A bagagem do outro

Data de publicação: 22/09/2015

Por: Karla Maria

Nem sempre a bagagem é pesada, colocar-se no lugar do outro ajuda a segurar o peso do passado, que em muitos casos pode ensinar a bem viver o presente

“Não aguento mais, acho que vou me divorciar. Sou casada há 11 anos, tenho um filho de 8 anos. Meu casamento é muito conturbado, desde o começo tenho problemas com a ex-mulher e com amigos do tempo dele de solteiro”, desabafa a esposa, que aqui chamaremos de Branca, porque não quer ser identificada.
Ela não está sozinha, afinal são muitos os casais que não conseguem lidar com o passado do cônjuge e chegam a engrossar o número de divórcios no Brasil, que em 2013, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegou a 324.921 – número 4,9% menor que em 2012.
Para carregar essa bagagem, é preciso mais do que força: persistência, diálogo, além, claro, de amor. “Uma boa relação amorosa sugere que o casal saiba como juntar suas bagagens de vida, conseguindo administrar suas histórias anteriores com as atuais e as futuras sem causar sofrimento ou mal-estar no outro que está ao nosso lado”, aconselha a psicóloga Raquel Baldo Vidigal, em seu artigo “Bagagens amorosas”.
É o que a psicoterapeuta Joice Cristini Pereira e seu marido, Diego Francisco Duarte Luiz, analista de suporte pleno, fazem para cultivar o relacionamento. Com 27 e 33 anos, respectivamente, o jovem casal, junto há 12 anos, trabalha para manter a união de modo leve e apaixonado. Não são raras as mensagens de carinho que trocam pelas redes sociais. “Achei que nunca mais seria capaz de amar, e você me mostrou o contrário e me ensinou a me entregar novamente. E hoje amo como jamais amei alguém”, escreveu Joice a seu marido, em sua linha do tempo no Facebook.
Ela tinha medo de se entregar a um relacionamento, causado por um trauma do passado, de um relacionamento mal-sucedido que a fez sofrer por nove anos. Sua bagagem e história de vida amorosa atrapalhavam, até que Diego soube tirar o medo de amar. “No começo não confiava muito na relação, tinha medo de me apaixonar, mas o Diego nunca quis ocupar o lugar de algum outro, ele quis e construiu seu próprio lugar no meu coração. Ele me ensinou a amar sem querer receber algo em troca”, destaca.

Parceiros e amigos – Mas nem sempre foi fácil conviver com a bagagem que cada um trazia. “Foi muito difícil lidar, pois cada um, por ter sido criado de uma forma e por ter vivido experiências diferentes, não entendia o modo como o outro via as coisas, mas com a convivência e com a vontade de sempre permanecer juntos fomos aprendendo a lidar com nossas diferenças de gostos, educação, vivências, opiniões”, conta Joice.
Para Diego, seu relacionamento anterior contribui para ter a certeza do caminho a ser trilhado. “Sendo sincero, eu trouxe de bagagem exatamente a certeza do que eu não queria para minha vida, para o meu futuro, pois só havia vivido relacionamentos vazios”, aponta.
Eles se conheceram em 2000 na Pastoral da Juventude (PJ) da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na região da Brasilândia, capital paulista. Hoje, olham para o passado como escola e pretendem sempre e mais alcançar o dez no presente que vivem com as filhas: a Isabelle, de 10 anos, e a Lara, de 4.
“Passei a pensar mais no coletivo, em realmente construir uma família, a Joice era tudo com o que eu sempre sonhei, uma pessoa encantadora e generosa, foi fácil escolhê-la pra ficar ao meu lado pro resto da minha vida, com ela aprendi a dividir sentimentos, compartilhar emoções, aprendendo cada vez mais sobre a vida, sobre o destino e até sobre mim mesmo.”
Como chegar a isso? Joice sugere uma receita, nada matemática, da arte de carregar a bagagem do cônjuge, mas com muita leveza: pedir perdão. “Nunca vamos dormir sem pedir perdão ou desculpas por  algum mal-entendido. Sempre conversamos sobre tudo, não deixamos nada mal resolvido. Temos uma regrinha simples também... sempre agir pensando se o outro ficará feliz com isso, também fazemos quase tudo junto e nunca esquecemos a importância de pequenos gestos de carinho, como um recadinho na geladeira, uma flor tirada de um jardim, um abraço longo, o toque sempre é muito importante para você se sentir ligado a alguém e, às vezes, as pessoas se esquecem disso”, aconselha Joice.
Para ela, mais do que um casal, os dois são parceiros e amigos. “Gostamos da presença de um e do outro na nossa vida e o principal, mesmo tendo personalidades tão diferentes, é que nos respeitamos e verdadeiramente nos amamos. Não estamos juntos por causa de coisas externas, acreditamos que Deus nos colocou realmente no caminho do outro”, conclui.
O antídoto de angústias, crises de ciúme e insegurança, desconfianças exageradas, cobranças ou comparações, escreve a psicóloga, é lembrar-se de que é da natureza do ser humano ter um passado e que nada é possível fazer em relação a ele, a não ser viver e dialogar sobre o hoje do casal. “Colocar-se no lugar do outro geralmente costuma ajudar e muito a tomar nossas decisões e respeitar quem está conosco. (...) Podendo até tirar proveito e bem-estar de certas histórias. Por que não?”




Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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