Atenção, senhores pais!

Data de publicação: 20/07/2015

Por Victor Lazlo   

Para estimular o consumo, a mídia pode se aproveitar da vulnerabilidade infantil e erotizar crianças, ferindo a Constituição?

Em setembro, o suplemento Vogue Kids, encartado na edição impressa da revista Vogue, tradicional publicação voltada para o mundo da moda e editada no Brasil pela Editora Globo, precisou ser retirado de circulação – inclusive das mídias digitais – menos de 48 horas após ser lançado. A medida atendia a uma ação cautelar do Ministério Público do Trabalho (MPT) e foi acompanhada pelo juiz auxiliar da Infância e Juventude do Tribunal Regional do Trabalho (TRT). A iniciativa, no entanto, partiu da sociedade civil. Pais e mães de diferentes regiões do País, pediatras, especialistas em infância e militantes de instituições que trabalham em prol dos direitos das crianças sentiram-se consternados com as imagens estampadas no editorial intitulado “Sombra e água fresca”, uma matéria de cunho publicitário que expunha fotos de meninas de 7 a 10 anos trajadas de biquínis, com expressões lânguidas, em posições sensualizadas e com sugestivas conotações sexuais.
Não foi a primeira vez que a publicidade feriu o artigo 17 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o 227 da Constituição Federal, que garantem dignidade à criança. “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, determina a lei. Em 2008, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, entidade sem fins lucrativos cujo objetivo é garantir condições para a vivência plena da infância, denunciou a grife infantil Lilica Ripilica pela exposição erotizada de meninas. E mesmo fora do Brasil a prática não é inédita. Em 2010, a edição francesa da revista Vogue publicou fotos de meninas de 7 e 8 anos em posições sensuais, exigindo uma atitude do governo da França.

Politicamente incorreto – Conforme o esperado, a direção brasileira da Vogue tratou de contemporizar a derrapada, ao afirmar, em uma nota, que não pretendeu expor crianças a situações inadequadas. “Seguimos princípios jornalísticos rígidos, dentre os quais o respeito incondicional aos direitos da criança e do adolescente. Como o próprio título da matéria esclarece, retratamos as modelos infantis em um clima descontraído, de férias na beira do rio. Não houve intenção de conferir característica de sensualidade ao ensaio. Respeitamos a diversidade de pontos de vista e iremos nos aprofundar no entendimento das diversas vozes nesse caso, buscando o aperfeiçoamento das nossas edições. Repudiamos, porém, as tentativas de associar a Vogue Kids ao estímulo de qualquer prática prejudicial aos menores. (...) A missão da Vogue Kids foi e continuará sendo a de tratar a infância com respeito, abordando com sensibilidade questões contemporâneas e que vão muito além dos editoriais de moda.” Satisfeitos?
Não o bastante. “As poses são explicitamente sexualizadas. Do ponto de vista da criança, transformam a menina numa miniadulta, promovem sua objetificação e estimulam valores de consumismo, futilidade, modismo, beleza padronizada, maquiagem como necessidade e adesão a marcas”, replica o pediatra Daniel Becker, responsável pelo site Pediatria Integrada. “As imagens têm um alto caráter de sensualidade, expõem as meninas a uma erotização precoce. Isso não é questão de ser moralista, mas de resguardar e respeitar o direito da criança. As fotos têm uma sensualidade não compatível com a faixa etária das meninas”, responde a advogada Isabella Henriques, uma das diretoras do Instituto Alana. “Como ninguém que trabalhou na matéria, como produtor, maquiador, fotógrafo, diagramador, revisor, diretor de arte e editor de texto, questionou? Como mulher e mãe de uma menina, sinto revolta”, desabafa a arquiteta Tuca Petlik.

Valores – Mas há quem enxergue nessas repercussões e em seus desdobramentos judiciais uma vitória. “Ainda há um longo caminho a percorrer para garantir total proteção à infância, mas interpreto como um avanço o fato de as pessoas estarem prestando mais atenção aos abusos, algo que não ocorria anteriormente. E não me refiro aos seus aspectos morais, mas a uma maior preocupação das pessoas em defender a infância e fazer valer as leis a seu favor. Isso não é fácil, pois afinal estamos todos inseridos em uma cultura e em uma sociedade de consumo que nos leva a achar natural muita coisa que não é, como a erotização das crianças cujas dignidades são atingidas por objetivos comerciais, para vender determinados produtos”, pondera a psicóloga Laís Fontenelle, do Instituto Alana, para quem precisamos, por mais difícil que seja, aprender a nadar contra a corrente do consumismo e trabalhar por valores menos materialistas e mais humanos. “É o que a nossa infância mais precisa”, finaliza.




Fonte: FC ediçao 948-DEZ 2014
Postado por: Família Cristã




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