Ciúme, o monstro de olhos...

Data de publicação: 20/07/2015

O ciúme em excesso, manifestado em atitudes compulsivas, como verificar registro de ligações no celular, mensagens e rastreamento no facebook, é sustentado pela ilusão de que é possível controlar o que o(a) parceiro(a) faz ou sente, no entanto, isso causa sérios danos à relação


Por Nathan Xavier

A literatura mundial está repleta de clássicos envolvendo o ciúme. Um sentimento humano que, exacerbado, dá fôlego para muitas obras. Uma das mais conhecidas é Otelo, de William Shakespeare (1603). O personagem é um militar de Veneza de descendência árabe, que, por conta da cor de sua pele, sofre preconceito, apesar de ser um bom general. Ciente do preconceito da sociedade, Otelo é inseguro, o que causa o ciúme de sua esposa, Desdêmona. Esse sentimento é alimentado por Iago, que insinua que ela possui um caso com Cássio, de quem Iago sentia inveja. No fim, Otelo, tomado e transtornado pelo ciúme, mata Desdêmona. É dessa peça de Shakespeare que vem a expressão popular do ciúme: “monstro de olhos verdes”. O autor contrapõe algo bonito (olhos verdes) com a palavra “monstro”. Iago, o personagem que nutre o ciúme de Otelo, diz em certo ponto a ele: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta”. De forma menos trágica, mas, por vezes, com muitas consequências desastrosas, o ciúme dos amigos da esposa ou das amigas do marido tende a render momentos desagradáveis.
Em uma entrevista para a revista Scientific American, a psicóloga Andrea Lorena, pesquisadora de Ciúme Excessivo, do Laboratório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), define que “o ciúme normal é transitório e se baseia em ameaças e fatos reais. Ele não limita as atividades – nem interfere nelas – de quem sente ou é alvo de ciúme e tende a desaparecer diante das evidências”.
Ainda segundo a pesquisadora, o ciúme excessivo vem acompanhado de um sentimento específico de raiva, medo, tristeza ou ansiedade, por exemplo, e pensamentos ilógicos. A maior parte dessas suspeitas são irreais e “quase sempre há prejuízos para quem sente, para quem é alvo e para o relacionamento”, afirma Andrea. Esse excesso de ciúme fica claro em comportamentos que muitos casais conhecem: verificar as mensagens de celular do parceiro, consultar o registro de ligações, faturas de cartão de crédito, “roubar” a senha do e-mail, com a intenção de controlar todos os passos da esposa ou do marido. No fundo, segundo Andrea, na maior parte dos casos, a pessoa que age assim possui baixa autoestima: “Ela não acredita que tem valor e merece respeito. A priori, é alguém ‘traível’ e abandonável, pois na verdade acredita que a honestidade e a reciprocidade nas relações não valem a pena. É um sentimento com origem na infância e na relação com os pais, em que provavelmente a pessoa foi negligenciada e desrespeitada. Somam-se ainda fatores como insegurança, medo, instabilidade e a própria desorganização pessoal”.

Ciúme tem cura −
Mas o ciúme excessivo é “curável”? Em casos extremos, é aconselhável procurar ajuda profissional para que o relacionamento não se deteriore. O PRO-AMITI e a Santa Casa do Rio de Janeiro possuem tratamentos específicos e gratuitos para ciúme excessivo. “O processo psicoterápico trabalha a melhora da autoestima e a segurança com o próprio relacionamento. Com o tempo, o paciente percebe que comportamentos como investigar o que o parceiro faz na rede ou vasculhar seus pertences são desnecessários”, diz Andrea.
Sentir um pouco de ciúme é comum, mas não significa que seja normal. A falta de confiança no outro pode ter sido gerada por algum acontecimento, que tenha fundamento ou não, ou por um sentimento exarcebado de posse, segundo os especialistas. É importante os dois lados pensarem juntos nos motivos que levaram o ciúme a surgir. Se seu companheiro ou companheira tem ciúmes é preciso se perguntar se algo que você está fazendo, ou fez, é motivo de causar insegurança na outra pessoa. Não vale o lado ciumento do relacionamento, colocar a culpa nos outros pelo próprio ciúme. Falar, por exemplo, que a amiga do marido insinua algo, não é motivo para o sentimento. Segundo Andrea, quando o ciúme surge de casos assim, costuma passar depois de um tempo, porém, o sentimento de posse é perigoso, pois há uma linha muito tênue que pode ser ultrapassada facilmente. Identificar o excesso é relativamente fácil: se o ciúme começa a atrapalhar a vida do casal, limitando as atividades de ambos, o ideal é procurar ajuda profissional.
A obra de Shakespeare, um autor que soube muito bem traduzir a alma humana, pode servir como um bom espelho para nossa vida. Otelo, apesar de excelente general, era inseguro. Essa insegurança, alimentada por um subordinado que sugeria que sua esposa tinha um caso, fez do general um homem cego e, de pessoa boa, transforma-se totalmente por causa de um sentimento desordenado. Ter autocontrole é muito importante, e uma conversa franca nunca é em vão. O amor é exigente, mas cresce quando encaramos de forma honesta e racional o que ele nos coloca no caminho.




Fonte: FC ediçao 948-DEZ 2014
Postado por: Família Cristã




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