Uma ecoencíclica

Data de publicação: 06/07/2015

 Encíclica Laudato Si’, do papa Francisco sugere uma “conversão ecológica”: ouvir o clamor da terra, pobre entre pobres

Por  Moisés Sbardelotto*

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra.” Essas palavras de Francisco de Assis, no século 13, são retomadas por outro Francisco, bispo de Roma, no século 21, como inspiração para a sua nova encíclica, intitulada Laudato Si’ (Louvado sejas). Uma verdadeira “ecoencíclica”, centrada no “urgente desafio de proteger a nossa casa comum” (n. 13).
É um documento papal histórico, pois se trata da primeira encíclica a abordar exclusivamente – e extensivamente – a Criação, que é tanto nossa “irmã, com quem partilhamos a existência”, quanto a nossa “boa mãe, que nos acolhe nos seus braços” (n. 2). E, “na tradição judaico-cristã, dizer ‘criação’ é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projeto do amor de Deus, em que cada criatura tem um valor e um significado”, é “um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos (…) que nos chama a uma comunhão universal” (n. 76).
Se Francisco quer uma “Igreja pobre e para os pobres”, a Laudato Si’ lembra a todos os cristãos e cristãs que, “entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que 'geme e sofre as dores do parto' (Rm 8, 22)” (n. 2). E, quando se usa de modo irresponsável ou se abusa dos bens que ela nos oferece, “esquecemo-nos que nós mesmos somos terra” (ibid.). Assim, acabamos aumentando uma “grave dívida social para com os pobres” (n. 30), que se insere no marco de “uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul”, em que os povos em desenvolvimento e a sua biosfera alimentam o progresso dos países mais ricos “às custas do seu presente e do seu futuro” (n. 52).
Com a Laudato Si’, Francisco deseja lançar um “convite urgente”: a “renovar o diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta”, um “debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós” (n. 14). Francisco sabe que, para a crise ecológica, “não existe só um caminho de solução”, mas sim “uma variedade de contribuições que poderiam entrar em diálogo a fim de se chegar a respostas abrangentes” (n. 60). Por isso, defende uma “nova solidariedade universal”, um “desenvolvimento sustentável e integral”, na confiança de que “as coisas podem mudar” (n. 13).

O documento − A Laudato Si’ é um documento amplo, com seis capítulos, 246 parágrafos e quase 200 notas de rodapé. Nela, Francisco dialoga com inúmeros interlocutores, começando pelos documentos do Vaticano II, por diversos santos e doutores da Igreja, e pelos seus antecessores no papado. Também retoma o pensamento de vários autores de ciências e experiências diversas, citados nominalmente, como o escritor Dante Alighieri, o filósofo protestante Paul Ricoeur, o padre e teólogo Romano Guardini, o paleontólogo jesuíta Teilhard de Chardin, o teólogo jesuíta Juan Scannone e o mestre espiritual islâmico Ali Al-Khawwas. São inúmeras as citações de documentos das mais diversas Conferências Episcopais de todo o mundo – como, por exemplo, a CNBB e o seu documento A Igreja e a questão ecológica (1992) –, sinal de colegialidade também em nível magisterial. Trata-se ainda de um texto fortemente ecumênico, em que Francisco dedica nada menos do que três parágrafos ao pensamento do Patriarca Ecumênico Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, reconhecido pela sua preocupação ecológica. O papa cita diversas frases do coirmão, por exemplo, quando afirma que “um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus” (n. 8), ou quando convida a “aceitar o mundo como sacramento de comunhão” (n. 9). Assim, a encíclica assume diversas contribuições – religiosas mas também seculares, católicas mas também ecumênicas –, enriquecendo o magistério social da Igreja.

Para o mundo − A Laudato Si’, contudo, não se restringe à Igreja, nem mesmo apenas a um público cristão (tanto que a primeira das duas orações finais da encíclica também pode ser rezada pelos fiéis de outras tradições religiosas que acreditam em Deus). Tendo em vista a deterioração global do ambiente, o papa se dirige a um público muito mais amplo: “A cada pessoa que habita neste planeta” (n. 3). Por isso, o papa invoca o modelo de São Francisco, reconhecido por “todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos” (n. 10). Para o papa, o Pobrezinho de Assis é “exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral”, na qual é impossível separar “a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o compromisso com a sociedade e a paz interior” (ibid.). Francisco de Roma vê no seu homônimo de Assis uma abertura para a contemplação da natureza que ajuda a superar três posturas criticadas pelo papa em relação à Criação: a do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais.
Na sua organização interna, o documento praticamente segue o método “ver-julgar-agir”, como o Documento de Aparecida, fruto da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em 2007, da qual o então cardeal Bergoglio foi o principal redator. O primeiro capítulo da Laudato Si’ envolve o gesto de ver “o que está acontecendo na nossa casa”, como diz o título. Nele, Francisco passa em resenha os vários aspectos da crise ecológica, assumindo os frutos da pesquisa científica atual, deixando-se “tocar por ela em profundidade” (n. 15). O segundo capítulo é outro olhar, teológico, sobre a ecologia a partir da tradição judaico-cristã, em que o papa relê “o Evangelho da Criação”. Depois, Francisco busca “chegar às raízes da situação atual, de modo a identificar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas” (n. 15) e, no capítulo 3, discerne e julga “a raiz humana da crise ecológica”. Por fim, oferece “grandes linhas de diálogo e de ação que envolvem seja cada um de nós seja a política internacional” (n. 15), propondo “uma ecologia integral” (capítulo 4) e “algumas linhas de orientação e ação” (capítulo 5), mediante um “caminho educativo” que passa pela “educação e espiritualidade ecológicas” (capítulo 6).

Ecologia integral − A Laudato Si’ se insere na perspectiva da inter-relação e da ecologia integral: a afirmação de que “tudo está interligado” aparece cinco vezes ao longo da encíclica. Segundo Francisco, a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra (n. 66). Esse reconhecimento “exige uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade” (n. 91). Portanto, não há duas crises separadas – ambiental e social – mas “uma única e complexa crise socioambiental” (n. 139).
Por isso, Francisco se distancia tanto de um “antropocentrismo” que situa o ser humano como senhor do universo, quanto de um “biocentrismo”, que apenas inverte o lado da moeda, divinizando a terra. Para o papa, “não há ecologia sem uma adequada antropologia” (n. 118), na qual o conceito de ser humano deve ser entendido no sentido de um “administrador responsável” da Criação (n. 116). Para o papa, “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (n. 49).
O papa também critica o “paradigma tecnocrático” (n. 101), em que a tecnociência – embora com inegáveis contribuições – se manifesta principalmente como “uma técnica de posse, domínio e transformação. É como se o sujeito tivesse à sua frente a realidade informe totalmente disponível para a manipulação” (n. 106). Dada a complexidade da crise ecológica e as suas múltiplas causas, Francisco afirma que “as soluções não podem vir de uma única maneira de interpretar e transformar a realidade” (n. 63). A técnica e a ciência são apenas uma resposta dentre outras. “É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade” (ibid.), afirma o papa.
Ao contrário do que prega a “mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta” (n. 106), não podemos “pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais ‘recursos’ exploráveis” (n. 33). Por culpa da depredação e da extinção da biodiversidade, “milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão nos comunicar a sua própria mensagem” (n. 33). Não temos direito de fazer isso, exclama Francisco. Ao contrário, “cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua. Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (n. 84).

Amazônia − Pensando especificamente no Brasil, dois parágrafos se destacam. No número 38, o papa olha com preocupação para a Amazônia, “pulmão do planeta repleto de biodiversidade”. E denuncia “os enormes interesses econômicos internacionais” e as “propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais”, que “podem atentar contra as soberanias nacionais”. Segundo Francisco, cada governo é chamado a “cumprir o dever próprio e não delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais”.
Já o parágrafo 146 diz respeito à questão indígena, tão antiga quanto polêmica em nossas terras. Para Francisco, as comunidades aborígenes “não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços”. O papa afirma que, para os índios, a terra não é um bem econômico, mas “dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores”. E, quando conseguem permanecer nos seus territórios, são eles os que mais bem os cuidam, afirma Francisco.
A Igreja, porém, não quer se intrometer nas políticas específicas dos Estados, nem se envolver com ideologias partidárias. Francisco aponta para a “Política” com maiúscula, “uma das formas mais preciosas da caridade” (Evangelii gaudium 205). Por isso, na Laudato Si', ele defende o “amor social”, ou seja, um amor “cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor” (n. 231).
Para o papa, a atual crise ecológica é um apelo a uma “profunda conversão interior”, a uma “conversão ecológica”, que passa necessariamente por uma “conversão comunitária” (n. 217). Isso significa “deixar emergir, nas relações com o mundo que nos rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus” (ibid.). E isso também se manifesta mediante o “dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias”, como “evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, separar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com cuidado os outros seres vivos, utilizar transporte público ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, desligar as luzes desnecessárias” (n. 211). “E não se pense que esses esforços são incapazes de mudar o mundo”, afirma Francisco. “Essas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar” (n. 212).
A partir de São Francisco, o papa convida a praticar a sobriedade e a solicitude, renunciando “a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio” (n. 11). E a sobriedade, “vivida livre e conscientemente, é libertadora” (n. 222). Como o santo de Assis, é preciso regressar à simplicidade, evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres. “Trata-se da convicção de que ‘menos é mais’” (ibid.), da recuperação dos “distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus” (n. 210). Trata-se de um modo específico de pensar, sentir e viver que o papa chama de “espiritualidade ecológica” (n. 216), uma “espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (n. 240).
“Para além do sol”, como diz o papa em profunda poesia, “na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que há nela será assumido na festa do Céu” (n. 244). “Caminhemos cantando”, convida Francisco: “Que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” (ibid.).

* Moisés Sbardelotto é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade Unisinos (RS) e La Sapienza (Roma), e autor de “E o Verbo se fez bit” (Ed. Santuário)




Fonte: FC ediçao 955-JUL 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

O Anjo Bom do Brasil
Irmã Dulce,a religiosa que conquistou o coração do povo brasileiro será canonizada.
Mesa da Palavra
13º. Domingo do Tempo Comum - Ano C • 30 de junho de 2019 - Solenidade de São Pedro e São Paulo
Mesa da Palavra
A fé cristã professada pela Igreja Católica é de tal forma complicada, que só pode ser verdadeira.
Mesa da Palavra
Solenidade de Pentecostes.Quando ele vier, conduzirá os discípulos à plena verdade.
Mesa da Palavra
A refeição e a pesca são dois acontecimentos unidos na mesma narrativa
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados