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Data de publicação: 30/07/2015

Angelita Ribeiro da Silva (foto), aos 33 anos e oito filhos, deixa o Nordeste e ruma ao Norte do Brasil em busca de melhorias para a família, os imprevistos não a intimidaram, mas a fortaleceram

Texto: Osnilda Lima, fsp
Fotos: Paulo Maia

Hoje, Angelita Ribeiro da Silva, tem 62 anos. Nasceu, cresceu, casou-se e teve oito filhos, em Bacabal, no Maranhão, localizada a 240 quilômetros da capital do estado, São Luís. Trabalhava como professora na rede de ensino municipal. Em 1982, com os filhos, migraram para o sudoeste do estado do Pará, Itaituba, 1.249 quilômetros da capital, Belém, depois de dois anos de o marido ter migrado para a região de garimpo.
Itaituba é conhecida como Cidade Pepita da Amazônia, pois passou por densas transformações frente à exploração dos recursos naturais, principalmente ligados à atividade garimpeira, favorecendo grandes períodos de glória, estagnação e decadência para a sua população.
O Armin Mathis, professor, pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA) e autor de Garimpos de Ouro na Amazônia: Atores Sociais, Relações de Trabalho e Condições de Vida e do artigo “Garimpagem de ouro na Amazônia”, no livro Perspectivas do Desenvolvimento Sustentável: Uma Contribuição para a Amazônia, relata que um contingente significativo de garimpeiros provenientes dos projetos de colonização, no estado do Pará, em sua maioria, são oriundos da Região Nordeste do Brasil (73%). Destes, destaca-se a importante participação maranhense, totalizando 49,11% somente no estado do Pará.
“Vim para cá por necessidade. À época, eu trabalhava como professora lá. O salário não era suficiente para mim e os meus filhos. Com o meu marido havia dois anos que quase não tínhamos contato. Ao vir trabalhar no garimpo, ele achava que era só chegar, juntar muito dinheiro e voltar. Mas no caso, ele pegou malária, não conseguia trabalhar, não tinha dinheiro, não dava notícias, isso 1980, aí eu vim atrás, em 1982”, conta Angelita.

O garimpo − De acordo com Mathis, a partir dos anos 1980, o garimpo na região surge reformulado e se torna uma alternativa imediata e rentável. Os projetos de colonização na Amazônia não conseguiram competir com a lucratividade da extração do ouro. O garimpo se transformou e em um atrativo da força de trabalho, tanto dentro da região quanto para migrantes de outros estados.
“Chegando aqui a realidade foi muito difícil. O meu esposo estava acostumado a viver sozinho, ele estranhou a presença dos filhos. Os filhos o aborreciam. Eu adoeci logo que cheguei. Estando o meu esposo doente, decidimos então trabalhar numa fazenda”, conta Angelita. A família foi morar no quilômetro 16 da Rodovia Transamazônica (BR-230). “Mas eu, também doente, não podia fazer nada. Fomos morar em Itaituba. Não tínhamos nada, somente os filhos e a vida pela frente. Quando melhorei, fui ao bairro Floresta, que estava começando, só tinha barraquinhos, muitos. Fui lá, conversei com os pais para saber se queriam que eu desse aula aos filhos deles, como professora particular. No bairro não tinha escola, posto de saúde, o poder público era ausente, não tinha nada”, lembra.
Nessa época, segundo Mathis, concretizou-se a dependência total da atividade garimpeira com todos os efeitos de um boom town, explosivo crescimento na cidade de Itaituba, sobressaindo-se o aumento do custo de vida, a indisponibilidade de mão de obra, crescimento desordenado, e alto índice de violência, e os serviços de infraestrutura urbana básica não acompanharam esse crescimento populacional.

 “Com o tempo conseguimos construir uma casinha, de madeira, mas bonitinha. Também fomos à prefeitura e foi construída uma sala de aula. Assim as crianças do bairro tinham onde estudar. E nós morávamos nos fundos com as crianças, porque meu marido havia voltado para o garimpo. No garimpo ele novamente adoeceu, voltou muito desorientado e não mais queria morar na cidade, propôs de vendermos nossa casinha e comprar um lote na zona rural”, recorda a professora, que ainda lembra que o descaso do poder público contribuía para que o município fosse considerado, à época do período áureo da garimpagem, o mais violento e o mais miserável do País, e isso preocupava a família por conta de os filhos crescerem nesse ambiente.

Mudanças − “Eu fiquei muito triste, pois eu tinha o salário de professora pelo município e também dava aula particular. Além disso, eu era muito atuante na comunidade católica do bairro, Capela Santa Luzia. Também atuava no conselho fiscal e sempre acompanhava as pessoas doentes, levando-as ao médico. Mas para o melhor de nossa família, concordei com meu esposo em mudarmos para a zona rural, em 1986, no quilômetro 65 da Transamazônica, município de Rurópolis (PA), mas em uma vicinal. Onde estamos até hoje”, conta.
Angelita recorda que o início na zona rural foi novamente muito difícil. “Sofremos muito! Comíamos só farinha com carne de caça: tatu, paca... Não tinha outra coisa. Arroz era muito difícil. O acesso àquela vicinal era muito raro.  Mas fomos trabalhando, trabalhando e, aos poucos, fomos melhorando. Com o tempo consegui trabalhar como professora.”  A professora conta com entusiasmo que conseguiu 200 horas aula no mês. Trabalhava com turma multisseriada e para adultos. Descreve que havia muitas famílias que moravam nos sítios, às margens da Transamazônica e nas vicinais, mas “com o tempo os colonos começaram a abandonar os sítios e a mudar para a cidade. Foi aí que fiquei com seis alunos, tornou-se inviável continuar como professora na escola rural”. Em 2001, Angelita foi transferida para uma escola em Divinópolis, um bairro de Rurópolis, onde trabalhou até 2012. “Compramos uma casa aqui na cidade e ficamos por aqui nesses dez anos, mas não vendemos o nosso sítio. Agora, novamente meu marido adoeceu, está com depressão, não aguenta mais trabalhar, decidimos voltar para o nosso sítio.”
Angelita conta que, agora com os oito o filhos adultos e encaminhados e mais os quatro filhos que adotou em terras paraenses, resistiu em retornar à zona rural. “Pensei muito em não acompanhá-lo de volta para o sítio, poderia ajudar daqui”. Mas ela recorda que no dia do casamento pronunciaram: “Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo fiel”, e sorri com uma leveza no olhar e entusiasmo em viver, que chama a atenção, dando a enteder que são os pequenos detalhes da vida que realmente contam. Segundo ela, os bens materiais criam um ambiente propício à felicidade, mas não oferecem nada além do que conforto. “Já melhoramos bastante, temos nossas criações, galinha, gado e outros bichos”, revela. E afirma ser feliz, dedicando-se de verdade e gratuitamente a quem ela ama. “Eu quero agora cuidar do meu velho!”, exclama com sorriso largo e olhar brilhante.
“Lá na colônia já melhorou muito, mas as estradas estão muito ruins, a prefeitura não arruma. Então nós mesmos temos de arrumar e construir as pontes. Mas sabe, senti muito em deixar meu trabalho como professora, mas como estou aposentada, fica mais fácil”, diz, com serenidade, e conta que todos os domingos participa das celebrações na Comunidade São Judas Tadeu, em Divinópolis, igreja que também ajudou a construir.




Fonte: Família Cristá julho de 2015
Postado por: Família Cristã




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