Décimo mandamento

Data de publicação: 31/08/2015

 Por Maria Inês Carniato, fsp *

 “Não cobiçar as coisas alheias”

 “Mãe, por que o bife dele é maior do que o meu?”, protesta a menina de 4 anos, à mesa, com o olhar acusador para o prato do irmão. O comportamento das crianças revela a tendência humana a acumular mais posses do que os outros. Quem as observa enquanto brincam com frequência ouve a afirmativa “é meu!”, acompanhada de gritos, tapas, choros e cabos de guerra pelos objetos cobiçados.

Gente atrofiada – A criança pequena é uma pessoa em formação e tem direito de viver a saudável fase egocêntrica, a caminho da maturidade fraternal, quando passa a reconhecer o direito do outro. O problema é que, por muitas causas, o amadurecimento pode ser truncado e dar lugar ao egocentrismo, impedindo o indivíduo de ser um adulto saudável e integrado. Quando o primitivo “é meu” grita mais alto e planos e ações desonestos entram em jogo e abafam os valores morais e éticos, a cobiça e o acúmulo de bens afundam o sujeito em um abismo de frustração e até de pecado, conforme a gravidade das consequências de sua cobiça. 
Já estavam cientes disso os sábios de Israel quando escreveram na Bíblia, inspirados por Deus: “Quem ama o dinheiro, dele não se fartará; quem ama a riqueza, dela não tirará proveito: e isso também é vaidade” (Ecl 5,9); “Há ainda uma tristíssima desgraça, que vi debaixo do sol: as riquezas acumuladas para a infelicidade de seu próprio dono” (Ecl 5,12); “Não te apoies em riquezas injustas, pois de nada te valerão no dia da desgraça” (Eclo 5,10). Deus educa seus filhos e filhas humanamente e assim os prepara para a aliança de fé com ele. Por isso, diz o décimo mandamento: “Não cobiçarás a casa do próximo, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertence” (Dt 5,21b).
O mandamento desqualifica nada mais do que tendências e ações praticadas em todos os tempos e culturas onde existam seres humanos convivendo. Conta um dos escritos históricos de Israel que o rei Acab cobiçou a chácara de seu vizinho Nabot e tentou desapropriá-la, mas o vizinho recusou a proposta. O rei voltou para casa irritado e, como uma criança mimada, deitou-se na cama virado para a parede e não quis comer. A rainha Jezabel, com menos escrúpulos do que o marido, ordenou a juízes corruptos que Nabot fosse caluniado, julgado e condenado à morte, e eles assim fizeram. Quando soube do cumprimento da ordem, ela disse ao rei: “Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por dinheiro; pois Nabot já não vive. Está morto”. Acab  se levantou e foi tomar posse da vinha cobiçada (cf. 1Rs 21,1-18).
Excluindo-se a ideia – legítima na cultura dos tempos bíblicos e hoje inaceitável ¬– de que alguém pode ser escravo ou escrava, os outros interditos do mandamento se aplicam, em grande escala, nas sociedades modernas. Onde há pessoas interagindo, tudo se repete!

Macrocorrupções – Quantas comunidades indígenas são expulsas ou massacradas silenciosamente por grandes ruralistas, gente importante do País, invasores de terras, exterminadores de florestas e usuários de pesticidas proibidos! Disso, ao menos, o rei Acab e a rainha Jezabel não podem ser acusados.
Certos cristãos inconscientes podem aplicar o mandamento “não cobiçar as coisas alheias” à conduta de um adolescente que furta um par de tênis de marca. Esses mesmos cristãos podem, ao mesmo tempo, ser amigos de quem explora o trabalho alheio, paga maus salários, sonega impostos, ignora direitos trabalhistas, levanta cercas elétricas nas propriedades ou desvia verbas públicas destinadas ao bem-estar social.
Por desgraça coletiva, um dos termos mais usados no Brasil é corrupção, ao qual os massificadores da opinião pública dão os significados que mais convêm aos seus interesses. É justo, portanto, tirar as diferenças sobre o assunto, consultando entes inanimados e, por isso, incorruptíveis, como o Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Resumindo os dois, o verbete corrupção tem as seguintes definições: “adulterado, alterado, devasso, depravado, podre, estragado, infectado”. O termo cobiça, é definido por “desejo sôfrego, veemente, de possuir bens materiais; avidez, cupidez, ambição desmedida de riqueza”. O termo cupidez é melhor explicado no verbete cúpido: “dominado pelo desejo, ávido de dinheiro e de bens materiais, avarento e devasso”.
A língua portuguesa vai a fundo, ao âmago das pessoas, das situações e dos fatos, tanto como a língua hebraica, que levou profetas e sábios a dizerem, mais de 2 mil anos atrás: “O ímpio se gloria da cupidez da sua alma, o avaro felicita sua alma, despreza o Senhor. O ímpio, no seu luxo soberbo, diz: ‘Ele não repara’, ‘Deus não existe’ eis o que pensa” (Sl 10,3-4).  “Ninguém mais vai chamar de nobre ao corrupto nem ao ladrão de excelência” (Is 32,5).

Jogo sujo – “O que está em jogo é a reputação da União Europeia", declarou o ministro das Relações Exteriores italiano, Paolo Gentiloni, referindo-se ao afogamento de imigrantes clandestinos que vinham da Líbia para a Itália, no dia 19 de abril de 2015. O barco pesqueiro de 20 metros de extensão trazia 700 pessoas, a maioria amontoada no depósito de peixe do porão. Com o naufrágio, apenas 28 foram salvas.
A aparência apavorada do tunisiano de 27 anos que comandava o barco naufragado não condiz com a afirmação feita no dia seguinte pelo ministro do Exterior alemão Thomas de Maizière: "Criminosos ganham muito dinheiro lotando barcos inapropriados e abandonando as pessoas à própria sorte”. Estes são os mandantes, que pertencem a poderosas quadrilhas ligadas e corporações internacionais do crime, conforme publicou a agência BBC de Londres em seu site no Brasil, no dia 19 de abril de 2015. Protegidos pelos cargos e títulos de poder que possuem, os verdadeiros e maiores cúpidos, podres e devassos enriquecem em silêncio à custa da vida dos excluídos. Se a Bíblia fosse reescrita, o décimo mandamento seria muito mais extenso e complexo!

Tesouro, só no céu – Filhos das Trevas é o título aprovado por Jesus para quem usa de poder e de influência para enganar os outros (cf. Lc 16,8). Na mesma passagem do Evangelho, o Mestre diz a verdade nua e crua aos que resguardavam a aparência confiável, mas eram dominados pela cobiça e pela fraude: “Então ele lhes disse: ‘Vós gostais de parecer justos diante dos outros, mas Deus conhece vossos corações. Com efeito, o que as pessoas exaltam é detestável para Deus’” (Lc 16,15).
O cristão autêntico examina a própria conduta à luz do décimo mandamento e da orientação de Jesus: “De fato, de que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?” (Mc 8, 36); Silencie qualquer eco infantil do “é meu!” que possa deixá-lo(la) surdo(a) aos clamores dos irmãos e abre os ouvidos do coração para o conselho do Senhor: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam” (Mt 6,19-20).
Como todos os outros mandamentos, também o décimo mandamento faz toda a diferença na atualidade, não apenas para os cristãos, como também para qualquer pessoa que queira pautar a própria vida pela ética e o respeito aos direitos do próximo.
* Maria Inês Carniato é irmã paulina e mestra em Teologia

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.













Fonte: Edição 955,julho de 2015
Postado por: Família Cristã




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