Uma mulher, muitos dons

Data de publicação: 30/06/2015

Memórias e narrativas de Marina Bandeira, uma das fundadoras do Movimento de Educação de Base, mulher que fez história na Igreja no Brasil, em prol da sociedade


Por Nayá Fernandes
Fotos Arquivo Centro Alceu Amoroso Lima

Sentada numa poltrona recoberta com um veludo velho e azul escuro, com a televisão ligada em algum show de Tom Jobim. Assim estava Marina Bandeira, no silêncio do apartamento que fica na Rua Maria Quitéria, em Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ). A tarde dava lugar à noite e a luz na sala ia diminuindo aos poucos entre um café e os sinceros sorrisos daquela “garota de Ipanema”, escondida entre os agitados bares de um bairro consagrado da cidade maravilhosa.
Marina viu Helder Câmara pela primeira vez durante uma palestra da qual participou, a pedido do bispo auxiliar recém-nomeado para o Rio de Janeiro, dom José Vicente Távora. “Eu fiquei de queixo caído com as palavras do então padre Helder, pelos conceitos e a fé profunda que ele tinha”, conta. Era 1954, quando ela vivia seu ano sabático e deixou o trabalho no Departamento de Imprensa da Embaixada da Índia.
Aos 90 anos, Marina trabalhou ao lado de nomes como dom Helder Câmara, dom Távora, dom Luciano Mendes de Almeida, dom José Maria Pires, Cândido Mendes, Maria Luiza Amarante, Margarida Genovois e Cecília Monteiro. Foi uma das fundadoras do Movimento de Educação de Base (MEB), da Comissão Justiça e Paz no Brasil, e participou da criação da Rede Nacional de emissoras católicas.
Mas a trajetória dessa carioca que, ainda em 1964, foi perseguida e acusada de ser “uma comunista infiltrada na Igreja Católica”, é repleta de contos inusitados das suas idas e vindas pelo Brasil, pela América Latina e Europa, para dar continuidade à luta por um País sem fome, analfabetismo e injustiças sociais. “O pessoal de Roma achava que quanto mais catecismo se ensinasse mais o mundo iria melhorar, mas a nossa contra-tese era: enquanto houver fome, analfabetismo e injustiça a Igreja não pode simplesmente ensinar o catecismo”, disse, ao recordar a atuação dos bispos brasileiros durante o Concílio Vaticano II.
   
Congresso Eucarístico Internacional − Depois daquele primeiro encontro com dom Helder, Marina foi a uma das reuniões preparatórias para o Congresso Eucarístico Internacional, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1955, do qual ele foi secretário-geral. “Era uma quarta-feira e acontecia a reunião para definir as questões do Congresso. Havia umas 40 pessoas. Naquele dia, eu vi a simplicidade daquela equipe e um trabalho em conjunto de verdade, e resolvi ajudar.” Mas, aos 30 anos, a jovem pensou que um evento daquela magnitude numa cidade cheia de problemas era um erro. “Eu, como tinha um pouco de conhecimento, fiquei com o encargo de ir aos meios de comunicação. No fim, foi incrível o que dom Helder conseguiu. O preço dos alimentos baixou, e não houve crimes. O congresso conseguiu mostrar uma Igreja Católica diferente”, avalia.

Concílio Vaticano II − “Foi uma coisa fantástica o que João XXIII inventou.” Ouvir Marina falar sobre o Concílio Vaticano II, que ela vivenciou, sobretudo por meio das correspondências e confidências com dom Helder Câmara, é olhar os bastidores desse evento que marcou os últimos 50 anos da Igreja Católica. “Houve um grande desentendimento entre a Cúria Romana e o papa, naquela época, que agora está mais claro com Francisco. Quando João XXIII convocou o Concílio, fizeram de tudo para ‘dinamitá-lo’. Mas o papa era muito hábil. Na abertura, dom Helder e outros sabiam que já estava tudo pre-determinado.”
Marina lembrou que, antes mesmo do início do concílio, dom Manuel Larrain, então bispo de Talca, no Chile, foi procurar dom Helder no aeroporto e comentaram sobre as chapas já determinadas que definiriam o concílio. “Eles conseguiram colocar os cardeais a par disso e ganharam algum tempo para que os bispos se conhecessem. Alguns historiadores dizem que os bispos brasileiros aprenderam muito com o concílio. Alguns bispos sim, mas outros, ao contrário, ensinaram, como a figura de dom Helder, sem dúvida, contagiante.”

A mulher e um grande movimento − Reunir pessoas que nunca se viram para discutir sobre os problemas do lugar em que vivem, mesmo que elas não estivessem habituadas a fazer isso. Essa era a ideia inicial do Movimento de Educação de Base, que “tomou uma dimensão em números e em qualidade impressionante desde 1962”, conta Marina. “As pessoas não estavam acostumadas a responder a perguntas. Então, no início, diziam coisas até absurdas, mas o importante é que estavam aprendendo a dar sua opinião. Era sempre um trabalho em equipe. Começaram, porém, a pedir algo escrito, para melhor fixarem as ideias, e assim surgiu a famosa cartilha.”
Por causa dessa cartilha, a vida de Marina e a de todos os que trabalhavam no MEB mudou muito, e assim que os militares tomaram o poder, ela passou a ser considerada perigosa. “Houve um tempo de tensão no MEB, pois o Governo cortou o financiamento. Carlos Lacerda fez um escândalo, e o grupo começou a pensar que era o fim. Na minha opinião, estava mesmo na hora de acabar com o MEB, pois a cartilha era só uma desculpa que os militares tinham. Porém, o núncio apostólico à época, dom Sebastiano Baggio, afirmou que só o papa poderia decidir pelo fim do movimento.” E foi numa reunião dos bispos que Marina seria convocada a ir pessoalmente falar com Paulo VI sobre o MEB.
“Eu estava no meu canto, sentada de qualquer maneira. Aquilo era até um protesto da minha parte, uma falta de educação. Quando, de repente, ouvi o núncio dizer que a pessoa mais indicada para ir a Roma era eu. Fui. A notícia se espalhou, e a resposta do papa também: ‘Não existe no mundo um trabalho como esse, e ele não pode acabar’. Paulo VI era uma pessoa extraordinária. Ele não era expansivo como dom Helder, nem fez o mesmo que João XXIII, mas era uma pessoa fina e forte. Nunca vou esquecer o que me disse sobre o MEB: ‘A Igreja Católica está fazendo o que de melhor se pode fazer’. Telefonei imediatamente a dom Helder e a dom Távora para contar. Tem que continuar, continuamos, mas cadê o dinheiro? E então, por meio da interferência de uma amiga que conhecia os militares, eles liberaram o dinheiro e nós continuamos.”
Uma curiosidade interessante sobre o Movimento de Educação de Base é que só no fim os membros se tornaram grandes amigos de Paulo Freire. No fim, porque no começo não se davam bem. “Ele deu uma grandíssima contribuição à educação brasileira, mas, no início, quando nosso grupo foi conhecer o trabalho de Paulo Freire, achamos um amontoado de palavras difíceis, uma metodologia complicada. Ele falava que éramos um bando de beatos que queriam, por meio da educação, infundir a fé católica. Não era nada disso. O grupo tinha uma base filosófica e teológica simples e condições de promover uma pedagogia fora dos padrões. Com o tempo, conseguimos nos afinar, e a educação brasileira hoje seria totalmente diferente e melhor, se 1964 não tivesse acontecido”, desabafa.
Depois de pouco tempo, os bispos perceberam que os jovens que participavam do MEB estavam sendo mal-falados e chamados de comunistas. Ao ser perguntada se havia algum tipo de ligação com o comunismo, Marina riu. “Nada”, disse, com veemência. “Os nossos princípios eram aqueles do Concílio Vaticano II, e nosso desejo era o de ajudar a construir um País melhor, só isso. Todos os problemas de analfabetismo, reforma agrária, fome de hoje estão dentro do caldeirão do Governo Militar. A qualidade do ensino baixou muito e ainda não conseguimos melhorar.”

Pela justiça e pela paz: uma comissão! − Após deixar o MEB, outros bispos assumiram, e Marina foi convocada de novo para ir a Roma em 1973. Dessa vez, convidada a ocupar o cargo de diretora, em caráter permanente, da Comissão Justiça e Paz no Vaticano. “Longe da família, dos amigos, do meu Rio de Janeiro? Escrevi uma carta recusando e agradecendo o convite.” Enquanto isso, no Brasil, o nome de Marina como presidente da comissão foi barrado por dom Agnelo Rossi, arcebispo de São Paulo (SP) e primeiro presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
“Cândido Mendes, eu e mais algumas pessoas interessadas sabíamos o que significaria a Comissão Justiça e Paz no Brasil, no auge de uma ditadura idiota, com a qual não se podia dialogar.” Na cidade do Rio de Janeiro, nos primeiros dias que se seguiram ao Golpe de 1964, podia-se ver navios cheios de pessoas presas que eram levadas para o Forte.  “Não havia critérios para se prender alguém, a não ser aqueles da empatia ou de uma suposta ameaça. A Marinha, a Aeronáutica e o Exército eram responsáveis por deter as pessoas”, comenta Marina.
Depois do Rio, o grupo ajudou a começar a Comissão Justiça e Paz também em São Paulo. “Dom Paulo Evaristo Arns, que havia sido nomeado em 1970, não sabia tudo o que estava acontecendo. Ele não podia saber tudo. Mas assim que foi empossado como arcebispo de São Paulo, com todas as autoridades presentes, pediu permissão para conhecer o chiqueirinho, apelido dado ao lugar onde ficavam os presos políticos na capital paulista. Foi uma cena forte. Não me lembro se ele foi paramentado ou com camisa de clergyman. Enquanto isso, fomos a São Paulo falar com dom Paulo sobre a comissão. Foi então que apareceu Margarida Genovois, que é carioca também. E a partir daí, lá a comissão foi formada por um grupo de alto nível”, lembra.

Os sinos tocaram − Eram 18 horas, e os sinos da Igreja Nossa Senhora da Paz tocaram imponentes quando Marina começou a falar sobre dom Helder. O silêncio parecia ainda mais profundo naquela sala. Um silêncio de saudade e respeito por um homem que, segundo ela, “é difícil dizer! Ele era muito diferente e humilde. Reconhecia quando errava. É difícil dizer a você. Era modesto. Pegava o bonde para refletir quando estava muito preocupado. Geralmente eu almoçava com ele, nós almoçávamos no escritório dele que ficava na Glória. Todos eram convidados. Quem estivesse por ali”.
As palavras faltaram. Mas logo vieram à mente os casos vividos juntos, “àquele bispo magrelo e baixinho”, na definição da amiga e aprendiz. E foi nesse momento que caíram dos olhos daquela senhora, sempre firme nas palavras, algumas lágrimas que vieram acompanhadas de um pouco de tosse. “Às 6 horas, dom Helder presidia a missa na Escola de Enfermagem Anna Nery. Ele morava em Botafogo e, sempre quando faltavam 20 minutos para as 6 horas, aparecia aquele português, motorista de uma lotação, que ficava esperando o dom sair de casa. Faziam sempre o mesmo circuito. Um dia, dom Helder perguntou: ‘O senhor, mesmo resfriado, veio me buscar?’. E o motorista disse: ‘Ah, dom! Eu não perco o senhor não, porque o senhor pra mim é como o sal de frutas Eno me faz bem. Então, eu faço qualquer coisa pra levar o senhor’.”
“Dom Helder era essa pessoa para quem você podia dizer uma coisa dessas, tão simples e até engraçada, e, ao mesmo tempo, ter uma conversa complicada, séria, que iria marcar o resto da sua vida. Um homem fantástico. Isso sem contar o fato de ele ter se deixado absorver por aquela mocidade da juventude católica, ter sido o bispo da garotada, que confiava nos rapazes”, lembra Marina.

Esperança − “A ditadura foi um período difícil em que as paixões eram muito exacerbadas. Ainda hoje, quando esses tons voltam, a gente percebe
 que não tem pé nem cabeça. Quando a rapaziada começou a sair nas ruas, sem armas nas mãos, pacificamente, em junho de 2013, eu senti que alguma coisa iria acontecer. Mas imediatamente inventaram a história do quebra-quebra e acabaram com tudo. O que sei é que antes de 1964 tinha gente séria trabalhando para melhorar a qualidade do ensino no Brasil e, de repente, todos foram considerados bandidos, comunistas, presos, torturados, mortos, exilados. Agora temos que recomeçar. Essa geração tem muito serviço e não importa se não sabem bem aonde devem ir, importante é estar à procura” disse Marina Bandeira, que no final da visita falou da família, da tia, a primeira botânica do Brasil, e de um grande problema de saúde que começou devido a um tratamento dentário que ela fez. “Mas esta história” – riu – “daria um outro livro”.




Fonte: Edição 952, abril de 2015
Postado por: Família Cristã




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