Nono mandamento

Data de publicação: 24/08/2015

Por Maria Inês Carniato, fsp

 “Não desejar a mulher do próximo”

O repúdio ao desprezo pela mulher moveu os israelitas a verem o mandamento “Não desejarás a mulher do próximo” (Dt 5,21a) como lei de Deus e a elevarem a mulher de Israel acima dos conceitos dos outros povos. Segundo a rabina Sandra Kochmann, da Associação Religiosa Israelita (ARI) do Rio de Janeiro (RJ), a mulher da Bíblia fazia parte da vida social e religiosa e só saiu do cenário público quando o povo judeu se espalhou por outros países, já por volta do século 3º da Era Cristã. Vivendo em sociedades hostis aos judeus, só os homens enfrentavam as ciladas das ruas, enquanto a esposa e os filhos ficavam protegidos, no lar.
Se é certo que a mulher foi ativa no meio do Povo de Deus, é também verdade que os textos bíblicos mais antigos denunciam uma cultura próxima do barbarismo. Conta o livro dos Juízes que um levita, viajando com sua concubina, hospedou-se na cidade de Gabaá, ao sul de Israel. Homens pervertidos quiseram abusar do levita, e o hospedeiro do casal propôs: “Vou trazer-vos minha filha moça e a concubina dele, podeis abusar delas e fazer-lhes o que melhor vos parecer. Mas a esse homem não façais tamanha infâmia”. O levita empurrou sua concubina para fora da casa. “Eles a violentaram e abusaram dela a noite inteira, até de madrugada.”  Quando ela voltou, caiu junto à porta de onde estava o marido e de manhã, saindo para seguir viagem e vendo-a no chão, ele a chamou: “Levanta-te! Vamos embora!” Mas ela havia morrido (cf. Jz 19,25-28a).
A cena mostra uma cultura que admite o sacrifício da mulher para satisfazer o instinto irracional de estranhos e salvar o marido. Nesse contexto, o mandamento, “Não desejarás a mulher do próximo (Dt 5,21a) é a salvaguarda da mulher israelita. De fato, em hebraico a palavra marido é baal, que significa patrão e proprietário, porém, é fácil ver que o mandamento faz duas propostas. A primeira se refere a não desejar a esposa, é o nono mandamento; a segunda: “Não cobiçarás a casa do próximo, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertence” (Dt 5,21b,c), refere-se ao décimo mandamento. A primeira proposta não se inclui na segunda e não faz da mulher mera propriedade do homem. Isso porque os dois verbos hebraicos são diferentes. Hamad, “desejar”, fala do instinto brutal e incontrolável, capaz de matar, como descreve o livro dos Juízes. Já, o verbo awah, “cobiçar”, implica ações calculistas com o fim de usurpar os bens alheios.
Juízo de Deus – Os livros bíblicos tardios trazem uma nova visão do casal e citam até a pena de morte para o homem que tente enganar a mulher. O nome do profeta Daniel significa “Deus é meu juiz”. E este livro, precisamente, conta o que ocorreu entre os exilados, na Babilônia. Dois anciãos foram acometidos de paixão cega por uma jovem senhora chamada Susana e quando a viram, sozinha no jardim, a atacaram, ao que ela reagiu gritando com todas as forças. Logo as pessoas acudiram e eles, para se safarem do flagrante, a caluniaram de estar abraçada com um rapaz no meio das árvores. Susana foi condenada à morte por adultério, mas o jovem Daniel, inspirado por Deus, pôs os anciãos à prova, e eles caíram em contradição sobre o lugar onde teriam visto o casal. Ficou, assim, evidente a trama dos dois, e Daniel os denunciou dizendo: “A beleza feminina te desnorteou, a paixão te fez perder a cabeça. Era assim que fazíeis com as mulheres de Israel e elas, com medo, se entregavam aos vossos desejos, mas esta filha de Judá resistiu às vossas indecências!” (cf. Dn 13,56b-57). Assim, o povo viu que Deus acabava de salvar uma mãe de família da paixão infame de homens perversos. A pena que seria para ela recaiu sobre eles e foram mortos.
No último período do Antigo Testamento, a comunidade judaica deu muita ênfase à família, e a esposa passou a ser honrada em casa dos sogros, o que é fortemente inculcado no livro de Tobias. O jovem Tobias foi visitar um parente e se casou com Sara, sua prima em grau distante. Ao vir para a casa do marido, Sara foi recebida pelo sogro com uma bênção: “Sê bem-vinda, minha filha! E bendito o teu Deus, que te conduziu até nós! Bendito o teu pai e bendito Tobias, meu filho, e bendita sejas tu, minha filha! Sê bem-vinda a tua casa, com bênçãos e alegria! Entra, minha filha!” (Tb 11,17b,c).
A luta contra a desigualdade matrimonial aumentou no fim do Antigo Testamento, e o livro do Cântico dos Cânticos defende o direito ao amor, valorizando os sentimentos e as decisões do homem e da mulher e até dando a ela a iniciativa do convite: “Venha o meu amado ao seu jardim e saboreie os seus melhores frutos. Já vou ao meu jardim, ó minha irmã e esposa, e aí colho minha mirra com meus aromas; aí sorvo o favo com o mel e bebo o vinho com meu leite” (Ct 5,1). O Cântico propõe o matrimônio como decisão de amor, na qual o casal se entrega um ao outro com liberdade.
Barbarismo – O verbo bíblico hamad, desejar e dominar com paixão irracional e violenta, é bem apropriado a certo comportamento bárbaro atual. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 2 milhões de mulheres e meninas, por ano, são traficadas como escravas sexuais. Em todas as sociedades, meninas, adolescentes e mulheres adultas sofrem estupro, tortura, agressão e violência sexual, muito mais do que se pensa, no silêncio das casas de família.
A atualidade do mandamento “Não desejar a mulher do próximo” denuncia outro fenômeno moderno, antes menos notório do que agora: meninas e meninos são aliciados como servidores e escravos sexuais, tanto de homens como também de mulheres. Em nenhum tempo da História, a paixão irracional empurrou a ética e os valores humanos a tal nível de rebaixamento!   
Luz do mundo – Toda ação que fere a dignidade e a integridade de uma pessoa indefesa é pecado, especialmente se a vítima for mais fraca do que o agressor. “Desejar” alguém, homem ou mulher, com paixão irracional, e alcançar o objetivo por coação e agressão é ato indigno da conduta cristã.
Mais do que o testemunho ético de humanidade, o casal e a família cristã são sinais do  amor sobrenatural, vivido no Matrimônio como sacramento que traz a graça de Deus para o lar e faz dele “um só coração e uma só alma” (At 4,32). É este o desafio lançado por Jesus, quando diz: “Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).   
Na próxima edição, o décimo mandamento.
* Maria Inês Carniato,fsp, é Irmã Paulina e mestra em Teologia.


Os dez mandamentos

1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.






























Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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