Sétimo mandamento

Data de publicação: 10/08/2015

Por  Maria Inês Carniato, fsp *
 
“Não furtar”

Não furtarás é o imperativo bíblico do sétimo mandamento, que lembra a mais comum acusação penitencial da infância “roubei o doce do meu irmãozinho”. O certo é que o furto ou o roubo, pequeno ou grande, prejudica sempre os menores entre os irmãos.

Flagrante – Há algum tempo, um repórter de televisão narrou em tom de humor: “O programa investiga uma quadrilha que age em silêncio, sem deixar rastros e de forma misteriosa. São assaltos em pleno dia, eles saqueiam o que podem e vão embora”. “Fazem muito isso”, conta um morador do bairro Jardim Botânico, nas imediações da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ). E o repórter continua: “Um elemento sobe na árvore e se aproxima da casa, usando a maçaneta como apoio, ele se prepara para saltar, ali mesmo, põe na boca tudo o que consegue e, rapidamente, foge. Quase ao mesmo tempo, entra um elemento de maior porte, apesar da boa aparência, ele vai até a mesa e pega uma banana e um mamão”.
Os “elementos”, tratados jocosamente com linguagem policial, são macacos famintos, agindo nas cozinhas das mansões, em plena reserva ecológica da Mata Atlântica. “Isso não é o retrato de um desequilíbrio ambiental?”, perguntou o repórter do Fantástico à bióloga Cristiane Rangel, ao que ela respondeu: “É o retrato de uma cidade crescendo para dentro da floresta. A casa da pessoa era a casa do macaco antes”.
O repórter se refere à boa aparência do macaco “assaltante”. Mas, afinal, quem estaria, realmente, roubando na Floresta da Tijuca? Talvez um anúncio imobiliário como este, facilmente encontrado na internet, responda: “Magnífica residência em terreno de 10 mil metros quadrados em área protegida, na Mata Atlântica: vista maravilhosa, valor: 3,5 milhões de reais”. Um anúncio assim está ao alcance só das pessoas de muito boa aparência, que inspiram um trocadilho: pessoas muito boas só na aparência! 

80 ladrões – O conto oriental Ali Babá e os 40 ladrões é mais real do que imaginário! O bando vivia escondido, em Bagdá, capital do atual Iraque, onde zelava por um tesouro guardado em uma gruta. O dobro deles, os 80 maiores bilionários do mundo, não se escondem nem temem ser citados como donos de 50% do capital mundial. Os dados são do relatório econômico publicado em dezembro de 2014 na revista norte-americana Forbes. Segundo a revista, o mais rico do mundo em 2014 foi Bill Gates, fundador da empresa Microsoft. O empresário possui quase 100 bilhões de dólares e é venerado como santo por já ter aplicado 30 bilhões em obras de socorro aos mais pobres do mundo. O problema é que a glória dessa cifra do bem acaba por legitimar o patrimônio três vezes maior, de que o bilionário desfruta sozinho.
Outros tempos – “As leis são como teias de aranha: boas para capturar mosquitos, mas os insetos maiores rompem a trama e escapam”, disse o jurista grego Sólon, há mais de 2.500 anos. Um juiz antigo, às voltas com as injustiças, fica tão constrangido como nós, diante do tratamento dado aos ladrões humildes e humilhados, semelhantes aos macaquinhos famintos da Tijuca. Tratamento diferente do destinado aos cidadãos de excelente aparência. Os sábios judeus dos tempos bíblicos, alinhados com o colega grego Sólon, também observaram: “O rico pratica a injustiça e ainda reclama; o pobre, injustiçado, ainda pede desculpas” (Eclo 13,4); “Quem edifica a própria casa à custa alheia é como quem ajunta pedras para o próprio túmulo” (Eclo 21,9).
As advertências indignadas dos profetas, frente às injustiças em Israel, mostram o que, para eles, era irredutível na lei de Deus. Escreve Isaías: “Ai daqueles que vão juntando casas e mais casas, emendando terreno com terreno, até não sobrar espaço para mais ninguém!” (Is 5,8). Acrescenta Habacuc: “Ai daquele que se enriquece com o que é dos outros, acumulando para si coisas penhoradas” (Hab 2,6). E completa Amós, “Por isso mesmo, por oprimirdes o pequeno e extorquir-lhe a porcentagem do trigo, estais construindo casas de pedras lavradas, mas nelas nunca ireis morar. (...) Sei como são pesados os vossos pecados, exploradores dos inocentes, cobradores de suborno, que enganais o carente no tribunal” (Am 5,11-12).
Enfim, o que o sétimo mandamento de Moisés “não furtarás” (Ex 20,15) pede aos cristãos, por detrás da aparente ingenuidade idealista frente aos contrastes atuais?

Olhar de Deus – O pega-ladrão é severo e imediato quando o ladrãozinho de esquina foge com medo de ser preso pela polícia ou linchado pela multidão, enquanto, no outro lado da cidade, o megaladrão é bajulado nos locais glamourosos que frequenta. Essa lógica perversa desperta indignação ao julgamento humano. Deus, porém, sempre nos desconcerta com seu modo de ver, julgar e agir.
Duas cenas da vida de Jesus revelam a força transformadora do olhar de Deus sobre os pequenos e os grandes, quando transgridem o sétimo mandamento. Os ladrões grandes podem ser figurados em Zaqueu, o funcionário público que ficou rico desviando parte dos tributos extorquidos do povo em nome do Império Romano. A simples presença de Jesus em sua casa o fez perceber a própria falsidade, e ele decidiu mudar de vida: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais Jesus lhe disse: Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão” (Lc 19, 8-9).
Os ladrões pequenos são como aquele pobre condenado que morreu na cruz ao lado de Jesus. Os Evangelhos de Mateus e de Marcos o taxam de ladrão (cf. Mt 27,38; Mc 15,27), não se sabe o que ele roubava, talvez galinhas. Lucas, o evangelista dos excluídos, sempre mostra Deus presente onde ninguém o espera! Para ele, o colega de infortúnio de Jesus é apenas um “malfeitor”. O certo é que estava no nível dos escravos, dos mendigos, dos sem nome e dos sem defesa, bem abaixo dos macaquinhos da Tijuca, se comparados à escala social de hoje.
Quem assistiu aos últimos momentos daqueles dois agonizantes torturados, igualados na condenação injusta e no destino trágico? Talvez Maria e o discípulo João, que estavam de pé junto à cruz! Um dos dois pode ter revelado a Lucas o diálogo dramático que escutou, já às portas da eternidade: “Jesus, lembra-te de mim, quando começares a reinar. Ele lhe respondeu: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso’”. (Lc 23,42-43). Paraíso garantido aos pequenos, que são mais vítimas do que culpados nas transgressões que cometem; e também reservado aos grandes, quando se convertem, devolvem o que roubaram e mudam de vida.

Na próxima edição, o oitavo mandamento.
* Maria Inês Carniato é Irmã Paulina e mestra em Teologia.



Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.










Fonte: FC ediçao 952-ABRIL- 2015
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

O Anjo Bom do Brasil
Irmã Dulce,a religiosa que conquistou o coração do povo brasileiro será canonizada.
Mesa da Palavra
13º. Domingo do Tempo Comum - Ano C • 30 de junho de 2019 - Solenidade de São Pedro e São Paulo
Mesa da Palavra
A fé cristã professada pela Igreja Católica é de tal forma complicada, que só pode ser verdadeira.
Mesa da Palavra
Solenidade de Pentecostes.Quando ele vier, conduzirá os discípulos à plena verdade.
Mesa da Palavra
A refeição e a pesca são dois acontecimentos unidos na mesma narrativa
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados