Caminho novo

Data de publicação: 31/08/2015


Renata e Wesley recomeçam a vida de olho no futuro e conversam sobre redução da maioridade penal, oportunidades e testemunham a importância da família



Por Nathan Xavier
Fotos Felipe Larozza

Subo as escadas, estreitas e feitas à mão com restos de madeira, até o mezanino também todo construído artesanalmente com placas de madeira compensada e estrutura de ferro. Estamos em um andar num antigo prédio do centro de São Paulo (SP), abrigo para os livros que abastecem as Biciclotecas, projeto criado por Robson César Correia de Mendonça, que viveu por seis anos em situação de rua. No mezanino, alguns dormitórios e uma pequena sala, lugar onde me encontro com Renata Pantaleo Dias, a menina é alta para os seus 15 anos. Praticamente da mesma altura, Wesley Rodrigues de Souza, de 19 anos. Os dois amigos se conheceram em um abrigo para menores que não possuem pais e parentes ou que são separados dos pais pela Justiça, caso de Wesley e Renata. Ambos conhecem a realidade das ruas muito bem. O garoto passou sete meses na Fundação Casa, como é chamado o sistema prisional para menores no estado de São Paulo. Abandonado pela mãe aos dois meses de idade, fora criado pelo pai, e, segundo Wesley, era bem rígido e frequentemente batia nele e nos irmãos mais velhos. Por volta dos 14 anos começou a “dar problema” e, como o pai tinha saúde delicada por ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC), Wesley resolveu sair de casa para não deixá-lo mais nervoso.

Arrependimento –
Renata foi parar num abrigo aos 12 anos, também fugida de casa. Os pais eram separados, mas brigavam constantemente. Com dez anos quis sair da casa da mãe para morar com o pai, pois achava que seria melhor. Mas o pai e a avó falavam mal da mãe, o que era motivo para constantes brigas. Nessa mesma época, incentivada por amigas, “matava” aulas e a situação em casa piorou. Única filha mulher, ela reclama da redoma que o pai a envolvia: “Eu queria sair com minhas amigas, conversar com elas e meu pai não deixava, só podia ficar em casa”. A garota admite: “Nessa idade a gente acha que o que os amigos falam é lei e o que os pais falam é bobagem. Quando passa, a gente vê que os pais tinham razão. Pra conquistar tudo de novo é difícil”.
Já Wesley reconhece que não foram os amigos que o influenciaram, foi ele mesmo que teve a iniciativa. O pai não o deixava sair para festas, e a primeira vez foi escondido, pulando o muro de casa para “curtir” com os amigos, voltando tarde e bêbado pra casa. O resultado ele já sabia: teve que enfrentar a fúria do pai. Fúria, por sinal, totalmente compreensível, segundo o próprio Wesley, que não concorda com a violência paterna, mas hoje entende que ele tinha razão em tentar reprimir a impulsividade comum a qualquer pré-adolescente: “Ele me deu muitos bons conselhos, eu que achava que não tinha nada a ver. Eu queria era ficar na rua”.
Por outro lado, Renata reflete: “Se eu tivesse escutado minha família no começo, eu estaria em casa com eles agora. “Quando olho para trás bate um arrependimento, saudade da família, mas também acho que era pra ter acontecido isso, era para eu ter conhecido esse lugar (o abrigo)”. Wesley observa o mesmo: “Podia ter estudado, feito os cursos que meu pai arrumou pra mim, ter dado mais valor a isso. Quando percebi, já estava envolvido (na ilegalidade). A saudade bate, vontade de querer voltar atrás, mas sabe que o tempo não volta”. “Agora, é só pensar em melhorar”, completa Renata.

Polêmica –
Aproveitando as discussões envolvendo a redução da maioridade penal, pergunto a eles sobre o assunto e, imediatamente, dizem concordar, mas “apenas para casos que envolvem morte ou algo muito grave”. Acreditam que, para os demais casos, aumentar a pena pode ser uma alternativa melhor. No entanto, ressaltam que nada disso resolve se não for apresentada uma alternativa para quando o jovem sair da internação. Renata é taxativa: “Se reduziu a maioridade pra isso, devia diminuir pra trabalhar também. Ninguém dá emprego ou oportunidade a essas pessoas, e tem muito garoto de 15 com tamanho de 20”.
Wesley afirma que a Fundação Casa funciona para quem quer mudar de vida: “O problema é que muitos jovens que não têm esperança, moram na favela e não veem oportunidade para a própria vida, aí voltam para o crime”. Para o garoto, que foi parar na entidade prisional com 16 anos, a mudança veio quando saiu: “Na primeira visita veio minha irmã e vi que ela estava com cara de choro. Na hora não entendi por que ela tinha chorado, depois descobri que era por causa da revista, as mulheres passam por uma situação muito humilhante. Quando descobri o que acontecia nessas revistas, percebi que eu tinha que dar valor para minha família, valor que eu nunca tinha dado, porque, mesmo depois de tudo o que aconteceu, eles iam me visitar”.
Renata alerta: “Todos devem ter uma segunda chance. Se até Deus perdoa, por que a gente não perdoaria? Todo mundo muda, ninguém é de pedra. Não vale a pena continuar no caminho errado. Eu mudei de vida quando percebi que estava sozinha, na rua, longe da minha família. Eu só tinha amizade quando tinha dinheiro. Na rua você não tem amigos, é um querendo engolir o outro”.
Wesley concorda com Renata, mas não é tão otimista, pois, infelizmente, muitos não querem ou não acreditam que podem mudar: “Tem de ter a família. Pode ter assistente social, psicólogo, mas sem a família para apoiar não adianta. A família é essencial para o jovem sair da rua ou da vida do crime. Um voluntário ou pessoal da Igreja também são importantes, alguém que dê esperança para aquele jovem”.

O futuro –
Renata sonha em se formar em estética e ter o próprio consultório para se sustentar. Wesley, no momento, quer completar os estudos, pois está na 7ª série. Depois de terminar, ele quer fazer advocacia para defender pessoas. Ao mesmo tempo, pensa “e se vier um Jack para eu defender?”. Jack é a gíria usada para identificar o estuprador que, segundo Wesley, não é bem- aceito em nenhuma cadeia, mesmo entre os menores da Fundação Casa. Casos assim são isolados pelos agentes penitenciários em celas separadas, pois os próprios presos matam o detento. Wesley lembra que todo mundo merece uma segunda chance, mas concorda que é complicado advogar esse caso. Ao mesmo tempo também pensa em cursar engenharia, para logo depois ponderar: “Mas sei que isso é muito difícil. Faculdade para nós, que crescemos na favela, moramos em situação de rua, estamos muito atrasados no estudo, eu penso que não vai dar certo. Até lá terei de trabalhar muito. Tenho que pagar luz, água, aluguel, e isso se não tiver um filho. Vai ficando difícil, tem muita gente que desiste”. Renata tenta incentivar: “Ah, tem gente que termina a faculdade com 80 anos”, emendando, num largo sorriso.

Pais zelosos – Pergunto aos dois o que fariam se o filho começasse a fazer as besteiras que eles fizeram. Após um sonoro e longo “Nossa”, em meio às risadas de Renata, Wesley afirma: “Eu não bateria no meu filho e deixaria ele sair, ir às festas, mas faria uma troca com ele: ‘Quer ir  a uma festa? Então me traz pelo menos uma nota 9,5 em determinada matéria’. Tudo o que ele quiser fazer vou jogar no estudo dele, vou ensiná-lo a trabalhar também. Eu não seria como meu pai de jeito nenhum, o que passei com meu pai não quero que meu filho passe não”. Renata concorda: “Eu não impediria o meu filho de ir, mas explicaria todas as coisas ruins que podem acontecer e tudo o que passei. Às vezes prender é pior, pois fica a curiosidade”. “A vida do crime só tem três caminhos”, completa Wesley, “a cadeia, a morte ou a cadeira de rodas. Vida de trabalhador não é fácil, mas é a única que você pode viver de boa”.




Fonte: Edição 956, agosto de 2015
Postado por: Família Cristã




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