Conquistador do mundo digital

Data de publicação: 10/05/2015

Família e comunicação: mundo digital e jovens


Fernando Geronazzo*

Juventude refere-se ao período do ciclo da vida em que as pessoas passam da infância à condição de adultos e, durante o qual, acontecem importantes mudanças biológicas, psicológicas, sociais e culturais, que variam segundo as sociedades, as culturas, as etnias, as classes sociais e o gênero.  Essa é a definição básica oferecida pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco).
Também sabe-se que é próprio dos jovens o desejo de mudar o mundo de ser revolucionário, de quebrar paradigmas, superar tabus, transpor barreiras. Um exemplo recente disso foram os protestos de 2013 que tomaram as ruas do país e, como em muitas outras ocasiões na história, com objetivo de manifestar sua insatisfação com a realidade.
Mas esses jovens não somente protestam, eles são irreverentes, possuem sonhos, esperanças, enfrentam desafios, possuem cruzes e luzes, como costuma dizer o padre Zezinho, scj. A juventude não somente ocupa as ruas e praça para manifestar o que são, ocupam um lugar que no qual se sentem a mais do que em casa, onde, pode-se dizer, “nadam de braçadas”: a rede ou ambiente digital.
A juventude é, sem sombra de dúvidas, a geração mais imersa nessa realidade que pode ser considerada a expressão de uma nova era da existência humana. A internet, teoricamente definida como a rede mundial de computadores, cada vez mais é desbravada pelos jovens, que ensinam ao mundo que ela não é simplesmente um conjunto de cabos e fios, mas um verdadeiro lugar de experiência humana, de conexão de pessoas.
Na mensagem enviada aos participantes do 4º Encontro Nacional da Pastoral da Comunicação, realizado em Aparecida (SP), em julho de 2014, o Papa Francisco ressaltou este aspecto da rede: “O continente digital antes de ser uma mera realidade tecnológica é, antes de tudo, um lugar de encontro entre homens e mulheres (pessoas), cujas aspirações e desafios não são virtuais, mas reais e têm necessidade de uma resposta concreta.”
E a presença da juventude nessa realidade é efetiva justamente pelo fato desta geração ter compreendido muito bem que a rede não é um meio de comunicação a ser utilizado como os meios tradicionais, telefone, carta, etc., mas é um ambiente a ser habitado.
Pode-se ver com clareza essa nova forma de experiência humana com a popularização dos smartphones, por exemplo. Há alguns anos, para estar online era preciso estar diante do computador conectado à internet. Quem não se lembra das primeiras experiências de conexão à internet discada? Hoje, não é possível dizer quando se está ou não conectado. Com um celular no bolso, a pessoa está o tempo todo conectada, mesmo que não esteja acessando seus conteúdos ou mensagens.  Principalmente para os jovens, o smartphone é como que uma extensão dos membros do corpo, amplia o alcance da realidade, diminui distâncias e quebra limites. Em outras palavras, não existe mais o distinção entre real e “virtual”, pois a experiência vivida na rede também é real.
O jesuíta italiano Antonio Spadaro, autor do livro Ciberteologia, chama a atenção para esta questão, quando afirma que quando se diz que a rede é um lugar de uma experiência real, é preciso ter claro que o digital jamais pode substituir a experiência física. “O digital potencializa as relações ou amplia os horizontes das relações humanas a partir do momento em que eu posso me relacionar com alguém que está distante fisicamente de mim, por exemplo”, explica. 

Compartilhar – Mas o jovem não somente está na rede para se mobilizar pela transformação do mundo. Compartilhar é o verbo predominante da vida digital. Lá é por excelência o lugar do compartilhamento de ideias, imagens, informações, experiências, em resumo, de si mesmo. O jovem intuiu também essa lógica da rede que vive nela da mesma forma que vive fora. Para ele, não existe uma vida off-line e outra online, existe uma vida. Quando não se insiste na distinção entre real e virtual, assumindo duas personalidades, pode-se viver uma espécie de “esquizofrenia”, como ressalta Spadaro.
Isso tem um aspecto muito positivo, pois cada vez mais os jovens encontram mais liberdade para expressar o que sente e o que pensa. Mas também pode explicitar alguns riscos como, por exemplo, a perda do limite entre público e privado. É muito comum nas novas gerações essa mistura entre intimidade e publicidade se expondo de maneira demasiada. Há também um risco quanto à sua segurança, uma vez que o jovem compartilha sua localização com frequência, permitindo que todos acompanhem sua vida, passo a passo.
Porém, é preciso ter claro que esse não pode ser considerado um risco trazido pela rede, mas apenas potencializado nesse novo ambiente. Esse desejo de liberdade e de quebra de limites é da natureza do jovem, a experiência decorrente das novas tecnologias apenas dá mais espaço para isso.

A imagem – Essa nova maneira de existir também tem dado um novo significado para alguns símbolos e práticas, por exemplo, a fotografia. Com o surgimento das câmeras digitais, agora integradas aos celulares, nunca se tirou tanta foto como hoje. Porém, diferentemente do passado, boa parte dessas imagens deixaram de ser uma mera recordação. Entre os jovens, não é comum fotografar para ver depois, mas para compartilhar em tempo real. O jovem fotografa para compartilhar sua experiência.
O jovem não se contenta simplesmente compartilhar a imagem simplesmente, ele precisa transmitir um pouco do que sente, como seus olhos veem e como ele interpreta. Esse papel é muito bem desempenhado pelos filtros de ferramentas pelas quais mudam a luminosidade, a cor, ressaltam algum aspecto da imagem de maneira artística, poética.
E nesse contexto, é impossível não falar das populares selfies, os bons e velhos autorretratos, que suscitam muitas reflexões pois tem aspectos positivos e negativos. Muitos estudiosos do comportamento avaliam que a selfie é uma forma de expressão de narcisismo, egocentrismo, carência afetiva, necessidade de chamar a atenção para si. Em muitos casos percebe-se com clareza isso e, como em tudo na vida, sempre é bom ter a justa medida. Quando uma pessoa faz uma selfie em algum lugar, diante de algo que acha interessante ou importante, ela pode estar supervalorizando sua imagem ao invés daquilo que ela quer compartilhar. Sem perceber, a pessoa não compartilha mais o que vê, mas sempre a si.
Por outro lado, a selfie representa uma mudança de paradigma muito importante quando coloca também o fotógrafo, antes atrás da câmera, como protagonista da imagem. Um exemplo claro disso são as selfies com personalidades ou celebridades. Entre os jovens, o famoso autógrafo já é algo pré-histórico desde a popularização das câmeras digitais. Mas a moda agora é fazer uma selfie com o seu ídolo da música, do esporte, do cinema, até com o Papa. A celebridade, que antes era registrada de longe, como protagonista, agora divide a cena com o fotografo, lado a lado. Essa é uma mudança muito significativa.

Viver na realidade – Mais do que nunca, os jovens precisam compreender o equilíbrio e complementariedade que a vida dentro e fora da rede possuem. Um jovem desconectado perde a oportunidade de viver novas experiências, conhecer novas pessoas e cada vez mais se isolará da realidade. Mas um jovem que vive trancado no quarto somente conectado no ambiente digital, perderá a referencia a sua existência. Na rede, não se pode experimentar todos os sentidos, somente a visão e a audição, que, por sua vez, são potencializados, permitindo que se veja e se ouça mais longe. Porém, somente quem consegue viver a experiência do toque, do abraço, do cheiro e do gosto das coisas, conseguirá viver bem como cidadão do continente digital.

*Fernando Geronazzo de Souza é especialista em Jornalismo Multimídia. Atua na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo Digital e gestão de mídias digitais. Coordena a Equipe de Comunicação da Comissão para a Juventude, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e é responsável pelo Projeto Jovens Conectados.

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Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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