A cura vem a cavalo

Data de publicação: 31/05/2015

A cura vem a cavalo

Nova técnica auxilia pacientes com lesão medular a ter melhor qualidade de vida e, em alguns casos, recuperar a sensibilidade ou os movimentos perdidos



Por Nathan Xavier

Em 2014, na abertura da Copa do Mundo de Futebol, um momento histórico de sete segundos foi negligenciado pelas emissoras de televisão e pela Fédération Internationale de Football Association (Fifa), ou Federação Internacional de Futebol, mas revelou uma conquista para a neurociência e a medicina: o chute do paraplégico Juliano Pinto, de 29 anos. Para tanto, o jovem usou um exoesqueleto ou uma estrutura metálica robótica, controlada pelo seu cérebro, criada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis. Juliano, no caso, foi vítima de um acidente de carro em 2006 e, como ele, diversas pessoas sofreram lesão na medula e perderam funções motoras, além da sensibilidade de algumas partes do corpo. Muitos cientistas ao redor do mundo procuram soluções como Nicolelis, criando ligações robóticas com o cérebro para devolver certos movimentos do corpo a essas pessoas. Mas poucos conseguiram, pois o cérebro possui funções complexas ainda não totalmente compreendidas.
Outra linha de pesquisa na busca por tratamentos para lesionados medulares consiste em estimular o organismo a criar conexões e restaurar células nervosas danificadas. O trabalho já traz ótimos resultados, principalmente nos Estados Unidos, onde é mais difundido. Através da técnica Activity-Based Restorative Therapies, que utiliza exercícios feitos pelo paciente fora da cadeira de rodas com equipamentos especiais, a musculatura, os nervos e a sensibilidade são estimulados. Instituições que trabalham com a técnica estimam em 70% o índice de pacientes paraplégicos e tetraplégicos que recuperaram as funções abaixo da lesão medular. Como resultado, muitas pessoas recobraram a sensibilidade das pernas e o controle da bexiga. Ou até mesmo voltaram a andar.

Neuroplasticidade – “Dependendo da lesão, é possível recuperar a medula com estímulo”, confirma Mayara Soares Verde, fisioterapeuta e pós-graduada em Fisiologia do Exercício e Biomecânica. A profissional trabalhou alguns anos com esse tratamento e se surpreendeu com os progressos. “Ensinam na faculdade que não há jeito para um lesionado medular. Logo, nosso foco como fisioterapeuta era apenas fortalecer os membros superiores e o tronco para facilitar tarefas do dia a dia. Mas eu vi que podemos ir além”, completa. Segundo Mayara, a alternativa é incentivar a neuroplasticidade do corpo humano, isto é, a capacidade do organismo de criar novas conexões neurais. De acordo com esse princípio, se o neurônio, a célula nervosa, foi integralmente destruído, de fato não há volta. Mas se estiver apenas danificado, com estímulos, pode-se recompor as redes neurais. “Quando aprendemos coisas novas, o corpo fabrica neurônios”, exemplifica. O que a técnica faz é usar essa área inata humana para reconstruir pontes neurais.
Mayara juntou a nova técnica a uma paixão pessoal: os cavalos. Ela também é pós-graduada em Equoterapia, técnica que utiliza o cavalo como meio terapêutico e auxilia no tratamento de várias enfermidades. Segundo ela, o cavalo potencializa a neuroplasticidade humana porque, quando montado, possui um movimento de andar tridimensional semelhante à marcha humana, ativando o organismo. Além dessa neuroplasticidade, a Equoterapia intensifica a memória muscular, onde o músculo e o corpo guardam a informação de como era andar ou mexer certo membro. Ao simular a marcha humana, o cavalo desperta essa memória e ajuda o corpo a criar mecanismos para contornar a lesão medular e reconstruir células nervosas não totalmente destruídas. Tais estímulos variam de uma pessoa para a outra, informa Mayara. “Isso depende do nível de lesão da medula e até mesmo se a pessoa era fisicamente ativa antes da lesão”, esclarece.

Estudo de caso – Estudos científicos na área ainda são raros porque geralmente são aceitas apenas pesquisas com controle específico de todas as possíveis variantes, algo que a Equoterapia ainda não consegue dar conta. “O cavalo é um animal complexo. Também não é todo animal que pode ser usado em terapia. Com isso, são muitas variáveis em jogo. Temos, na verdade, estudos de caso, e esse tipo de pesquisa o meio médico, infelizmente, costuma não aceitar”, lamenta Mayara. No Brasil, um importante e pioneiro estudo de caso com a técnica foi feito pela psicóloga, fisioterapeuta especialista em Equoterapia e instrutora de equitação Gabriele Brigitte Walter.
Apesar da Equoterapia ser uma área promissora a julgar pelos resultados que apresenta, a verdade é que a respeito dela ainda falta muita informação em pesquisa, além de recursos para explicar às pessoas que a técnica é muito mais abrangente do que se imagina. “Ela permite, por exemplo, que os tratamentos tradicionais de Fisioterapia e Psicologia sejam trabalhados ao mesmo tempo de forma potencializada, aumentando os ganhos para o praticante”, arremata a fisioterapeuta Mayara. Ganhos, aliás, que ela já observa no dia a dia de seus pacientes.




Fonte: Edição 953, maio de 2015
Postado por: Família Cristã




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