Jovens na contramão

Data de publicação: 08/07/2015

 
Conheça, e se inspire (por que não?), em jovens que vão na contramão da sociedade para construir um mundo melhor

Nathan Xavier


Quantos jovens você conhece com a perspectiva de um ótimo futuro? Estão numa boa faculdade ou em um trabalho em uma multinacional, planejam a carreira e, provavelmente, serão adultos bem empregados, com casa própria, bom carro e bela família. Mas e se esse jovem simplesmente quisesse largar tudo isso para virar pedreiro e construir uma casa para alguém necessitado? Ou que largasse o projeto de uma família para se tornar sacerdote? Ou trocar o barzinho com os amigos para cuidar da avó doente? Ou mesmo seguir numa profissão pensando, na verdade, no bem comum?


Um teto digno −
Ela tem 25 anos e já é diretora da sede da Teto,  na Bahia. Gabriela Tiemy Yamaoka, formada em Relações Internacionais, sempre foi interessada por questões sociais e escolheu o curso da faculdade pensando em se dedicar ao próximo. Voluntária desde 2009 da entidade, ela afirma que “antes desse trabalho tinha dúvidas com relação às possibilidades de se trabalhar no terceiro setor e considerar as causas sociais uma opção profissional e não apenas um hobby. Agora vejo que, além de uma possibilidade, é o tipo de trabalho que me motiva e faz sentido dedicar horas de minha semana”.
A Teto, no Brasil, também conhecida como Um Teto para meu País, está presente em toda a América Latina e o Caribe,  buscando superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas em assentamentos precários. Uma das primeiras ações nos locais em que atuam, e que virou marca registrada da entidade, é justamente a construção de moradias emergenciais. Um trabalho realizado por jovens voluntários e os próprios moradores, que coloca lado a lado pessoas de níveis sociais completamente diferentes, e que põe, literalmente, a mão na massa.
Atuando em locais de situação social muito precária, Gabriela revela que lidar com pessoas e expectativas é um desafio: “Muitas vezes, os impactos mais profundos do nosso trabalho só serão sentidos a longo prazo, e isso pode gerar muitas frustrações, tanto por parte dos voluntários quanto das comunidades com as quais trabalhamos”. Porém, com o passar do tempo, os resultados aparecem e a diferença é sentida: “Perceber a nossa transformação interna, a transformação dos voluntários no contato com as comunidades e os impactos do trabalho junto aos moradores é o que faz valer a pena”.
Apesar de ficar longe da família, a jovem não pensa em voltar atrás: “Tudo isso faz parte da minha vida! Não sinto que eu tenha deixado de viver coisas para fazer o que faço hoje. Claro que a mudança de cidade alterou completamente minha rotina, mas nunca fui ligada a um lugar só e adoro não saber onde será o próximo projeto que estarei. Tenho saudades de minha família e amigos, mas a tecnologia de hoje está aí para nos aproximar”.

Pescador de homens − Todo jovem no colegial geralmente vive uma pequena angústia sobre qual carreira seguir, qual faculdade e curso prestar vestibular. Geraldo Trindade resolveu ser padre. Um convite, recusado inicialmente, que surgiu quando ele estava com 16 anos. Os anos do colegial serviram para “ventilar” a ideia de se tornar sacerdote e que, ao final, foi aceito por ele. Assim, com 27 anos de idade, o agora padre Geraldo, assumiu como vigário da Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Viçosa (MG).
Ele credita sua vocação ao ambiente religioso já tradicional de sua família e da cidade natal, Cipotânea. De fato, o pequeno município, de pouco mais de 6.500 habitantes no interior de Minas Gerais, desponta como um dos que mais geram padres e bispos à Igreja Católica. Desde a fundação da cidade, em 1711, foram mais de 50 padres e cinco bispos que lá nasceram. O jovem Geraldo Trindade é o 53º padre de Cipotânea, ordenado há seis meses. Por isso, ele garante que não foi nenhuma surpresa para os amigos e a família quando decidiu ser sacerdote.
Realidade um pouco diferente da cidade onde hoje ele é vigário. O município de Viçosa possui mais de 76 mil habitantes e é uma cidade essencialmente universitária. Situam-se naquela região a Universidade Federal de Viçosa e mais quatro universidades e faculdades particulares. Os estudantes vêm de diversos cantos do País e compõem a maior parte da população. “A região da nossa paróquia é marcada por situações contrastantes, de um lado com muita violência, criminalidade e uso de drogas, infelizmente e isso gera consequências inclusive na fé das pessoas, no sentido de como vamos lidar com essa situação”, revela Geraldo. Por outro lado, há também muitos jovens católicos que ingressam nas universidades e continuam a alimentar a própria fé, ajudando e participando nas paróquias de Viçosa, contribuindo ao trazer a vivência da cidade de onde veio.
O jovem padre pensou em ser historiador antes de se decidir pelo seminário, mas afirma, de forma convicta, que atender ao chamado de Deus foi a escolha certa. “Ajudar a levar a missão da Igreja adiante, mesmo com o pouco que a gente possa ofertar da nossa vida, dos nossos trabalhos, é uma das grandes alegrias de ser padre.” O jovem revela que as pequenas coisas também fazem parte desse sentimento: “Quando alguém agradece por ter sentido a presença de Deus por causa de uma palavra que você disse, ou após uma missa, isso é muito gratificante”.


Ao lado da lei − O delegado de polícia é o responsável pela segurança da população e não precisa ser notificado para agir. Caso ele saiba de alguém cometendo um crime não depende de mandatos (a não ser em casos específicos) para iniciar a investigação. Essa possibilidade de atuação mais ativa, para proteger as pessoas, atraiu Rodrigo Amorim à profissão. Foi assim que, aos 28 anos, passou no concurso público para ingressar na profissão que sempre sonhou. O concurso foi para a cidade de Melgaço, no Pará, município com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil e a mais de 2 mil quilômetros de sua cidade natal, deixando amigos e família para trás para que, através de sua profissão, possa ajudar a mudar a realidade local.
Natural do Recife, o jovem delegado confessa que entrar em contato com um ambiente tão humilde foi “chocante”. “Uma vez entrei numa casa e as pessoas estavam comendo farinha e pé de galinha, pois era o que tinham.” Além da pobreza extrema, Melgaço enfrenta outro problema, este sob domínio da atuação do delegado: a exploração sexual contra crianças e adolescentes de forma explícita, como retratado na edição nº 947 da Revista Família Cristã (novembro de 2014). “Infelizmente, a exploração sexual existe em todo o Brasil. Na minha cidade é possível encontrar a exploração de adolescentes e adultos, porém é uma coisa escondida, velada. Aqui é diferente, é explícito, com crianças, e eles acham normal.”
Apesar do pouco tempo à frente da Delegacia de Melgaço, Rodrigo já conseguiu tirar muitas crianças dos abusos, mas reconhece que ainda se surpreende quando encontra meninos e meninas em situações tão críticas. Ele afirma que o dia a dia já o fez repensar algumas situações que, na teoria, poderiam dar certo, mas outros caminhos eram mais eficientes: “Eu sou hoje mais prático e menos burocrático”.
O trabalho de Rodrigo já começa a aparecer, com muitas crianças e adolescentes salvos da situação de abuso. Ele afirma que é difícil quantificar, mas é um trabalho que impacta para melhor toda a comunidade e não apenas a vítima.


O neto pai − “Eu estava totalmente fora dos padrões”, reconhece Fernando Aguzzoli. O jovem, então com 21 anos, abandonou a empresa que trabalhava e trancou o curso de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para cuidar em tempo integral da avó Nilva de Lourdes Aguzzoli, diagnosticada com mal de Alzheimer, seis anos antes. O prognóstico era péssimo em todos os sentidos: além da própria doença não ter cura, e o paciente só piorar com o passar do tempo, as poucas informações sobre a doença vêm carregadas de avisos nada tranquilizadores: “As pessoas diziam que nossa família ficaria sem dinheiro, que eu ia entrar em depressão e que o nível de mortalidade dos cuidadores era maior dos que tinham a doença. E o que isso gera? Abandono. Quantas famílias não se sentem capazes e abandonam o idoso?”. Ele mesmo chegou a presenciar muitos idosos que estavam de alta, abandonados no hospital. E qual foi a saída de Fernando diante de tantas coisas ruins? “Decidi cuidar da minha vó com bom humor para não enlouquecer.” Ele acabou por entrar no universo ilógico da vovó Nilva e as “gargalhadas dela se tornaram meu combustível para o próximo dia”.
O dia a dia do neto que virou pai da avó renderam histórias e uma experiência de vida para Fernando que nenhum curso de qualquer faculdade o ensinaria. O carinho dele com a vó Nilva, as tiradas dela e a aventura cotidiana foram publicadas numa página do facebook, que logo atingiria mais de 100 mil curtidas, com diálogos divertidos e emocionantes entre os dois, tornando-se exemplo de como lidar com a doença sem se deixar levar pela tristeza.
Apesar do humor, o rapaz de 23 anos reconhece momentos de desânimo e tristeza, como a primeira vez em que ela precisou de fraldas e o dia em que a avó esqueceu quem Fernando era. Nesse dia, ele escreveu na página da rede social: “Hoje a vó me olhou e perguntou se tinha netos. Acho que automaticamente fiz uma cara triste por ela ter esquecido de mim. Eu então respondi: ´Sim, vó, eu sou um deles´. Com uma carinha doce, ela tocou meu rosto com a mão e disse: ´Amado, a vó não tem culpa da cabeça estar falhando. Tu é e sempre vai ser meu netinho, o amor da vó. Eu te amo como ninguém vai amar´”. Para logo depois rir, ainda entre lágrimas, da resposta da avó: “Vamos lá na minha mãe almoçar?”.
Fernando afirma que os desânimos faziam parte, mas o humor imperava sempre: “A gente não aprende nada de pé, caminhando em linha reta, a gente só aprende quando cai, quando a vida nos força a um movimento ao qual não estamos acostumados. Os jovens, de uma maneira geral, tem a péssima mania de encontrar apenas seus semelhantes. Isso é tão prejudicial, pois eles entram numa redoma e não vêm outro ponto de vista”. E pondera: “Eu não sou um herói, não sou um guri iluminado. Eu apenas tomei uma decisão e fiz o que tinha de fazer. Todo jovem pode se relacionar com seus avós”.
Vovó Nilva faleceu no fim de 2013, há poucos dias do Natal, época do ano que ela adorava. Em um dos posts, após o falecimento, Fernando desejou um Feliz 2014 aos seguidores da página com uma bonita mensagem que nós, da Revista Família Cristã, com uma pequena licença poética, reproduzimos aqui: “Desejo um (2015) sem distância, aproximem-se de seus avós e pais, busquem uma relação mais fortificada e colecionem lembranças”.






Fonte: FC ediçao 952-ABRIL- 2015
Postado por: Família Cristã




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