Cheias de graça

Data de publicação: 18/05/2015

Na espiritualidade cristã, a graça também se liga à espontaneidade e à simplicidade e parece se manifestar especialmente numa figura feminina

Texto Clovis Salgado Gontijo *   
Arte Sergio Ricciuto Conte *  
   

Ao afirmar, em O Sagrado, que “o vocabulário da graça e do carisma são também comuns às performances artísticas”, Rudolf Otto nos ajuda a descobrir outras confluências entre arte e espiritualidade. Neste artigo, percorreremos o conceito de graça, que, embora tenha sido amplamente desenvolvido pela teologia cristã a partir das cartas paulinas, possui, em sua origem, conotação estética.

A graça sensível − Na literatura antiga profana, o termo grego charis, do qual deriva o latino gratia, aparece como “o que brilha ou centelha, que deleita a vista” (Robert Gleason) ou, num contexto mais amplo, como o que torna algo ou alguém encantador. No entanto, mesmo quando ainda destituída do sentido de favor divino, a utilização estética da graça já contém certo tom espiritual.
Ao abordar o tema do sublime, mencionei que o conceito de beleza costuma se apoiar em critérios inteligíveis, mensuráveis e descritíveis, como ordem, simetria e proporção. Contudo, para algumas reflexões estéticas, a mera observação desses critérios não é suficiente para provocar o verdadeiro deleite. Defende o filósofo neoplatônico Plotino que a beleza só se efetiva quando a ela se soma um segundo elemento, uma espécie de “luz que brilha sobre a simetria” (Eneada VI, 7, 22). Esse componente potencializador da forma é a graça, imponderável, impalpável e inapreensível. Enquanto a beleza formal pode provir, num poema, de sua perfeição métrica, numa estátua, da relação entre as partes do corpo representado, numa tela, de seu planejamento geométrico, a graça é atmosférica, somos incapazes de localizá-la ou “dissecá-la”.
Elemento indivisível, a graça envolve toda a matéria que nos comove, seja ela um ser vivo ou uma obra de arte. Dentre estes, segundo Plotino, o primeiro seria um “lugar” privilegiado para a manifestação da graça, talvez justamente por nele se expressar o movimento da vida e a luz indefinível, mas fecunda, do interior humano.
Na Modernidade, esse componente estético assimila novas características. No seu Ensaio sobre o Gosto, Montesquieu relaciona a graça a valores como a espontaneidade, a ingenuidade e a simplicidade. Para o filósofo francês, “os grandes conjuntos de joias raramente possuem graça, enquanto, com frequência, o traje das pastoras é gracioso”. Além disso, a graça, associada ao charme, é compreendida como traço eminentemente feminino, pois é na mulher que o sexo oposto encontra o maior grau de surpresa e mistério, elementos dispensáveis para a beleza que se escancara desde o primeiro instante. Para um autor pouco anterior a Montesquieu, o jesuíta Dominique Bouhours, o mistério da graça “que penetra o caminhar, o riso, o tom de voz e até os menores gestos da pessoa que agrada” (Les Entretiens d’Ariste et d’Eugène) é tão intrigante que chega a ultrapassar o próprio mistério de Deus, apoiado no cristianismo sobre sólida construção teológica.

A graça cristã − Ligada aos complexos conceitos de salvação e justificação, a graça cristã revela-se igualmente como um “algo mais” essencial, em relação não à efetividade de uma beleza aparente, mas à efetividade da vida. Sem a graça espiritual, que é a presença de Cristo e a ação do Espírito Santo em nós, é impossível não ser opaco, não murchar. Por outro lado, quando nutridos pela seiva do Espírito, nosso ser se ilumina, viceja e vivifica.
O acréscimo de vida efetuado pela graça pode ser compreendido como uma transformação. Assim como as bases materiais de uma obra de arte se transformam quando revestidas de encanto, o ser humano e toda a natureza se transformam pela graça espiritual, que emerge a partir do advento da Encarnação. Tudo o que estava em certo estado de inércia ou até mesmo corrompido pela falta do primeiro Adão se regenera, se renova (cf.2Cor 5,17) e se eleva no momento em que, por Jesus Cristo, somos adotados como filhos de Deus. Não é difícil concluir que a graça da adoção, além de nos transformar, é capaz de nos divinizar. Como ressalta a tradição oriental, por meio dela podemos ocupar, como imagens restituídas de Deus, uma “posição divina” (Pseudo-Dionísio).
Essa divinização não deixa de conter implicações estéticas: a alma divinizada, recoberta pela graça, adquire “uma beleza supraterrestre” (Cirilo de Alexandria), torna-se “uma obra-prima na qual brilha a atividade da imagem divina e na qual reluz a glória e a imagem da substância do Pai” (Ambrósio). É interessante como, no contexto da graça cristã, a luz reaparece como privilegiada metáfora. Basta recordar que, para os Padres da Igreja, o Batismo, no qual somos regenerados pela graça, é chamado de “sacramento da iluminação”.
A transmutação das formas materiais, tanto pela luz quanto pela graça, realiza-se por uma irradiação que, como a seiva, penetra e se espalha. O encanto difuso e envolvente repete-se no plano espiritual: “A graça está espalhada sobre teus lábios” (Sl 44,3), “a luz resplandece sobre o rosto de Cristo”, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).
A menção à terceira pessoa da Trindade, intimamente relacionada à graça cristã, permite-nos observar que esta tampouco é estática. São Paulo adverte: “Não apagueis o Espírito em vós” (1Ts 5,19). Como chama, a graça da qual participamos é móvel, pode ser alimentada, mas também sufocada. Curiosamente, o mesmo se aplica ao âmbito artístico, quando uma interpretação acentua ou negligencia o encanto que repousa num acorde, numa fala ou numa coreografia.
Por fim, vale acrescentar que, na espiritualidade cristã, a graça também se liga à espontaneidade e à simplicidade. Na medida em que é dom, não poderia ser forjada, transcende, como muitas obras-primas, o seguimento de leis estritas e, além disso, manifesta-se especialmente nas almas despojadas. Talvez o maior exemplo delas seja Maria, aquela que, pela sua plena consonância com o desejo divino, é “cheia de graça”. Portanto, assim como a graciosidade, a graça cristã parece se manifestar especialmente numa figura feminina, que, ao longo de suas múltiplas representações pela história da arte, comprova a necessidade de um componente espiritual para a beleza e de uma participação na beleza (não seria ela a graça?), para a vivência genuína da espiritualidade.


* Clovis Salgado Gontijo é doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica-se ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. É professor-assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), clovisalgon@gmail.com
 
* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br. 

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Fonte: Familia Crista ed. 951/Março de 2015
Postado por: Família Cristã




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