Terceiro mandamento

Data de publicação: 07/07/2015

O respeito a todos os seres da criação aparece no terceiro mandamento, “guardar domingos e festas”

Por Maria Inês Carniato, fsp

“Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante”, disse o músico e médico alemão Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952. O terceiro mandamento é esse alto nível de consciência ética, expresso pela Igreja no convite a “guardar domingos e festas”.  
Novidade bíblica − No tempo em que os mandamentos foram escritos, nação nenhuma permitia aos trabalhadores um descanso semanal. O povo de Israel vai muito além, cessa o trabalho no sábado e se dedica ao convívio feliz das criaturas entre si e com o Criador, como diz o livro do Deuteronômio: “Guarda o dia do sábado, santificando-o, como te ordenou o Senhor teu Deus. Durante seis dias trabalharás e neles farás todas as tuas obras, mas o sétimo é o sábado, dia de descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem algum de teus animais, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades, para que assim teu escravo e tua escrava possam descansar da mesma forma que tu” (Dt 5,12-14).
O respeito a todos os seres da criação aparece no terceiro mandamento em forma de descanso, não só para o israelita, como ainda para o estrangeiro e o escravo. É preciso lembrar, porém que, se o trabalho é uma alta expressão da dignidade humana, pode ser, ao mesmo tempo, um mecanismo de violação quando a pessoa é forçada a trabalhar de modo degradante e acima das forças, produzindo bens dos quais não vai usufruir.
Outro ponto alto do terceiro mandamento é a advertência indireta a não acumular bens que excedam o necessário para viver, conforme mostra um dos contos educativos da tradição de Israel.
Um jovem pastor velava por um pequeno rebanho quando passou um comerciante e “puxou uma prosa” com ele.
– Você perde todo o seu tempo cuidando de meia dúzia de ovelhas! Por que não aumenta o rebanho? 
– Para que aumentar? Elas produzem leite, queijo e lã suficientes para minha família. Eu cuido delas, e meus pais e irmãos fazem outros trabalhos.
– Nunca pensou que, com mais ovelhas, você pode vender o excedente de leite, queijo e lã e fazer um bom dinheiro?
– E para que me serve um “bom dinheiro”?
– Para aumentar o rebanho e ganhar mais ainda.
– Mas o que eu vou fazer com “mais ainda”?
– Comprar uma bela casa e sentar-se na sala confortavelmente.
– Pois é isso que eu estou fazendo aqui no campo. Muito bem sentado, respiro ar puro, sinto o perfume das flores e ouço o canto dos pássaros enquanto vigio as ovelhas.
Longe de compreender o trabalho como fonte de sobriedade e simplicidade, em uma parceria amigável com todos os seres da Criação, o ser humano explora seu semelhante e os animais com trabalhos forçados. Um recente relatório publicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que as formas modernas de escravidão rendem 150 bilhões de dólares ao ano para a economia privada. E o diretor geral da OIT, Guy Ryder, reconhece que 21 milhões de pessoas no mundo são oprimidas por formas diversas de escravização.

Direitos iguais − A ideia originária do sábado, no terceiro mandamento, é a liberdade e a igualdade, que tem seu ponto mais alto no direito ao descanso e à convivência feliz em comunhão com Deus. É uma volta à inocência e uma antecipação da eternidade. Ao lado do escravo e do estrangeiro, até os animais têm repouso garantido no dia sagrado. 
A dignidade do animal e seu direito de ser respeitado é uma ideia pouco difundida e, menos ainda, praticada. Só recentemente, no ano de 1978, foi oficializada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), por meio da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, que proclamano Artigo 7º: “Todo animal que trabalha tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso”e no Artigo 14º: 41. 1.”Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem estar representados a nível governamental; 2.Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos humanos”.
A sensibilidade fraternal aos animais é o termômetro que indica o grau de maturidade, de justiça e de ética de uma pessoa; enquanto o desprezo a esses seres inocentes e humildes é sinal de soberba e orgulho, quando não de crueldade e sadismo. O cristão que maltrata um animal por crueldade, ou por diversão, o abandona sem motivo ou lhe nega os cuidados básicos, comete um pecado grave contra o projeto de Deus. O jornalista José do Patrocínio (1854-1905), grande personalidade brasileira do século 19, escreveu no jornal carioca A notícia: "Vi um burro suspirar como um justo depois de brutalmente esbordoado por um carroceiro que encheu o carro com uma carga que seria para uma quadriga e exigia que o mísero animal o arrancasse do atoleiro". O texto foi citado por Laerte Fernando Levai, no livro Direito dos animais (p 160). O autor é promotor de Justiça em São José dos Campos (SP) e atua na defesa jurídica dos animais agredidos, um tema novo no Direito Criminal Brasileiro. Vemos a Palavra de Deus antecipando em milhares de anos os valores de ética e de humanização que, até pouco tempo, foram objeto de desprezo na sociedade, começando só agora a serem valorizados.

Perto do paraíso − Jesus foi um judeu comprometido com a fé de seu povo, e os Evangelhos mostram o que ele pensava do sábado. No Evangelho de Lucas, Jesus é visto proclamando um trecho das Escrituras durante a reunião sabática da sinagoga, em sua aldeia natal, Nazaré (cf 4,16). Em outras passagens, ele devolve ao mandamento o seu verdadeiro objetivo, que é a proteção dos mais fracos. Cura no sábado um pai de família que não podia trabalhar porque tinha a mão atrofiada (cf. Lc 6,6-11). Cura uma velhinha encurvada e restaura a dignidade dela, chamando-a solenemente de filha de Abraão (cf. Lc 13,10-16). E declara que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado, quando seus discípulos colhem espigas de trigo para matar a fome, no dia sagrado (cf. Mc 2,28).
“Depois do sábado, ao raiar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (Mt 28,1), assim começa a mais antiga narrativa escrita da ressurreição do Senhor. E continua, revelando a mensagem celeste que as mulheres ouviram: “Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito” (Mt 28,1.6a). O terceiro mandamento, na prática da Igreja, aplica-se ao domingo, primeiro dia da semana. Ao redor de Cristo ressuscitado, irmão primogênito, a Criação inteira repousa e convive alegremente diante do Pai e do Espírito Santo, antecipando o Novo Céu e a Nova Terra, que a esperança cristã denomina Paraíso. Viver o terceiro mandamento é, portanto, construir o paraíso já na Terra, para que nela todos tenham vida e felicidade.

Na próxima edição, o quarto mandamento.

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.







Fonte: Edição 948, dezembro de 2014
Postado por: Família Cristã




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