Lições da África

Data de publicação: 25/05/2015

Antiga tradição africana dos griôs é recriada como via pedagógica na Chapada Diamantina e ganha força no Brasil

Fotos Jesus Carlos Imagemglobal
Crédito Bruno Cirillo, de Lençóis (BA)

Um velho griô adentra a vila do Remanso, de chapéu e violão, anunciando sua presença com uma cantiga. No pandeiro, acompanha-o Delvan Dias, líder do quilombo situado em Lençóis (BA), a principal cidade turística da Chapada Diamantina. Os dois caminham por uma estrada de terra até chegar a um grupo de turistas reunido sob um pé de manga.
Inspirados pela tradição dos griôs – figuras definidas pela literatura como uma espécie de comunicador social da África, que viaja entre os vilarejos para contar histórias e transmitir conhecimentos –, eles formam uma roda e começam a apresentar músicas, danças e lendas regionais. É o começo de mais uma Trilha Griô, frente de atuação da Organização Não Governamental (ONG) lençoense Grãos de Luz e Griô, fundada em 2001 pelo baiano Márcio Caires (o velho griô) e sua esposa, Lillian Pacheco.
As Trilhas Griô são um dos quatro pilares da instituição, que se dedica a projetos educativos voltados à preservação da cultura popular. O objetivo é valorizar, por meio do turismo de base comunitária, antigas práticas de comunidades tradicionais da Chapada Diamantina, cujo parque nacional é um famoso destino do ecoturismo brasileiro.
Cerca de cem famílias, em 11 povoados da região baiana, estão preparadas para hospedar visitantes e guiá-los em passeios onde mostram alguns dos seus costumes. “É um turismo de identidade: as pessoas vêm aqui conhecer o nosso povo e a nossa cultura”, resume Dias, o presidente da Sociedade Beneficente dos Pescadores do Remanso, organização quilombola formada em 1959. Das 54 famílias da vila, 16 atuam no roteiro da Trilha do Remanso. “Eram submetidos a subempregos, agora são donos do próprio negócio”, diz a presidente do Grãos de Luz e Griô, Luciene Cruz.
Financiada por meio de editais, a iniciativa atraiu 500 mil reais em investimentos desde sua idealização, em 2005, o que possibilitou a transformação de residências em pousadas familiares; a estruturação de museus do garimpo, atividade que levou à ocupação da Chapada Diamantina no século 19; e o fortalecimento do jarê, tipo de candomblé encontrado somente aqui, entre outras culturas particulares. Saberes e afazeres de povoados como o do Remanso tornaram-se atrações turísticas, em oficinas como as de produção de mel, farinha e instrumentos de pesca. Até agora, os turistas movimentaram 450 mil reais nas comunidades envolvidas no projeto, que também recebeu apoio do estado da Bahia, em 2013, com a assinatura de um convênio de 480 mil reais. “Os benefícios foram muitos, em pouco tempo. A renda gerada superou a do turismo de aventura, que favorece poucas famílias na região”, afirma Dias, na primeira quinta-feira de outubro, enquanto separava a excursão em turmas menores para o almoço. 
Depois de comerem, dois visitantes foram aprender a fazer redes de pesca na casa de Leonor Oliveira. “Aqui, a gente vive do peixe”, conta a quilombola Maria da Conceição, no quintal de sua pousada familiar, enquanto o irmão, Adilson, confeccionava um manzuá – armadilha para peixes feita de cipó. “Tem um rapaz do Canadá que gostou muito daqui. Ele já voltou com o pai, e me escreve até hoje”, diz.. Mais adiante, a dona Judite preparava o seu xarope de plantas medicinais para alunas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), que também visitavam o Remanso naquele dia. Segundo ela, seus oito filhos foram criados sem jamais precisar de médico. Num barraco de taipa, o seu Aurino Pereira, famoso acordeonista de Lençóis, contava o passado do quilombo e falava sobre a histórica produção de farinha de mandioca, que anda escassa por conta da seca.

Missão pedagógica − O conhecimento destes griôs, como são considerados no âmbito do Projeto Grãos de Luz e Griô, também é passado em sala de aula, em parceria com os professores da escola do Remanso, para que as crianças e os jovens quilombolas não percam, em meio às disciplinas convencionais, o conhecimento dos seus antepassados. Capoeiristas, parteiras e benzedeiras também fazem parte do grupo de educadores, assim eleitos pelos próprios povoados de origem, e têm participação ativa na formação escolar. O modelo é reproduzido não só na Chapada Diamantina, mas em diversas regiões do Brasil. “As comunidades decidem quem são os seus mestres, e eles definem projetos, com os professores das escolas, em que dialoguem a tradição oral e a educação formal”, explica Lillian Pacheco, precursora da pedagogia griô no País. Nesta metodologia, a oralidade, e não a palavra escrita, é a principal ferramenta de ensino; assim como a voz, em países como o Mali, Guiné e Senegal, é o meio com que os griôs passam lições de vida aos mais jovens.
Entre 2005 e 2006, Lillian e o seu marido, empregaram o sistema pedagógico na formação de uma rede de ensino que hoje tem alcance nacional: 750 griôs mantêm parcerias com 600 escolas, universidades e outras instituições, levando a mais de cem mil alunos os seus métodos. Trata-se da Ação Griô Nacional, a principal frente de atuação da ONG lençoense, e que foi abraçada pelo Ministério da Cultura como frente do Programa Cultura Viva, lançado em 2004 para fortalecer iniciativas de grupos ligados à área cultural. “Logo no início, percebi que faltavam ações para a cultura tradicional”, lembra o idealizador do programa federal, Célio Turino. “Dentre os projetos que tínhamos à disposição, um deles era este. Tomei a iniciativa de falar com Márcio e Lillian, e o que era para ser um Ponto de Cultura (título dado às instituições beneficiadas), tornou-se uma importante ação do Cultura Viva”, diz ele, que era o secretário da Cidadania enquanto Gilberto Gil estava à frente do Ministério da Cultura.
Não só a metodologia, mas também o conceito proposto por Lillian e Caires, chamou a atenção de Turino àquela época. “Griot, em francês, significa ‘gritador’. Eram os mestres africanos que vinham ao Brasil, em navios negreiros, e ficavam gritando para os outros escravos, nos portos, para que não se esquecessem do conhecimento dos seus antepassados. Os portugueses não mexiam com eles porque achavam que eram feiticeiros”, observa o historiador.
A Ação Griô Nacional recebeu 8 milhões de reais em investimentos entre 2008 e 2012. as centenas de griôs envolvidos na iniciativa ganharam cartões para sacar bolsas destinadas à execução de seus projetos de ensino. Se o governo reduziu o financiamento destinado à cultura durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, o Grãos de Luz e Griô sempre teve um bom desempenho na articulação de recursos: sua média anual é de 500 mil reais, obtidos por meio de editais e parcerias. Ganhadora do Prêmio Itaú/Unicef em 2003, a ONG fechou patrocínios com empresas como a TAM, o Banco do Nordeste e a Telefônica.

De Lençóis para o Congresso – Em Lençóis, a sede da organização comporta salas para a realização de aulas de Música, Teatro e audiovisual, atendendo 500 crianças e 50 jovens em situação de baixa renda. Assim mantém em atividade, com espetáculos, um grupo de artistas na cidade. Ela também auxilia os estudantes na formação escolar, dando cursos preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e orientação para a entrada no mundo acadêmico, sem perder de vista o diálogo da tradição oral, na qual estão contidos o conhecimento ancestral dos alunos e a educação formal. Mas os desdobramentos do projeto não ficam restritos à pequena cidade de vocação turística, com cerca de 10 mil habitantes, entremeada nas serras centrais da Bahia.
Desde 2001, tramita no Congresso Nacional o Projeto da Lei Griô (PL 1.786/11), criado a partir da Ação Griô Nacional e assinado por 24 deputados ligados à Frente Parlamentar de Cultura. O documento propõe a instituição da pedagogia griô como sistema oficial de educação no Brasil. “Criamos um movimento nacional, a maior referência de política pública para a integração das tradições populares com a educação formal”, afirma Caires, que já foi presidente do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Cultura (Conecta). “Nossa proposta é que as comunidades digam ao governo quais são as suas propostas para a educação, invertendo a lógica atual, em que o governo define políticas educativas e as empurra para a população. Queremos trazer os ancestrais do povo brasileiro para a sala de aula”, completa Lillian, citando tradições afrodescendentes e indígenas como as mais contempladas pelo projeto. 


Visita ao Mali
Em 2007, Márcio Caires foi ao Mali, na África Ocidental, conhecer de perto a tradição recriada no Brasil por ele e sua esposa, Lillian Pacheco. Recebido pelo maliano Yaya Konatê, ele teve contato com o griô Dieli Mory Diabatê, que transitou com ele por aldeias contando histórias sobre os griôs e a família Konatê – momentos da vida dos avôs, filhos etc. “As famílias, na África, têm griôs para contar sua história”, diz o baiano, iniciado como griô em sua viagem. “Isto é o fio da identidade humana. Um grande desafio da sociedade atual é preservá-lo. A gente corta o fio da ancestralidade e acaba mexendo com nosso próprio reconhecimento, do que somos no mundo. De onde viemos? O papel dos griôs é manter viva essa memória.”
Nascido em Dom Basílio (BA), Márcio vivia em Salvador como auditor fiscal de uma multinacional, durante os anos 1990. Sua esposa, de Jacobina (BA), era analista de sistemas na capital baiana, para sustentar o interesse pela pedagogia. Em 1996, os dois escolheram Lençóis – na mesma Chapada Diamantina de onde vieram – para morar e desenvolver projetos ligados às áreas de Educação e Cultura. Dois anos mais tarde, passaram num concurso para lecionar na rede municipal de ensino. Márcio tornou-se professor, mas Lillian recusou a vaga, concentrando-se em seus estudos pedagógicos. “Nossa intenção era ter um pé na educação formal e, paralelamente, desenvolver a pedagogia da tradição oral. Era uma estratégia”, afirma ela. Em seu primeiro projeto, Escola Real, Escola Ideal, o casal levou um grupo de alunos para a zona rural do município, onde eles poderiam entrar em contato com suas raízes.
Foi em 1998 que um etnólogo teve contato com o trabalho do casal e disse: “Isso que vocês fazem é coisa de griô”, consagrando assim a figura que os acompanha até hoje na elaboração de projetos. 








Fonte: Familia Crista ed. 948 dezembro de 2014
Postado por: Família Cristã




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