O sagrado e o sublime

Data de publicação: 10/05/2015

A alma humana tem sede do sublime, assim como é sedenta do sagrado, para o qual tende como quem busca retornar à sua fonte

Texto Clovis Salgado Gontijo *   
Arte Sergio Ricciuto Conte *   

Como verificamos no artigo Certas coisas, edição nº 948 da Revista Família Cristã, a experiência estética sempre há de lidar com algo de inexprimível, pelo simples fato de se referir a sensações, por demais singulares em relação à universalidade da linguagem. No entanto, em alguns âmbitos da apreciação sensível, manifesta-se em maior grau a limitação das palavras. Dentro da clássica divisão entre o belo e o sublime, categorias ou sentimentos estéticos, é o segundo que traz mais desafios tanto à razão quanto à linguagem.
Ao apreciar o belo, identificado numa rosa, nos ornamentos de uma tapeçaria ou numa pedra lapidada, colocamo-nos diante de formas circunscritas, facilmente apreensíveis e descritíveis. Muitas vezes, o belo chega a se justificar por critérios inteligíveis, como a simetria, a ordem e a proporção. Além disso, o modo sereno como ele nos atinge e o seu lugar de objeto, separado do contemplador, facilitam a sua reflexão e verbalização.

O sentimento do sublime − Por outro lado, acentua-se, no sublime, a percepção do excesso que ultrapassa nossas possibilidades cognitivas e linguísticas. Todos os traços negativos atribuídos às realidades que nos provocam o sentimento do sublime apontam justamente a este fato. Basta recordar seja o céu estrelado, cuja vastidão nos remete à infinitude, ao incomensurável e ao irrepresentável, seja o espetáculo de uma tempestade, dotada de força incalculável e indomável. Curiosamente, o sentimento do sublime nos faz descobrir que estes atributos privativos são capazes de produzir uma ressonância afetiva em quem os experimenta, uma comoção talvez ainda mais intensa que aquela trazida pelo belo.
A negação implícita no sublime também se expressa por outras vias. Desde a Grécia clássica, filósofos como Platão e Aristóteles perceberam que nem todo o deleite estético se dava de maneira exclusivamente positiva e tranquila. Maior exemplo disso era a tragédia, que emocionava seu espectador desestabilizando-o, angustiando-o e, até mesmo, aterrorizando-o. Este misto de admiração e terror se tornará, no séc. XVIII, uma das características distintivas do sentimento do sublime, marcado pelo assombro.
Outra particularidade negativa dessa categoria estética é como nos relacionamos com o que a suscita em nós. A amplidão de um deserto ou a altura de uma catedral, por exemplo, fornecem-nos escalas de enorme grandeza, porém não nos apresentam, por si mesmas, a infinitude. Ausente no mundo físico, regido por medidas sempre relativas, ela só residiria dentro do espírito humano, embora seja especialmente desencadeada pela magnitude de certos fenômenos naturais e obras de arte. Por conseguinte, o sentimento do sublime implica a necessidade de se negar a limitação do que se contempla, transcendê-la, a fim de alcançar uma ideia de totalidade que as simples percepções jamais poderiam nos oferecer.

O sagrado − Assim, descortina-se algo de religioso no sublime. Uma abertura orquestral de Beethoven, com todo seu suspense, contrastes, magnetismo e arroubos, é capaz de elevar o espírito, que encontra nas fontes do sublime o “eco” da sua própria grandeza e da sua alta destinação. A alma humana tem sede do sublime, assim como é sedenta do sagrado, para o qual tende como quem busca retornar à sua fonte.
A correspondência entre essas duas categorias, a primeira de ordem estética e a segunda de ordem religiosa, torna-se indiscutível na célebre obra de Rudolf Otto, O Sagrado. Buscando detectar as particularidades do contato com o divino, Otto se apodera dos traços fundamentais do sublime, que se repetem em diferentes concepções religiosas do sagrado.
A própria definição do numinoso, termo que pretende recuperar a dimensão não apenas moral e racional da divindade, é construída a partir da natureza mista do sublime. Engloba, além do fascínio, o tremendum, isto é, o que causa arrepios, estupor, temor preenchido de reverência, exultação acompanhada de tremor (Salmo 2, 11). Tal composição dúbia do sagrado, ou melhor, do sentimento por ele causado, evidencia-se no livro XI das Confissões, no qual Santo Agostinho descreve nos seguintes termos sua reação diante do contato com a Sabedoria divina: “Que luz é esta que me ilumina de quando em quando e me fere o coração, sem o lesar? Horrorizo-me e inflamo-me: horrorizo-me enquanto sou diferente dela, inflamo-me enquanto sou semelhante a ela”.
Pela leitura da obra de Otto, descobre-se que também se projeta sobre o sagrado a mesma subdivisão encontrada na compreensão moderna do sublime. Conforme pontuamos, este pode se revelar como excesso em intensidade ou em magnitude, ou seja, em termos dinâmicos ou matemáticos, segundo a terminologia empregada por Kant. Otto destaca, como exemplo do primeiro, a imagem do “Deus vivo”, que, em alguns momentos, intervém como força da natureza, desmedida e arbitrária. No Antigo Testamento, esta energia divina é frequentemente interpretada como uma espécie de “cólera” e, para alguns místicos cristãos, em continuidade com o Salmo 66, manifesta-se como irresistível ardor que subjuga, consome e transforma a alma. Quanto à sublimidade matemática do divino, o grande Rei é “muito maior que os Deuses todos / tem nas mãos as profundezas dos abismos, e a altura das montanhas lhe pertencem” (Salmo 95, 3-4). Já a Sabedoria de Deus “não tem medida nem limites” (Salmo 147, 6), seus pensamentos são insondáveis e incalculáveis, “se os conto, serão mais que grãos de areia; / se chego ao fim, ainda falta conhecer-vos” (Salmo 139, 17-18). Como Kant, o salmista se dá conta da limitação própria à percepção humana, capaz de apreender apenas as partes, mas nunca a soma, a totalidade.
Todas estas correspondências permitem a Otto afirmar que, “no domínio artístico, é o sublime que representa o numinoso com maior intensidade”. Mesmo se não estivermos plenamente de acordo com esta afirmação, percebemos como se encontram e se identificam dentro de nós uma emoção estética e outra religiosa. Entre elas as fronteiras são tênues, fator que propicia tanto o despertar para o numinoso a partir do sublime estético quanto o assombro pela magnificência da arte e da natureza a partir de uma abertura para a Verdade “por demais maravilhosa”, “tão sublime que não posso compreendê-la” (Salmo 139, 6).


* Clovis Salgado Gontijo é doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica-se ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. É professor-assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), clovisalgon@gmail.com
 
* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br.  

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Fonte: Familia Crista ed. 950/fevereiro de 2015
Postado por: Família Cristã




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