Competência a dois

Data de publicação: 12/08/2015

Por Sérgio Esteves

Um desdobramento da mulher ter conquistado espaço no mundo do trabalho, nas universidades e nos rumos decisórios do País foi o de poder trabalhar lado a lado com o homem e disputar com ele – nem sempre em condições de igualdade – postos de liderança. E, apesar disso, sair-se vencedora, algo valorizado em uma sociedade capitalista que tem na meritocracia – quando não na injustiça – critérios para premiar quem se deu bem na vida. O desafio, porém, que angustia homens e mulheres é como não transferir esse clima de competição à vida de casal. Porque quando os dois se comprometem com responsabilidades profissionais, mesmo pondo em primeiro plano a vida a dois, mas não conseguem separar a vida pública da íntima, os papéis podem se misturar e ficar difícil ver na mulher a amada ou no homem, o companheiro. Isso, às vezes, é inocentemente revelado em palavras que evidenciam uma contaminação do discurso amoroso pelo corporativo. A mulher, por exemplo, vira a “sócia” ou a “parceira” e o homem, o “patrão”, o “chefe”.  
Transferir a competição para um relacionamento a dois é a bala de prata para matá-lo e promover o egoísmo como um valor que leva à destruição de qualquer fraternidade entre os seres humanos. Por mais que os vícios do neoliberalismo se infiltrem insidiosamente em nossas vidas íntimas – e esse parece ser mesmo seu objetivo final – é preciso resistir. “Competição não é algo a ser levado para o encontro amoroso. Isso faz da vida a dois um inferno. A tendência, infelizmente, se tornou mais frequente dos anos 1980 para cá com o advento dos yuppies, uma derivação da sigla yup, que, em inglês, significa ‘jovem profissional urbano’ que busca o sucesso profissional e individual a qualquer custo, em uma antítese aos antigos hippies dos anos 1960 que viviam em comunidades. Os chamados workaholics, pessoas viciadas em trabalho e que o transformam em compulsão, formam o extremo doentio dessa tendência”, explica o médico e psicanalista Paulo Próspero, com 40 anos de experiência clínica, inclusive com a terapia de casais.

Cumplicidade e incentivo – Como qualquer competição termina por valorizar um em detrimento da capacidade menosprezada do outro, é fácil compreender que entre homens e mulheres, ao menos enquanto formam casais, competições e comparações não fazem nada bem ou se transformam em uma espécie de “sadomasoquismo moral”, segundo Paulo Próspero. “Um quer sabotar o outro, colocá-lo para baixo e ter certo prazer em fazê-lo sofrer para se autoafirmar. Isso geralmente termina em muito sofrimento”, analisa. Por outro lado, parceria, estímulo e, principalmente, cumplicidade funcionam como verdadeiros afrodisíacos naturais. “Sob esse aspecto, prefiro mais a cumplicidade e menos o amor, uma palavra muito mal empregada atualmente em nossa sociedade. Quando homens e mulheres são cúmplices uns dos outros e deixam de lado a competição, a relação se torna mais agradável e fértil e o casal se fortalece. O prazer funciona melhor em todos os aspectos”, afirma o psicanalista.
Um exemplo confirmado de como o incentivo funciona melhor do que a competição é dado pela secretária Rosângela Lucchetti e pelo operador de tráfego Carlos José de Oliveira, que estão casados há quase 25 anos, sem falar de outros três anos de namoro. “Quando nós nos casamos, eu já era formada, mas o Carlos ainda não. Por isso, o incentivei bastante para ele cursar uma faculdade. Com muita persistência, ele conseguiu completar o curso de Tecnólogo em Transportes Terrestres, que o ajudou bastante em sua carreira e seu desenvolvimento profissional. Acredito que foi uma grande vitória para ele e para mim também”, recorda Rosângela. Carlos resume esse bem-sucedido relacionamento com Rosângela em cumplicidade, harmonia e a vontade de vencer as adversidades da vida. “Temos uma cumplicidade total e um comprometimento em crescermos juntos. Valorizamos demais o trabalho e o quanto cada um colabora para o outro. Já há muita competição no mundo e não podemos trazer mais uma para dentro de nossas vidas, porque isso não agrega nada e torna mais difícil o dia a dia”, garante.

Nós – Segundo Paulo Próspero, a velha lei de que saber ceder é fundamental para o sucesso de uma relação a dois permanece mais do que nunca válida. “É preciso termos diplomacia em todos os contratos sociais que estabelecemos, inclusive os amorosos e mais íntimos, seja na cama, na cozinha, na sala e no dia a dia. E isso deve ser observado também pelos casais”, avisa o psicanalista. É claro que, prestes a celebrarem bodas de prata, Rosângela, que se vê como “a mais organizada e disciplinada”, e Carlos, “o mais impulsivo”, já se conhecem bem e aprenderam alguns segredos de uma vida em comum. “Entre nós não existe ‘o meu’, mas existe, com muita ênfase, ‘o nosso’. Sempre recorremos um ao outro e conjugamos os verbos na primeira pessoa do plural: nós”, garantem os dois. 






Fonte: Edição 955,julho de 2015
Postado por: Família Cristã




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