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Anna Claudia Ramos



Desde pequena eu tenho mania de inventar histórias. Nunca me contentei em ser uma Anna Claudia só. Queria ser muitas. Queria viver muitas histórias, mas não podia. Então, comecei a inventar. Passava horas brincando e inventando novos mundos para morar. E foi assim, inventando e lendo que cresci descobrindo que a literatura é mágica. Através dela podemos viver outras vidas e brincar de ser o que desejarmos. Podemos brincar de faz-de-conta que é real. Porque a brincadeira tem esse poder. Ela é real, no real da brincadeira, que é bem diferente do que conhecemos como realidade. E como eu adorava brincar e inventar que a vida podia ser diferente... Minha mãe chegava a dizer que não sabia onde cabia tanta imaginação numa menina só.


Quando criança tinha a sensação de ter nascido no lugar errado. Preferia ter nascido numa fazenda, no interior. Meu sonho de consumo era poder passar as férias na fazenda do meu avô, mas eu tinha um problema sério: não tinha um avô fazendeiro. Então, eu tratei de inventar uma fazenda com cavalos, montanhas, cachoeiras, casa com varanda grande, muitos primos brincando. E fazenda inventada não valia qualquer coisa, tinha logo cavalo voador e eu virando uma princesa para galopar com ele pela noite afora. A brincadeira supria minhas faltas e meus desejos de ser diferente de tudo o que eu era. Até hoje não sei se era falta ou excesso de vida. Acho que as duas coisas ao mesmo tempo. Eu tinha excesso de vida dentro de mim, por isso mesmo acho que ela faltava, porque sempre queria mais. Queria conhecer coisas novas, novos lugares e pessoas diferentes.


Sempre quis trabalhar com crianças e livros. Muita gente não acreditava que isso seria possível, mas minha família sempre esteve ao meu lado. Tive (aliás, tenho!) pais sensacionais, que educaram os filhos para que soubessem sair em busca de seus sonhos. Meu pai foi meu primeiro exemplo de leitor. Um médico apaixonado por literatura que passou para os filhos esse amor. Meus pais sempre disseram que a única coisa que ficaria com a gente quando eles partissem seria a educação que estavam nos dando, então, nunca economizaram para nos dar livros de presente. Estudei em escolas que fizeram meu pensamento alargar, escolas que deixavam os alunos pensarem e se expressarem. Li muito livro bom na escola. Livros para mim são divisores de água. Posso pautar minha vida entre antes e depois de ler determinados livros. Um deles foi A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, que li aos dez anos. A vontade de ser escritora nasceu naquele momento. Mas, no alto dos meus dez anos, nunca achei que isso pudesse se tornar realidade, mas também nunca duvidei que não pudesse.


Fiz curso de magistério, teatro amador, trabalhei com educação infantil, me graduei em Letras (Português - Literatura), pela PUC/Rio, e me tornei mestre em Ciência da Literatura, pela UFRJ. Trabalhei com Marina Quintanilha, na extinta OLAC e na Biblioteca Infantil Manoel Lino Costa, fui aluna de Eliana Yunes, na PUC, e trabalhei com Luiz Raul Machado e com a própria Eliana, na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Lá, na década de 1980, estas pessoas educaram meu olhar para a literatura. E consequentemente me ajudaram a amadurecer minha escrita.


A escritora nasceu em 1991, quando eu já coordenava oficinas literárias com Marina Quintanilha. Um belo dia, minhas alunas começaram a publicar os textos que tinham nascido sob a minha orientação. Achei que era hora de publicar meu primeiro livro e assim fiz. Pra onde vão os dias que passam? foi meu livro de estreia, publicado em 1992, mas escrito em 1991. Teve quarta capa assinada por Ana Maria Machado e ilustrações de Rui de Oliveira. Naquele ano, um caminho se abria, um sonho se concretizava e a minha menina sorria, me acenando lá no alto dos meus dez anos!


A atividade de escritora precisou ser dividida com a de professora e coordenadora de Sala de Leitura Escolar. Com filhos pequenos a demanda era outra. Meus filhos foram crescendo à medida que meus trabalhos também foram crescendo. Comecei a trabalhar em projetos de incentivo à leitura espalhados por este imenso Brasil e, paralelamente, fui criando novos livros. Um dia, larguei o trabalho em uma escola, até que em 2002 larguei definitivamente todos os trabalhos fixos que tinha e assumi totalmente a escritora, a palestrante e a professora de oficinas literárias. Em 2004, juntamente com Verônica Lessa, montei uma pequena empresa de produção editorial, o Atelier Vila das Artes, para unir toda a minha paixão pelos livros e pela literatura.


No fundo, minha vida é um somatório de tudo que já fiz até hoje. Eu sempre soube que meu caminho era o da busca dos sentimentos. Não é à toa que acredito no poder transformador da boa literatura. Por isso, ando tanto por este imenso país falando sobre a importância da leitura para pais e professores. Ter me tornado escritora foi a maneira que encontrei de nunca parar de brincar, de sonhar e de imaginar. Escrever é uma forma de transformar a vida. Sempre me lembro da criança e da adolescente que fui para entrar em sintonia com meus sentimentos e falar do meu imaginário para o imaginário das crianças e dos jovens. Quero ser sempre cúmplice dos sentimentos das crianças e dos jovens. Quero falar da vida sem medo, quero falar de sentimentos sem disfarce. Quero brincar com o imaginário, e escrever histórias com alma, com vida. Quero para as minhas histórias o mesmo universo mágico das histórias que me encantaram quando menina. A mesma irreverência, os mesmos vazios para eu poder preencher com as minhas vontades.


Hoje em dia já tenho mais de setenta livros publicados, mais alguns por chegar e muitas histórias colhidas ao longo das minhas andanças e desses trinta anos trabalhando com literatura infantil e juvenil. Aqui nas Paulinas publiquei a Coleção Turma da Vila, inspirada nas crianças e nos bichos da vila onde moro. Uma turminha para lá de divertida!

Para saber mais sobre meus trabalhos, acesse:

 www.annaclaudiaramos.com.br

www.annaclaudiaramos.com.br/blog/
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