Quarto mandamento

Data de publicação: 17/07/2015

Por Maria Inês Carniato, fsp *

Honrar pai e mãe, filho e filha
“Não reanime”, é a ordem dos filhos que, não raro, surpreende os profissionais da saúde, quando uma pessoa idosa sofre parada cardíaca. “Eles me largaram aqui e nunca mais voltaram”, dizem com mágoa, certos anciãos abrigados em instituições de acolhida.
A sociedade emite sinais da atualidade e da urgência do mandamento cristão Honrar pai e mãe, enquanto os novos conceitos de família e de moradia ignoram a possível presença de mais alguém em casa, além de pais e filhos, dos modernos casais sem filhos ou dos que têm “filhos de quatro patas”. De acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano 2000, a média de moradores por domicílio no País era de 3,8. No censo de 2010, caiu para 3,3, o que, aplicado ao modelo clássico de família nuclear, representaria o casal e menos de dois filhos.
O quarto mandamento sugere valores contrários a certas práticas atuais, enquanto faz pensar em aspectos pouco visíveis da sempre delicada e cada vez mais complexa e imprevisível relação pais e filhos.  

Pão trançado – O manancial bíblico da fé cristã atribui à paternidade e à maternidade o status de bênção divina, com a promessa, a Abraão e Sara, de uma descendência numerosa como as estrelas do céu e as areias da praia do mar (cf. Gn 22,17); e o povo de Israel, em oração, dirige-se sempre ao Deus da família: “Senhor, Deus de nossos pais” (2Cr 20,6a); “Bendito seja o Senhor, o Deus de nossos pais!” (Esd 7,27a); “Bendito és tu, Senhor Deus dos nossos pais” (Dn 3,52a). A constante aclamação confirma o quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Ex 20,12). 
O ensinamento formal, de uma para a outra geração, garante a subsistência do Povo de Deus pelo vínculo da descendência, o que se lê no Eclesiástico, o “manual de educação” das famílias israelitas: “Quem respeita sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. Quem honra seu pai terá alegria em seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido” (Eclo 3,5-6); “Filho, ampara a velhice de teu pai e não lhe causes desgosto enquanto vive. Mesmo que esteja perdendo a lucidez, sê tolerante com ele e não o humilhes em nenhum dos dias de sua vida” (Eclo 3,14-15). Tendo na mesa posta o ponto alto da convivência no lar, a família judaica semanalmente, na refeição festiva do sábado, parte um pão em forma de trança, símbolo da perenidade do amor e da fé que entrelaçam a vida material e espiritual das gerações. 
Os mandamentos têm o ser humano como objeto e como sujeito. Como objeto, a pessoa recebe o amor e a força de Deus por meio da prática dos ensinamentos bíblicos; como sujeito, é convidada a estender o amor de Deus, em forma de respeito e cuidado, a todos os seres viventes, conforme o Deuteronômio: “Se encontrares no caminho, sobre uma árvore ou na terra, um ninho de passarinho e a mãe junto dos filhotes ou chocando os ovos, não apanhes a mãe” (Dt 22,6); “Não cozinharás um cabrito no leite de sua mãe” (Dt 14,21b). A honra a quem gera filhos e deles cuida é devida até às avesinhas do campo e às cabras do rebanho, que cumprem a maternidade instintiva com o carinho e a dedicação que lhes compete em sua condição irracional!

Questão racional – No Brasil, quem nega honra à pessoa idosa é réu perante a lei: “É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária” – ¬¬diz o Estatuto do Idoso, Lei 10.741 de 1º de outubro 2003, no Artigo 3º. Essa é uma aplicação laica do imperativo “honrar” pai e mãe, tornado obrigatório por sofrer, muitas vezes, omissão de filhos e netos. 
O liberalismo dos comportamentos sociais utilitaristas do momento, tais como o “vencimento da validade” dos idosos e a convicção de muitos casais de que filhos são entraves ao aproveitamento máximo da vida, inspira questões simplesmente racionais na mente de quem tem o mínimo senso comum: Na parcela da sociedade que descarta os idosos e dispensa os filhos, não estariam pessoas que foram desprezadas, traídas, abandonadas, agredidas e violentadas na infância? Ser pai ou mãe não seria, para elas, sinônimo de ser monstro? Se nunca foram honradas como filhos e filhas, poderiam aprender a honrar pai e mãe?
Filhos e filhas criados sem honra à própria dignidade – o que vai do desprezo ao excesso de mimos – podem se tornar adultos carentes e ter comportamentos infantis ridículos e revoltantes. Vestir cachorros com roupas quentes e desconfortáveis, calçá-los com sapatos ou tênis que causam dores e desequilíbrio, carregá-los em carrinhos, celebrar ridículas paródias de aniversário ou casamento e vesti-los de noivos simulando lua de mel são caricaturas grotescas, reveladoras de egocentrismo ou insanidade psíquica.
Pessoas com tão baixo nível racional somado à necessidade de desperdiçar o dinheiro acumulado tratam os “filhos de quatro patas” como brinquedos insensíveis e os cercam de inutilidades que muitas vezes os mortificam. Mesmo assim, o mercado pet é o segundo mais promissor do mundo, atrás apenas do de cosméticos.    

Compaixão – Compassivo é quem compreende a dor do outro e o alivia, ajudando-o a carregar o fardo. Em relação a pais e filhos, o mandamento amplia a palavra honra até a compaixão. No Evangelho de Mateus, vemos Jesus indignado com os dribles criados para burlar a lei: “Quem disser a seu pai ou a sua mãe: a ajuda que poderíeis receber de mim é para oferenda, esse não precisa honrar pai e mãe” (Mt 15,5-6a). Uma das mais comoventes narrativas dos Evangelhos é a passagem de Lucas, na qual Jesus entra na povoação de Naim e encontra o féretro de um jovem, filho único de uma viúva: “Ao vê-la, o Senhor encheu-se de compaixão por ela e disse: ‘Não chores!’... Ele ordenou: ‘Jovem, eu te digo, levanta-te!’. O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe” (Lc 7,13-15b). A narrativa permite imaginar o Senhor mais comovido com a dor da mãe do que com o jovem sem vida.   
A intensidade contemplativa do amor filial de Jesus é sutilmente revelada na imagem que ele encontra para dar às pessoas simples uma ideia do Reino dos Céus: “É como o fermento que uma mulher pegou e escondeu em três porções de farinha, até que tudo ficasse fermentado” (Mt 13,33). Ele procurou, no profundo da memória afetiva, a cena mais amada de sua infância, a Mãe amassando o pão para as três pessoas da sagrada família.
Na próxima edição, o quinto mandamento.

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.

 




Fonte: Edição 949,Jan- 2015
Postado por: Família Cristã




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