Balbuciando o inefável

Data de publicação: 06/05/2015

A arte se entrelaça com a espiritualidade como um dos meios capazes de comunicar, de modo mais penetrante, o inexprimível que envolve a experiência humana


  Crédito Clovis Salgado Gontijo *   
  Arte Sergio Ricciuto Conte * 

Começamos o último artigo Certas coisas, na edição n 948 da Revista Família Cristã, citando a canção Certas coisas, que nos ajudou a identificar o componente inexprimível presente nas experiências mística e estética. Podemos aqui retomá-la com o objetivo de abordar um dos infinitos pontos que restariam a dizer sobre o inefável: os meios de que dispomos para comunicá-lo.
O texto da canção concede um lugar todo especial ao silêncio, apresentado como a resposta mais adequada ao sentir transbordante. Diante do intraduzível da música e do amor, o eu poético diz que se cala. Parece, assim, seguir a recomendação com a qual o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein conclui seu Tractatus logico-philosophicus: “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”.
Não obstante, é fácil perceber uma contradição entre o que diz e o que faz o poeta. Embora afirme que “ama calado, como quem ouve uma sinfonia”, ele transforma seu amor em mensagem sonora, poética e musical. Essa contradição se dissolve ao percebermos que o calar-se não significa necessariamente a ausência de qualquer expressão. É a linguagem instrumental do dia a dia, utilizada para apontar, distinguir e classificar os objetos à nossa volta, que deve ser silenciada quando desejamos aludir às experiências inefáveis, irredutíveis a conceitos e categorias bem delimitadas.

O silêncio − Portanto, o silêncio seria apenas um dos modos de se calar e, assim, de responder ao que ultrapassa as possibilidades do discurso claro e preciso. Ao silêncio recorre São João da Cruz, na Chama viva de amor, quando, à semelhança de Wittgenstein, abdica da tarefa de comentar os três últimos versos do poema, cônscio de que o amor delicadamente infundido pelo Espírito Santo na sua alma se manifesta “para além de toda a língua e sentido nas profundezas de Deus”.
No entanto, há um risco em se calar, especialmente quando a fecundidade do silêncio não é de algum modo partilhada por quem a vive. Como se adiantou no artigo anterior, permanecer calado poderia ser lido como sinal de indiferença ou de que nada teria acontecido. Se alguém chegasse ao fim de um concerto musical e se deparasse com uma plateia muda, impassível, provavelmente concluiria que a obra, ou ao menos a execução, não teria sido apreciada.

A pintura − A resposta ao inexprimível pode, assim, se efetuar por manifestações não linguísticas, como o aplauso, a lágrima, o balbucio, ou pelas vias da arte. Alguns pintores, como Kandinsky, transpuseram as reações intraduzíveis provocadas pela música para suas telas. Também foi no silêncio da pintura que Edvard Munch retratou uma manifestação que não poderia ser abarcada pela linguagem verbal nem por qualquer som do mundo: O grito, de sofrimento da natureza. E não é também uma experiência sincera do inefável que nos transmite Sergio Ricciuto Conte, cujas ilustrações para esta série de artigos sintonizam mais com o mistério que este discurso, periclitante qual corda bamba estendida sobre o desfiladeiro do paradoxo?

A poesia − Apesar de recorrer às palavras como sua matéria-prima, a linguagem poética também oferece uma espécie de pausa à lógica do discurso demonstrativo, aproximando-nos assim ao registro do inefável. Seu estreito vínculo com a sensorialidade do som, seus frequentes jogos de palavras e metáforas que rompem com a previsibilidade dos sentidos nos proporcionam experiência irrepetível e múltipla. Talvez seja pela própria inefabilidade da linguagem poética que esta seja adotada em alguns livros bíblicos e que um místico como São João da Cruz opte por expressar seu contato com a inefabilidade divina primeiramente sob a forma de canções. As explicações em prosa, por ele chamadas de declaraciones, virão depois. No caso da Chama viva de amor, resultam de um pedido alheio, que causa certa “repugnância” ao santo, para quem esmiuçar verbalmente a relação com o Absoluto não deixa de ser uma espécie de profanação.

A música − Contudo, dentre todas as artes, é a música aquela que, com mais frequência, associamos ao âmbito do inefável. Algumas composições puramente instrumentais nos colocam num universo próprio, mágico, destituído de quaisquer referências às coisas que povoam o mundo. Na escuridão criada pela música, não há como determinar significados, cenas e imagens exatas. No entanto, em sintonia com a dinâmica do divino, a indeterminação de uma sinfonia é signo da mais plena fecundidade.
Por conseguinte, a música poderia ser considerada como resposta privilegiada ao inefável. Segundo o escritor inglês Aldous Huxley, “depois do silêncio, o que mais se aproxima a exprimir o inexprimível é a música”. Também de nacionalidade inglesa, a especialista em espiritualidade cristã Evelyn Underhill afirma que “se fosse músico, é provável que o místico pudesse oferecer sua mensagem a outros músicos nos termos desta arte com maior precisão que nos permitiria a linguagem”.
Cabe esclarecer que essa ideia não brota no século 20, mas já se encontra presente desde os primeiros séculos do cristianismo. Em seus Comentários aos salmos, Santo Agostinho elogia uma prática litúrgico-musical da época, o júbilo, cuja origem remonta ao canto exultante que celebrava as colheitas. Por se tratar justamente de uma entonação de puras vogais, ou seja, de um canto sem palavras, o júbilo é descrito como a melhor maneira de se cantar a um Deus inefável. Não só de se cantar a ele, mas também de se expressar a expansão da alma em contato com a “fertilidade” divina.
Santo Agostinho nos confirma que, quando se prova um excesso tão fecundo, não é natural emudecer. Parece estar de acordo com Wittgenstein, ao declarar que “inefável, de fato, é aquilo que não pode ser dito”. E complementa: “E, se você não pode falar, e, no entanto, não deve se calar, o que resta senão jubilar, para que o coração regozije sem palavras, e a imensidão do regozijo não encontre limite nas sílabas?”.
O regozijo pelo canto nos lembra que a arte também pode “falar alto ao coração”... Fala alto porque não fala exatamente, mas também não desiste por completo de falar. Expressão inefável, a arte se entrelaça com a espiritualidade como um dos meios capazes de comunicar, de modo mais penetrante, o inexprimível que envolve a experiência humana.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br


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Fonte: FC ediçao 949-JAN 2015
Postado por: Família Cristã




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