero de então.

Em 1951/52 foi enviado ao Paraná, à cidade de Irati, para ensinar Português e Latim.

Nesse momento, para ser fiel aos ideais de renovação da Igreja e ao empenho de promoção social de nosso país, tomou a decisão de ser frade Dominicano, fazendo profissão solene nesta ordem em julho de 1953.

De comum acordo com as orientações dominicanas, partiu para a França em vista a aprimorar os seus estudos e a sua cultura.

Já era o 2° semestre do ano de 1953, e lá permaneceu até o 1° semestre de 1957. Durante esta permanência na França teve o primeiro contato com os grandes teólogos que iriam colaborar na renovação da Igreja, tais como Karl Rahner, Pe. Congar, Pe. Chenu, e nas tomadas de posições dos líderes católicos na defesa dos Direitos Humanos, Jacques e Raïsa Maritain, Etienne Gilson e Emmanuel Mounier.

Voltando ao Brasil, ainda em 1957, foi encarregado de orientar os estudos e a vida intelectual dos Dominicanos no país. Esta tarefa durou até dezembro de 1963.

No papado de João XXIII, com suas célebres encíclicas e a convocação ao Concílio Vaticano II e com o ensino social, Frei Josaphat passou a suscitar e orientar um movimento social sob a bandeira das Reformas de Base no nosso país.

Foi nessa ocasião que foi lançado o jornal "Brasil Urgente" que se definia como Jornal do Povo, com o Lema: "A verdade, custe o que custar;  a justiça, doa a quem doer".

Eram momentos efervescentes e com essas preocupações encontrou-se novamente com o Professor e renovador da Pedagogia do Oprimido, da Autonomia, da Esperança, o Professor Paulo Freire. Sobretudo nos anos 1962/1963.

Paulo Freire e Frei Carlos Josaphat sentiram uma grande convergência nos projetos e nos ideais, de despertar a consciência e a militância em todo o povo brasileiro. Eles se encontravam no projeto de uma ética e uma pedagogia libertadora.

Em meados de 1963, o grande mestre e Frei Carlos Josaphat foram convidados pelo então prefeito de Brasília, Paulo de Tarso, para um encontro e um projeto de educação popular da nova capital federal.

Tratava-se de trabalhar para humanizar a construção e as relações sociais na Brasília de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

Sob a presidência do Prefeito Paulo de Tarso houve uma reunião na Granja do Torto congregando dezenas de líderes sociais e educadores, como Darcy Ribeiro – que deixava a reitoria da Universidade de Brasília, porque se tornara Chefe da Casa Civil no governo do presidente Jango Goulart, convidou Frei Mateus Rocha (também frade dominicano), a assumir o posto de reitor –, os já citados Frei Carlos e Paulo Freire, entre outros, em vista de realizar o projeto de Educação de Jovens e Adultos, para a alfabetização dos que viriam a ser conhecidos como Candangos, na linha, e sob o elã do que seria o “Método Paulo Freire”. 

Este projeto de Brasília foi uma verdadeira aventura, conduzida por Paulo Freire, no qual Frei Carlos colaborou e pôde ver de perto juntamente com seus companheiros de militância social.

Foi um dos primeiros cursos em que Paulo Freire aprimorou definitivamente o seu método em uma dimensão humanista de valorização e de participação dos cidadãos na vida social.

Mais tarde, Paulo Freire e Frei Carlos Josaphat, exilados devido a oposição à ditadura no Brasil, encontraram-se na Suíça e relembraram esse primeiro curso em Brasília. Frei Carlos tinha umas ligeiras anotações que evocavam o conteúdo e o quadro dessa interessante realização.

Na verdade, Frei Carlos partiu para a França em dezembro de 1963, pois a sua ausência do Brasil era desejada pelos “preparadores do Golpe de 64”.

Já na França continuou colaborando com o jornal Brasil Urgente, até que em 31.03.1964, a polícia política invadiu a redação e fechou o jornal.

Na França doutorou-se com uma tese sobre a “Ética da Comunicação Social e do Jornalismo” e fez um estágio no Jornal Le Monde.

Permaneceu pouco mais de dois anos em Paris e foi nomeado professor na Universidade de Fribourg na Suíça, onde começou a ensinar em janeiro de 1966. Exerceu o Magistério Universitário até junho de 1993. Saiu como Professor Emérito da Universidade de Fribourg, retornando ao Brasil.

Durante estes 30 anos Frei Carlos tornou-se um escritor em língua francesa, publicando várias obras ou traduzindo em outros idiomas como, italiano, inglês, alemão e espanhol.

Chegou a fundar uma coleção bilíngue francês-alemão com o título de: Estudos de Ética Cristã. Hoje com mais de 100 volumes.
Neste período na Europa, como não podia trabalhar no Brasil, Frei Carlos decidiu consagrar-se à atividade social junto dos trabalhadores estrangeiros, sobretudo, portugueses que emigravam e eram obrigados a aceitar condições desumanas de trabalho escravo. Defendia os Direitos Humanos que esses estrangeiros não podiam reivindicar nos países que os acolhiam.
Durante todos estes anos em parceria com o Instituto Internacional Jacques Maritain, Frei Carlos ampliava o horizonte de suas preocupações sociais promovendo encontros de estudos e pesquisas nos diferentes continentes, abordando os problemas, sobretudo, os problemas sociais e humanos na Ásia e na África.
Desses encontros resultaram muitos estudos, pesquisas, e obras escritas, particularmente sobre as relações entre os povos e a necessidade de uma economia orientada por uma ética mundial. Esses escritos, amplos e volumosos pertencem hoje ao acervo cultural da Universidade de Fribourg e do Instituto Jacques Maritain, em Roma.
No seu retorno ao Brasil, no 2º semestre de 1994, voltou a lecionar na Escola Dominicana de Teologia, no ITESP, Instituto Teológico do Estado de SP, e em outras Universidades do Brasil, e publicou mais de duas dezenas de livros. Está em plena atividade, e com muitos lançamentos previstos para este ano, trabalhando incansavelmente, aos 91 anos, em uma de suas paixões que é a causa de Frei Bartolomeu de Las Casas.
Na sua vida universitária, em seus escritos, em diversos encontros e múltiplas conferências a preocupação de Frei Carlos se concentra nos problemas sociais, nos desafios éticos, da civilização científica e tecnológica especialmente as relações da ética e do cristianismo com os desafios da modernidade e da pós-modernidade. É o que se vê pela análise de suas principais obras publicadas no Brasil e no Exterior.

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