O amor é o melhor conserto

Data de publicação: 05/08/2015

Martelo, graxa, cola, dedicação e amor são alguns dos instrumentos de Meire Cunha, que ao longo da vida conserta sapatos e capítulos de sua história

Texto: Karla Maria
Fotos: Silvio César

Meire Cunha há mais de 40 anos atende atrás daquele balcão de madeira, sempre rodeada por caixas de sapatos. Por ali, também estão memórias de sua história: o berrante que o marido já falecido, Osvaldo Cunha, tocava e, nas paredes, matérias de jornais locais emolduradas com a história de sua vida e a de sua Sapataria Cunha.
E foi ali mesmo, detrás de um dos balcões mais tradicionais de Guarulhos (SP), entre um cliente e outro de um sábado agitado, que a mulher de 63 anos, a sapateira, contou sua história. Natural do Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo (SP), Meire chegou à cidade vizinha em 1954, quatro anos depois de inauguradas as Rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias. Eram tempos de aproximação das duas grandes cidades, um momento histórico de aceleração industrial no País, e a conexão com o estado do Rio de Janeiro também crescia pelas rodovias.
Momento histórico e também de aceleração na vida de Meire. Desde os nove anos, a menina já trabalhava com calçados, e tudo começou de um modo peculiar. Conta que tinha sido desobediente a uma vizinha e, como punição, a mãe a colocou de castigo. “Arrumei uma confusão na rua e minha mãe disse assim, ‘ao invés de você ficar fazendo confusão à tarde, você vai ajudar aquela senhora gratuitamente’, e ali iniciei o meu relacionamento com a costura de sapatos”.
Assim começou a se apaixonar pela costura de roupas e depois de sapatos. Passou também, aos poucos, a se apaixonar por Osvaldo. O rapaz tinha 18 anos e trabalhava em Guarulhos, fabricando e consertando sapatos. Foi em um local onde havia o serviço de pespontaria que se conheceram. Ambos iam até lá para costurar seus sapatos e o que se vê é que foi ali também que costuraram suas histórias.
O namoro começou. Ela tinha 12 anos e, depois de cinco, se casaram com a autorização dos pais dela. “Meu pai teve de ir ao cartório”, conta Meire, com sorriso fácil, um olho para a repórter e o outro nos clientes que encostavam a barriga em seu balcão.
Os colegas de trabalho se casaram. “Vimos que juntos éramos melhores e mais fortes”, relata Meire. Os jovens juntaram as escovas, os sapatos e os passos. Da união nasceu Edson, o filho único que o casal perdeu em 1995. Mas essa não foi a única perda de Meire. Há cinco anos, em 2010, Osvaldo também morreu, vítima de um câncer. Seu corpo se foi, mas seu conhecimento e seu amor pela família e pela sapataria, ao que parece, permanecem bem vivos.
“Ele deixou o preposto dele”, disse a sapateira apontando para Alex Oliveira, de 29 anos, um rapaz tímido que divide balcão, paixão e máquinas com Meire há 14 anos. “O Alex trabalhou com ele (Osvaldo) por muitos anos, não é meu filho, mas é do coração, porque ele conviveu desde criança e pegou todas as manhas... Se fosse meu filho talvez não tivesse absorvido tanto o nosso conhecimento neste ramo como ele absorveu”, conta orgulhosa.
Alex não é filho biológico do casal, mas herdará a sapataria. É casado com Ana Paula e tem uma filhinha, a Vitória. “Cheguei aqui e fui tratado com muito carinho, comecei a gostar do trabalho. Primeiro eu comecei varrendo o chão e fui me aperfeiçoando”, conta Alex, que antes nunca pensara em cuidar de seus sapatos, quanto mais consertar os de terceiros.


Raridade –
Alex é uma raridade: são poucos os jovens que hoje em dia pretendem trabalhar com a profissão que é uma das mais antigas que se têm registro. Tão importante que, desde 1300, comemora-se o Dia do Sapateiro em 25 de outubro. Alex tem mais a comemorar.
“Dona Meire e senhor Cunha são como meus pais. Ele era como um pai para mim. Eles me deram aquilo que meu pai e minha mãe não tiveram comigo. Aqui me sinto em família, é um amor incondicional. Não é só trabalho”, desabafa, nitidamente emocionado.
Alex aprendeu a ser sapateiro trabalhando no dia a dia. Não teve um curso específico para tal, mas a professora ensinou o oficio. “É preciso dedicação, porque é um conserto, então, a cada dia surge uma maneira diferente de consertar, surgem novos tipos de sapatos e materiais, por isso é necessário, além da habilidade, se atualizar sempre”, conta dona Meire.

Cultura do descartável – Meire não conhece Francisco, o papa, mas ambos compartilham ideias semelhantes sobre a cultura do descartável. Na ambição de possuírem bens, independentemente da qualidade e do impacto que os objetos causam ao meio ambiente, as pessoas estão cada vez mais comprando, consumindo desenfreadamente, acumulando, e isso acontece também com os sapatos.
“Um sapato feito há 30, 40 anos durava de 15 a 20 anos. Ele passava da irmã mais velha para a mais nova. Era a cultura do cuidado, do preservar, hoje não, porque a indústria trabalha visando a vender sempre mais. Hoje eu conserto mais sapatos novos do que velhos”, conta Meire.
“Sou sapateira e estudei para isso também, e não é que não tive opções não”, revela a mulher, que é formada em Corte e Costura, em Design de Sapatos e bacharel em Direito. “Tudo o que fiz foi para aprimorar o meu conhecimento na sapataria. Faço ainda e faria, porque eu amo isso.”
Ela não para, participa de cursos na indústria calçadista, no Amazonas, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, de feiras e exposições, conversa com fabricantes para entender e conhecer o material, a tinta, a composição dos sapatos que vão surgindo. “Há alguns anos, por exemplo, a sola era de borracha ou de plástico, hoje não, existem solas de plástico e borracha, então você tem que conhecer para saber que tipo de material utilizar para o conserto. É preciso acompanhar o mercado”, afirma.
Meire é inteligente, prática, carismática e comunicativa. Sabe lidar com velhos contratempos ainda bem contemporâneos, como o preconceito por ser uma sapateira mulher. “A maior parte dos clientes chega aqui e pede para falar com o sapateiro, eu digo: ‘pode falar’. A mulher parece não ter credibilidade, porque na verdade os profissionais, na maioria são homens, então há clientes que desconfiam”, conta.
A sapateira formou cerca de 50 profissionais e, segundo ela, dentre estes, nenhuma mulher, e apenas 10% levaram amor na arte de consertar sapatos. Gabriel Ramos tem 18 anos e é uma de suas apostas. “Eu gosto de trabalhar aqui, estou aprendendo bastante. Quero continuar nesta profissão”, aponta o jovem, z que está aprendendo a receita da dedicação e do amor.
O amor que move a sapataria parece até ser a continuidade do amor que Meire nutriu por seu marido, o senhor Cunha. “Ele amava isto aqui, então é uma forma de eu perpetuar a minha ligação com ele. Para mim, ele continua aqui”, conta a mulher, atrás de seu balcão.







Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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