Família é ambiente

Data de publicação: 06/05/2015

Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor

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Por Maria Inês de Castro Millen*

O papa Francisco, para a celebração do 49o Dia Mundial das Comunicações Sociais, escreveu uma mensagem com o seguinte tema: Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor. Esse texto funda¬menta a reflexão que será feita a seguir.
Em primeiro lugar, vamos pensar o significado de comunicar. Temos consciência de estarmos experimentando, desde o século passado, algumas importantes transformações no nosso jeito de habitar o mundo. Podemos falar mesmo de revoluções, e uma delas é a revolução da comunicação. A compressão do tempo e a dilatação do espaço permitem uma interconectividade jamais pensada. No entanto, apesar do acesso a praticamente todos os acontecimentos, ainda padecemos de uma solidão inaceitável. Os meios de comunicação social privilegiam a produção da informação que é consumida por todos como um produto indispensável. Só que isso parece não bastar, pois muitas vezes, estando aparentemente bem informados, não sabemos o que fazer com essas informações. Por essa razão, podemos dizer que comunicar é mais que noticiar. A verdadeira comunicação é dialógica. Os grandes monólogos, com a intenção de produzir sujeitos informados, segundo a ideologia de quem comunica, geram uma passividade acrítica e não suprem as necessidades relacionais das pessoas.
Assim sendo, vamos assumir aqui o diálogo como o ideal comunicativo a ser buscado. Mas, podemos nos perguntar: no que consiste o diálogo?

Ideal comunicativo – Diálogo é processo, relação, encontro atencioso entre pessoas que escutam, falam e se comprometem com o que foi dito, a partir de um consenso possível, às vezes mínimo, das pequenas coisas, e às vezes também transitório. Isso faz com que a possibilidade de novos diálogos, de novos entendimentos e de novos compromissos esteja sempre prevista e desejada.
Diálogo é linguagem de pessoas e, por isso, passível de ser estabelecido de vários modos, na riqueza das possibilidades expressivas: presença, gestos, palavras, silêncios. Não podemos, no entanto, nos esquecer de que essa linguagem, fundamento do diálogo, pode também ser fonte de mal-entendidos. Como proceder para minimizar os desentendimentos?
Aqui entra a família, como referência. Muito interessante a afirmação inicial de que a família é um ambiente. Esse dizer possibilita incluir todos os modos de organização familiar em que o encontro na gratuidade do amor seja privilegiado e de fato vivido, permitindo assim “um olhar sobre a família a partir de outro ponto de vista”.
O papa Francisco traz algumas ideias que serão retomadas a seguir: “A família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar. Voltar a esse momento originário pode nos ajudar a tornar mais autêntica e humana a comunicação.”
É perceptível que, na família, a comunicação primeiramente se dá como “um diálogo que se tece com a linguagem do corpo”. Um pequeno texto escrito por Roberto Crema nos ajuda nessa reflexão. Ele diz assim: “O corpo é o inconsciente visível”, afirma o psicanalista Wilhelm Reich. É o nosso texto mais concreto, nossa mensagem mais primordial, a escritura de argila que somos. É também o templo onde outros corpos mais sutis se abrigam (CREMA in LELOUP, 2001 p.9).
Na família, a proximidade entre as pessoas, a presença efetiva do outro e os vínculos que se constroem criam e recriam diariamente o ambiente propício à comunicação dialógica. O papa Francisco traz o texto da visita de Maria a Isabel para falar do diálogo que se realiza pela simples presença, pelo estar aí para o outro, para o diálogo mais genuíno, que dispensa palavras iniciais, mas gera palavras fundadoras de outras realidades, ainda não vistas. O encontro jubiloso entre essas duas mulheres ou, mais precisamente, o encontro entre Jesus e João Batista ainda no ventre de suas mães, é um encontro sutil, cheio de promessas, entre seres enlaçados por vínculos familiares e por afetos oferecidos e acolhidos. A experiência da gestação é a que mais nos aproxima do mistério dessa linguagem silenciosa, na qual os corpos interligados se comunicam, embora ainda não se distingam, mas se nutrem, se afeiçoam e se alegram pelo encontro que já acontece nas entranhas da vida. “Exultar pela alegria do encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo.” Essa afirmação do papa Francisco nos relembra que a comunicação é algo que passa pela necessidade de um aprendizado, que vai acontecendo ao longo da experiência do viver, mas que começa ainda no ventre materno. Ali, em um ambiente protegido e acolhedor, pela escuta e pelo contato corporal, iniciamos o aprendizado da relação com o mundo, e esse ambiente recebe o título de Primeira Escola de Comunicação.
Para a criança, após o nascimento, a linguagem do corpo é ainda a única possível para a comunicação necessária. Linguagem silenciosa do afago, da ternura do olhar que acaricia, do seio que nutre, das mãos que protegem, embora, nas situações doentias, possa ser a linguagem do descaso e da violência que fere e mata.

Família é ventre – Por essa razão, a metáfora da família como ventre também é muito interessante. “Um ventre feito de pessoas diferentes inter-relacionando-se.” Família como ambiente vinculante, onde é possível aprender a experiência positiva do encontro das diferenças na gratuidade do amor, na superação de desentendimentos e competitividades excludentes. O papa Francisco aponta para duas diferenças – entre gêneros e entre gerações – que se destacam nesse ambiente amoroso, enriquecendo sobremaneira o processo comunicativo, criando vínculos que o que nós somos, recordando os que nos precederam, mas ao mesmo tempo nos remetendo ao futuro que precisamos construir.
Para o fortalecimento dos vínculos, lançamos mão, além da linguagem corporal, de uma linguagem que se estabelece através das palavras. Palavras aprendidas com os “próximos diferentes”, pais, mães, avós, irmãos, tios, primos e tantos outros que se agregam às nossas famílias. “Nós não inventamos as palavras: podemos usá-las porque as recebemos. É em família que se aprende a falar na ‘língua ma¬terna’, ou seja, a língua dos nossos antepassados.” A palavra aprendida é a palavra que se escuta e a que se diz. É a que permite dizer as coisas, os fatos, os sentimentos. É a que permite também a cada um “dizer-se”. Nossa identidade ganha força à medida que podemos pronunciá-la e vê-la acolhida pelos outros. As relações que se estabelecem em torno das palavras nos fortalecem e nos recriam a cada vez.
A “língua materna”, por ser esta que originariamente nos vincula, é a mais apropriada para expressarmos os nossos sentimentos mais profundos. Por essa razão é a mais apropriada para falarmos também com Deus e de Deus. É na família, como ambiente, que aprendemos a orar, a nos comunicar com aquele que nos transcende, encontrando sentido na comunhão que se estabelece através do amor e na prática do bem.
O papa diz ainda que é na família, como ambiente, que existe a “capacidade de se abraçar, se apoiar, acompanhar, decifrar olhares e silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e, todavia, são importantes umas para as outras”. Diz ainda que “é, sobretudo, esta capacidade que nos faz compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e construção de proximidade”. Essa, definição de comunicação também é muito interessante: comunicar é construir proximidade. Será que nosso jeito moderno de comunicar se presta a esse papel? A falta da proximidade, o isolamento, o individualismo exacerbado, o autorreferenciamento que não nos permite enxergar as pessoas, tocá-las, senti-las, é uma doença que nos acomete e, assim, não aprendemos a “reduzir as distâncias”, a sair em direção a tantos outros que estão próximos a nós, vivendo muitas vezes uma solidão angustiante e insuportável. Por isso o papa Francisco nos fala da importância da visita de Maria a Isabel. “Visitar significa abrir as portas, não se encerrar no próprio apartamento, sair, ir ter com o outro.” A vitalidade das famílias está na comunicação, no inter-relacionamento, na ajuda mútua, na comunhão que se estabelece também para com os de fora.
É também na família, como ambiente, que experimentamos “as nossas limitações e as alheias, os pequenos e grandes problemas da coexistência e do pôr-se de acordo”. Tomar consciência das nossas fragilidades, das nossas vulnerabilidades, nos permite compreender afetivamente os outros, também nas suas dificuldades e limitações, e nos capacita para receber e oferecer o perdão. Esse é o único caminho possível para a reconciliação e para a paz e deve ser aprendido no ambiente familiar. “Em um mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção.” O perdão, a não violência que cura, a misericórdia, a proximidade terna, o acolhimento e a não discriminação podem romper com o círculo vicioso do preconceito e da exclusão, da violência sem sentido, do ódio exacerbado por fundamentalismos desnecessários e intolerâncias injustificáveis e permitir uma experiência civilizatória em que o bem prevaleça e a fraternidade seja o fundamento.

Aprender a narrar – Por fim, o papa diz que “os meios de comunicação atuais, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens, tanto podem dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias”. Ajudam se nos ensinam a narrar e a compartilhar, a permanecermos em contato com os que estão longe, tornando possível o encontro e a comunhão entre as pessoas. O grande desafio a que estamos submetidos na contemporaneidade é o de “aprendermos de novo a narrar, não nos limitando a produzir ou consumir informação”. Precisamos reto¬mar a capacidade de contar as nossas histórias e as da nossa gente, a falar de nós mesmos e das nossas experiências mais significativas, através da linguagem do amor, acessível a todos, reativando a confiança entre nós, com uma comunicação que saiba tomar a iniciativa do encontro, que possa acompanhar os que estão perto ou longe, colher os frutos produzidos neste estar juntos e festejar. “Narrar significa, pois, compreender que nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e que cada uma é insubstituível.”
Só assim poderemos dizer com o papa Francisco que a família continua a ser um grande recurso e não apenas um problema ou uma instituição em crise ou um modelo abstrato que se há de aceitar ou rejeitar, defender ou atacar, em vez de uma realidade concreta que se há de viver. Que ela possa continuar a ser o lugar da humanização da nossa comunicação e o ambiente onde é possível aprender o que significa comunicar – através do amor recebido e ofertado – a beleza e a riqueza do relacionamento entre as pessoas.

* Maria Inês de Castro Millen é doutora em Teologia, docente e pesquisadora na área teológica. Atua principalmente nos temas: teologia, moral do diálogo, teologia e gênero, liberdade e fidelidade criativas e ética teológica. Tem experiência, como médica, na área de Medicina, com ênfase em Ginecologia e Obstetrícia.






Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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