Sexto mandamento

Data de publicação: 31/07/2015

Por Maria Inês Carniato, fsp *

“Não pecar contra a castidade”

 “Não sou mais sua nora, mas sempre serei sua filha do coração”, diz para a sogra uma jovem que desfez o casamento de um ano, depois de cinco anos de convivência marital com o namorado. A ex-nora quis consolar a sogra, perplexa com o rápido fim do casamento do filho e com a decisão dos dois de continuarem vivendo juntos como amigos, tendo, cada um, seu “novo amor”.

Em família – A cerimônia de casamento é alvo de experiências novas e uma delas é a opção por espaços religiosos, nem sempre ligados a uma religião em específico, que dispensam a prévia união civil. A família e os amigos se comovem com o lindo “rito religioso”, mesmo sabendo que a união não será oficializada no cartório, ficando o casal legalmente solteiro; essa medida simplifica tudo, quando o “amor acaba” e é reiniciado com outras pessoas. Este e outros modos de encarar e praticar os rituais e os valores sociais e familiares da sexualidade assustam os pais cristãos, ao verem o que não esperavam ver na conduta dos jovens. O comum é que acabem por aceitar, sob o risco de perder a confiança e a proximidade dos filhos.
Práticas e conceitos tão diversificados despertam a interrogação: Os mandamentos de Deus ainda dizem alguma coisa? O que os cristãos podem entender do sexto mandamento “Não pecar contra a castidade” e da versão original bíblica “Não cometerás adultério” (Dt 5,18)?

À imagem de Deus – O sexto mandamento é do tempo em que o povo de Israel praticava a poligamia e via a filha como patrimônio monetário do pai e a esposa como propriedade do marido. As relações extraconjugais do homem casado eram toleráveis, se a amante fosse solteira, porque ele podia tomá-la por segunda esposa, já a relação com uma mulher casada ou noiva era crime contra a propriedade do marido ou do noivo. A esposa infiel, ao contrário, cometia dupla infração, uma contra o direito do marido sobre ela e outra contra a garantia da linhagem familiar; por isso a ideia de que a infidelidade dos dois é contrária à lei de Deus foi uma novidade formidável para as senhoras israelitas. É nessa linha de pensamento que o livro bíblico do Levítico classifica o adultério, da mulher ou do homem, como costume abominável dos pagãos, indigno de quem crê no Deus de Israel (cf. Lv 18,1-30).
Os profetas pintaram o matrimônio dentro da moldura da relação de Deus com o povo, conforme descreve Oseias: “Eu me caso contigo para sempre, casamos conforme a justiça e o direito, com amor e carinho. Caso-me contigo com toda a fidelidade e então conhecerás o Senhor” (Os 2, 21-22). Sob essa chave de leitura, o Jesuíta canadense Edouard Hamel, estudioso da moral matrimonial bíblica, sugere: “De modo positivo, o sexto mandamento poderia ser lido assim: ‘Sede fieis um ao outro, como eu, o Senhor, amei Israel e lhe sou fiel’”, livro Los diez mandamientos, Editora Sal Terra, Santander, Espanha, 1972, p. 37.
O amor é o alicerce de toda atitude coerente com a fé; não o pseudoamor egocêntrico que só desfruta do outro e o abandona quando se esgotam as novidades, mas o amor predito no conselho de Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida” (cf. Jo 15, 13). Um casal que celebra bodas de prata, de ouro, de diamante, entende como ninguém o significado de “dar a própria vida”, na vida a dois e na família, é muito mais do que “não cometer adultério”, é escalar a montanha mais alta na cordilheira do amor: “não pecar contra a castidade”.  

Vida santa – Os primeiros cristãos viveram em meio à cultura grega e aos costumes romanos, quando o abuso e a violência sexual dos cidadãos livres sobre os escravos, fossem eles homens ou mulheres de qualquer idade, eram socialmente aceitos. A libertinagem sexual é mencionada muitas vezes no Novo Testamento pelo verbo grego porneiô, substituído no latim pelo termo fornicare (cf. At 15,29), uma espécie de gíria relativa à prostituição instalada sob os fornici, arcos das construções, nos becos sombrios das cidades. Deixar não apenas o adultério, mas todas as práticas sexuais degradantes e abusivas era a exigência rigorosa da Igreja aos pagãos que se convertiam para a fé cristã. 
O Novo Testamento contrapõe ao verbo porneiô a palavra grega agneia, castidade, que significa consagração, pureza, santidade, em sentido amplo, abrangendo toda a vida cristã, que deve ser contrária aos costumes pagãos e, ao mesmo tempo, deve testemunhar a esperança, como explica São João: “Todo aquele que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro. Todo aquele que comete o pecado pratica a iniquidade, e o pecado é a iniquidade” (1Jo 3,3). A castidade cristã, portanto, é renúncia ao pecado e participação na santidade de Cristo.

Faces da moeda – O pecado, consciente e livre, está contido em todo ato contrário à vida e à dignidade de qualquer criatura, conforme o projeto de Deus. Esse conceito de fé é confirmado pelo sentido cultural do termo castidade. O Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa o explica como abstenção dos prazeres sensuais, isto é, prazeres dos sentidos. Ora, os sentidos são cinco: visão, audição, olfato, tato, e paladar, e envolvem a pessoa inteira, isso reforça o empenho do cristão em ser sóbrio e equilibrado em tudo e em não cometer exageros que prejudiquem a si mesmo e aos outros. O apóstolo Paulo, recorda aos cristãos gálatas que exageros seriam esses, que ele denomina obras da carne: “Imoralidade sexual, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes” (cf Gl 5, 19-21). Dirigir embriagado e atropelar alguém, por exemplo, é um pecado contra a castidade em seu sentido amplo. Sabe-se, porém, que a sexualidade é uma das dimensões mais vulneráveis e “tentadoras” diante do exigente compromisso da fidelidade e do amor que dá a vida, sugerido pelo Mestre. 
Curiosamente, a raiz do termo castidade é a mesma do termo castigo e o Dicionário Houaiss da língua portuguesa diz que castigar alguém é negar-lhe cuidado, maltratar, molestar, reprimir; verbos estes, sempre repetidos nas notícias quase diárias de abuso e de violência sexual que ocorrem dentro e fora da família. É nessa linha de pensamento que Jesus desarma o moralismo dos que queriam apedrejar a mulher adúltera, Jesus vira a pedra do pecado para a direção deles e os faz admitir que também não passam de pecadores.

Amar é não condenar – O pacto de liberdade que Jesus propôs à mulher: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11b), é um sinalizador luminoso para as famílias cristãs, na névoa dos costumes atuais. Enquanto elas lidam com os novos sentimentos, conceitos e práticas da sexualidade são também chamadas a testemunhar o amor e a fidelidade de Deus, conforme o convite do Papa Francisco às famílias de Manila, nas Ilhas Filipinas, em janeiro de 2015: “Não escondais a vossa fé, não escondais Jesus, mas colocai-o no mundo e oferecei o testemunho da vossa vida familiar”. 

Na próxima edição o sétimo mandamento.

Os dez mandamentos

1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.





Fonte: FC ediçao 951-MAR 2015
Postado por: Família Cristã




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