Família na estrada

Data de publicação: 05/08/2015

Conheça famílias que moram em casas incomuns, possuem espírito aventureiro e sabem que as diferenças e o convívio familiar são palavras de ordem diária



Por Nathan Xavier

Viajar é sempre muito bom. Quebrar a rotina e conhecer novos lugares, culturas, pessoas, geografias diferentes, é riquíssimo para todos. Imagine, então, uma viagem com toda a família e que se estende por meses e mesmo anos ou a vida toda. Parece loucura? Mas saiba que, neste exato momento, há dezenas de famílias ao redor do mundo simplesmente viajando sem a menor preocupação em voltar e onde um barco, uma Kombi, uma bicicleta, um motorhome ou um veleiro se transformam em lar.
O caso brasileiro mais famoso é a família Shurmann, que já foi matéria aqui na Revista Família Cristã. Com três filhos (de 15, 10 e 7 anos), o casal Vilfredo e Heloísa saíram, em 1984, para realizar o sonho de uma viagem de um ano num veleiro. A experiência foi tão fantástica que um ano transformou-se em dez, e os filhos cresceram aprendendo diversas línguas por onde passavam e a compartilhar de um mundo que a todo momento mudava diante de seus olhos. Após 31 anos, a família está em sua terceira viagem, a Expedição Oriente, que iniciou em setembro do ano passado e com retorno previsto para dezembro de 2016. Toda a viagem pode ser acompanhada em tempo real no site www.expedicaooriente.com.br.
Troca a família e “a casa”, e temos uma história semelhante. A bordo de uma Kombi modelo 1971, o casal norte-americano Jason e Angela e o garoto Bode Rehm, então com cinco anos de idade, saíram da cidade de Alameda, Califórnia (Estados Unidos), para uma viagem de um ano. Isso foi em 2009, e eles continuam na estrada sem nenhuma intenção de voltar, até porque não há para onde “voltar”: todos os bens que o casal tinha foram vendidos ou doados, e a casa alugada. Há dois anos passaram no Brasil e estiveram em Manaus (AM), Belém (PA) e desceram toda a costa brasileira, do Ceará até o Chuí, extremo sul do País, a bordo da Kombi Westfalia vermelho vinho.

Menos tralha e mais tempo – Tanto a família Shurmann quanto a Rehm partilhavam de uma vida agitada, cheia de compromissos profissionais e com pouco tempo para si mesmos e a família. O caso de Jason Rehm é significativo e, infelizmente, muito comum. O pai de família era hipertenso, não se exercitava e os problemas de saúde se agravavam. O estopim foi no aniversário de quatro anos do filho, quando, ao soprar as velas do bolo, o menino pediu que os pais pudessem passar mais tempo com ele. O fato podia ter resultado numa conversa de pai e filho sobre a vida nas grandes cidades, mas Jason e Angela resolveram atender ao pedido do garoto de uma maneira impensável até pelo próprio. Em um ano compraram a Kombi Westfalia, reformaram e partiram.
“Tempo é mais difícil do que grana, porque poder ter dinheiro pra viajar e não ter tempo, não adianta”, revela Rodrigo Mattioli. A brincadeira popular que diz que ou se casa ou se compra uma bicicleta, não é aplicável a ele e sua esposa, Verônica Lacerda, 31 e 29 anos, respectivamente. Os dois não só casaram e compraram uma bicicleta, como largaram os empregos fixos para viajar pela Europa com a filha Alice. E se você pensa que já é difícil fazer com que pertences pessoais caibam numa Kombi, imagina numa bicicleta. E não sentiram falta de nada: “O espaço que se abriu em nossas vidas, depois que começamos a tentar viver com menos, nos ajudou a perceber muitas coisas. Acho que a mais importante delas foi algo muito simples, muito óbvio, mas que acabava ficando ali um tanto esquecido em meio a tanta tralha – física e mental –, a gente queria mesmo era estar juntos, e o resto era o resto”, conta Rodrigo.

O trabalho continua – A facilidade que a tecnologia trouxe foi um alento para Jason Rehm, um engenheiro com especialização em foguetes. Após o pedido do filho e a preparação para a viagem, teve a demissão negada pelo chefe que gostava muito do seu trabalho. A solução foi simples: transformou-o em um consultor on-line, faria seu trabalho no computador e enviaria de onde estivesse, mesmo que fosse do meio do Deserto do Atacama, no Chile.
Já os brasileiros Rodrigo, Verônica e a pequena Alice descobriram um modelo de viagem diferente: o World Wide Opportunities on Organic Farms, literalmente Oportunidades em Fazendas Orgânicas pelo Mundo. A ideia é que os viajantes se cadastrem no site e trabalhem voluntariamente nas fazendas familiares em troca de estadia e alimentação. “Nós nunca tivemos espaço nem pra plantar uma hortinha em casa”, conta Verônica. Passaram um mês na fazenda chamada Abundant Earth, no interior da Inglaterra, onde aprenderam tudo com os dois casais proprietários do local. Alice não se sentiu deslocada: os casais possuíam dois filhos cada, que regulavam idade com ela. O dia a dia era comum a todos: acordavam, tomavam café da manhã e, enquanto os adultos faziam tudo o que era necessário (consertar coisas, plantar, colher...), as crianças tinham aulas. Os fins de semana eram livres. “Nós dormíamos muito cedo quase todos os dias, por volta das 9 da noite. Foi fantástico recuperar o sono perdido de tantos anos”, lembra Verônica. Obviamente nem tudo eram rosas, e aprender a viver sem água encanada, luz elétrica, geladeira, água quente e todas as comodidades da vida moderna era um desafio, mas que foi enfrentado com muita disposição.

Escola móvel – Obviamente nenhuma dessas crianças frequenta uma escola regular, e em muitos casos elas aprendem in loco. O garoto Bode, por exemplo, aprendeu sobre o Império Inca e a geografia local lá mesmo, entre as ruínas de Machu Picchu, além de aprender a ler e escrever em espanhol nos dois anos que passou na América Latina. Já os meses no Brasil fez com que entendesse perfeitamente o português. Tanto os Rehm, quanto Rodrigo e Verônica utilizam o sistema homeschooling, ou educação doméstica, no qual os próprios pais, através de livros didáticos especiais, ensinam aos filhos, um tipo de ensino muito polêmico no Brasil, mas aceito em diversas partes do mundo.

Em algum lugar – Neste exato momento em que essas linhas são escritas, a família Shurmann se encontra no meio do Oceano Pacífico em direção ao arquipélago Juan Fernández, a 672 quilômetros da costa chilena. Rodrigo e Verônica estão em Castelldefels, no interior da Espanha e, no momento, deram uma pause na viagem, por um bom motivo: nas primeiras semanas de 2015, Alice ganhou uma irmãzinha, Nina. Aguardam a mais nova integrante da família crescer um pouco para seguir viagem. E Jason, Angela e Bode Rehm estão com sua Kombi estacionada em um camping em Lander City Park, no estado de Wyoming (Estados Unidos), aproveitando o fim do inverno naquele país.
E aonde todos eles vão parar? “Se quiserem saber”, diverte-se Verônica Lacerda, “sigam a gente (no facebook), porque a gente também não sabe.”




Fonte: Família Cristã junho de 2015
Postado por: Família Cristã




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