Pai de rua, pai de todos

Data de publicação: 02/09/2015

Ele saiu das ruas, mas não as deixou, permanece nelas promovendo a leitura e defendendo os direitos daqueles que chama de “meus filhos”

Texto: Karla Maria
Fotos: Felipe Larozza

A cidade de São Paulo (SP), a maior do País, tem 15.905 moradores em situação de rua, 10% a mais do que há quatro anos. Os dados são do censo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), vinculada à Universidade de São Paulo (USP), entre fevereiro e março deste ano, a pedido da gestão Fernando Haddad (PT).
Esse número, contudo, é questionado fortemente por aqueles que atendem essa população de perto, e mais, por ela própria. “Foi uma contagem malfeita, foi gasto muito dinheiro para uma irrealidade. Queremos uma pesquisa qualitativa. Sabemos que são cerca de 23 mil moradores em situação de rua”, afirma Robson César Correia de Mendonça, que passou seis anos de sua vida nessa condição na capital paulista, três morando debaixo de viadutos, nas sarjetas, e outros três nos albergues da cidade.
Ele tem três apelidos: bigode, advogado dos mendigos e pai. É natural de Maceió (AL), mas aos seis meses de idade mudou-se com a família para Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul. É, portanto, gaúcho de coração, de cuia na mão. Tem jeito bravo, e talvez a fama se deva ao bigode que carrega, escondendo o sorriso, que, teimoso, se abre de vez em quando em meio aos seus filhos do coração.
A teimosia tem respaldo. A vida deste homem de 64 anos não foi fácil e seria roteiro certo para um filme, de drama. Ainda criança, seus pais biológicos se separaram, e ele foi doado para uma família pecuarista, lá no Rio Grande do Sul. Com eles, Mendonça aprendeu a cuidar da terra, do gado, a montar, a valorizar seus bens. Não se preocupava em estudar.
Era mulherengo, reconhece. “Como todo gaudério, eu tive várias mulheres até escolher uma”, conta, e foi assim até os 19 anos, quando Elisabeth Silva, a morena cor de cuia da cidade de São Borja, apareceu em sua vida. Foi em um rodeio. Foi paixão. Namoraram pouco mais de dois anos, se casaram e tiveram dois filhos: a Telma e o Carlos.
Em certo momento da vida do casal, em 1999, eles decidiram recomeçar a vida em São Paulo. Desejavam que os filhos tivessem mais oportunidades de estudo, então, Mendonça vendeu suas terras, alguns animais, e partiu para a metrópole. A família viria depois, quando já estivesse devidamente instalado.
Desembarcou no Terminal Rodoviário Tietê, o maior da América Latina. Tinha 48 anos, uma mala e 200 mil reais no bolso. Foi sequestrado e perdeu tudo, assim conta. “Chegando aqui fui vítima de roubo. Quando eles viram talão de cheques, conta bancária, decidiram me sequestrar. Fui pego na rodoviária, e eles me trouxeram para cá, para o Anhangabaú”, diz Mendonça, olhando pela janela do prédio em que hoje vive e mantém seus projetos com moradores em situação de rua, no centro de São Paulo.
“A quadrilha que falsificou meu documento e me aposentou por invalidez me levou para sacar o dinheiro em um banco no Tatuapé (bairro na zona leste da cidade). Penso que eles já tinham um esquema lá, porque sacaram todo o dinheiro com facilidade. E assim começou a minha peregrinação, sem documento, sem parentes e sem dinheiro”, lembra Mendonça.
Ele buscou ajuda na assistência social da prefeitura e não recebeu alternativas de, por exemplo, voltar a Alegrete, no seu Rio Grande. Passaram-lhe os endereços e horários dos albergues disponíveis. “Mandaram-me para um depósito de ser humano, sem expectativa nenhuma”, desabafa.
“A vida nas ruas é triste. Quando você se conforma é uma coisa, enquanto você não se conforma, você tem que passar mais dopado, tomando cachaça, fumando maconha. Você tem que criar uma máscara, uma fantasia para sair daquela realidade”, conta o homem, que vivia com medo de morrer enquanto dormia.
Passou frio na sarjeta. Muitas foram as vezes em que acordou debaixo da estátua do apóstolo Paulo, ali na Praça da Sé, no coração da cidade. “Fome a gente passa, mas não é tanta. A gente passa mais é sede, porque é muito difícil você ter garrafas d’água, então geralmente se ele está com uma garrafa de água, o camarada já acha que é cachaça”, conta Mendonça, que destaca seus melhores amigos naqueles seis anos. “Na rua, nossos melhores amigos são o cachorro, a cachaça e a Bíblia.”

Morte da família – Mas o pior ainda estava por vir. Em um dia do ano 2000, ao passar por uma loja de eletroeletrônicos, assistiu à notícia da morte de toda a sua família em um acidente de carro, no Ceará. “Eu ia passando em frente às Casas Bahia e vi o acidente na televisão. Um caminhão passou por cima do carro e acabou matando os três. Fui até a Câmara dos Vereadores e pedi que me deixassem usar o telefone para saber o que de fato tinha acontecido e fui proibido de entrar porque era morador de rua”, conta o homem.
Mendonça pensou em suicídio, em overdose, em colocar uma bomba na Câmara Municipal para matar todo mundo. Pensou em várias coisas, até que uma mulher o levou para um albergue em Santo Amaro, na zona sul. Ele não se lembra do nome dela, apenas do bem que fez à sua vida. Naquele espaço, à noite, em roda, eles se apresentavam, falavam de suas vidas na rua, do medo e de um possível futuro. “Aquilo foi mudando minha cabeça e pensei: ‘o negócio é usar essa raiva que eu tenho para mudar as coisas’”, conta. E assim começava a revolução.
Em uma minibiblioteca do Brás, no centro, Mendonça conheceu o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Identificou-se com o título. “Se os animais irracionais, como a gente diz, conseguem fazer uma revolução, por que não nós, animais racionais?”.
Em 2005, realizou com alguns companheiros o 1º Seminário da População de Rua. Levou para a Câmara Municipal cerca de 300 pessoas que viviam em situação de rua e convidou a secretária daquela gestão para participar do evento. A resposta que recebeu da assessoria era de que ele deveria primeiro aprender a escrever direito.
Nascia ali, a partir do seminário, sem a presença da então secretária, o Movimento de Pessoas em Situação de Rua, para defender os interesses dessa população e mais, seu interesse pela leitura, em se formar e ter mais acesso aos seus direitos.
Passou, então, a buscar os livros. Ia à Biblioteca Mário de Andrade, uma das maiores da cidade, mas, quando se sentava à mesa de leitura, as pessoas mudavam de lugar, fosse pelo saco preto cheio de latinhas que trazia, fosse pelo malcheiro provocado pelos dias sem banho.
“Eu não tinha como retirar um livro, porque precisava de um comprovante de residência. Comecei a procurar livro na rua. Quando eu achava, lia e passava para outros, e pensei: ‘Vou ter que criar uma biblioteca na qual a pessoa não tem a obrigatoriedade de comprovar nada’”, conta. Assim nasceu o projeto da Bicicloteca.
Com o apoio de um empresário envolvido com o tema da mobilidade, foi construída uma espécie de triciclo com um baú acoplado, com capacidade para 300 volumes. Ali, sem burocracia e necessidade de comprovar residência, qualquer pessoa poderia retirar livros. Os mais procurados por quem faz da rua sua morada são os de ficção científica, psicologia e religião.
Hoje, em seu galpão, com cara de biblioteca e jeito de casa, Mendonça organiza a logística das Biciclotecas que passeiam com os livros pelo centro da cidade. Não as dirige mais, porque a saúde não permite. Depois de 40 anos de cigarro, um de seus pulmões foi acometido por um câncer e hoje, com ajuda de uma bombinha, ele aguarda a oportunidade de um transplante.
“Aqui os garotos tomam conta da Bicicloteca, já que não tenho mais tanta capacidade pulmonar”, conta o pai, como é chamado pelos garotos, alguns ainda sob a tutela do Estado, já que estão internados em unidades da Fundação Casa, e outros que já deixaram a instituição.
Nem por isso, por receber jovens em situação de conflito com a Justiça, é que Mendonça recebe apoio do Estado, ao contrário, afirma que não recebe dinheiro de governo nenhum, municipal, estadual ou federal. “O que eu tive foram vários empresários aqui, alguns enganaram e outros apoiaram”, desabafa. Para Mendonça, existe uma grande maquiagem nas políticas públicas para a população de rua, em todos os níveis de governo.

Filhos da rua – “Não superei a dor de perder a minha família, mas a rua me ensinou a recomeçar. Quando me perguntam quantos filhos eu tenho, digo que tenho 23 mil, porque, se eu sair aqui na rua, os encontrarei pedindo banho, comida, água. Então, esses são os meus filhos”, conta o pai Mendonça, o pai da rua.
Além de promover a leitura junto ao Movimento Estadual da População em Situação de Rua que fundou, Mendonça segue com projetos e eventos que incluam os moradores em situação de rua na comunidade. Encaminha para vagas de emprego, promove encontros com a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar, atividades de música e lazer e tenta resgatar a dignidade de seus tantos filhos, perdida entre uma sarjeta e outra.




Fonte: Edição 956, agosto de 2015
Postado por: Família Cristã




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