Transcendendo o tempo

Data de publicação: 13/10/2015

   
As experiências espiritual e estética podem se oferecer como vias capazes de descolar, ainda que de modo passageiro, de uma vivência mais corriqueira da temporalidade

Crédito: Clovis Salgado Gontijo *   
Arte: Sergio Ricciuto Conte *               

Nosso anseio por uma realidade mais pura e perfeita nos leva ao desejo de superar não só o mundo presente, mas também o tempo pelo qual se constitui nossa história e do qual depende nossa forma de perceber o que nos circunda. Curiosamente, como ocorre em relação à desinstalação do espaço cotidiano, tema já abordado nesta coluna, edição nº 952 da Revista Família Cristã, as experiências espiritual e estética também se oferecem como vias capazes de nos descolar, ainda que de modo passageiro, de uma vivência mais corriqueira da temporalidade.

A superação religiosa  − Em Imagens e Símbolos, o estudioso de religiões comparadas Mircea Eliade chama a atenção para a necessidade, comum a místicos de diversas culturas, de “sair” do tempo. Assim como o iogue, o dominicano medieval Mestre Eckhart exige, para a união com Deus, a abolição de todo o tempo.
Esse desejo, que se expressa na proclamação do fim do tempo pelo anjo apocalíptico (cf.Ap 10,6), justifica-se, em parte, pelo fato de a sucessão temporal estar estreitamente associada com a condição precária das criaturas, sujeita à decadência e à morte. Além disso, como veículo de múltiplas transformações, o tempo parece representar obstáculo para aquele que busca a Unidade. E, por fim, carrega consigo as manchas de um passado, registrado pela memória individual e coletiva.
É interessante notar que o místico, mesmo quando não possui a proposta consciente de superar o tempo, costuma experimentar tal superação ao se aproximar do divino. Talvez o contato mais íntimo com o Outro eterno, anterior ao tempo, automaticamente o coloque numa esfera refratária ao tempo cronológico. Como sugere Angelus Silesius, em O peregrino Querubínico, I, 13, em um de seus aforismos: “Eu mesmo sou eternidade, se abandono o tempo / E se me concentro em Deus e Deus em mim”.
Durante suas experiências místicas, inúmeros contemplativos sentem-se arrancados da temporalidade habitual. São Boaventura relata, na Legenda Maior (X, 2), como São Francisco, atingido pela suavidade divina em plena viagem a lombo de burro, não se dá conta de já ter atravessado uma das vilas do caminho. Isto porque a mente do Poverello, “fixada nos esplendores celestes, não sentira as variedades dos lugares e dos tempos nem das pessoas que acorriam”.
Em concordância com esse episódio, São João da Cruz descreve, em Subida do Monte Carmelo, livro II, cap. XIV, como efeitos da elevação da alma ao divino a total inconsciência quanto às coordenadas temporais e espaciais. Segundo o santo carmelita, “entra a alma às vezes como num profundo esquecimento de tudo, não sabendo onde está, nem o que se passa nela e, até, perde a noção do tempo; pode acontecer (...) ficar muitas horas nesse olvido, e, ao voltar a si, pareça-lhe ter sido apenas um instante, ou mesmo nada”. E esta alteração na percepção do tempo decorre de um silenciamento do aparato sensível, da memória e do entendimento, acompanhado de uma união “em inteligência pura, que não está sujeita ao tempo”.
A suspensão espiritual do tempo presente também se efetua em termos coletivos, por intermédio do rito. Explica Eliade, em O Sagrado e o Profano, que a função religiosa “assinala uma ruptura na duração profana”, assim como a Igreja na qual se realiza “constitui uma ruptura no espaço profano de uma cidade moderna”,.  Em diversas tradições, as festas sacras possibilitam uma “saída” do nosso atual momento subjetivo e histórico, fornecendo acesso a um tempo dotado de maior significado ontológico. É o que se verifica na celebração da Vigília Pascal, em que rememoramos e presentificamos o início dos tempos, assim como as noites constitutivas da nossa história de salvação (Exultet Pascal).

A superação estética − Assim como a experiência religiosa e o estado amoroso, composto pela dilatação temporal na espera e pela suspensão temporal no encontro, a contemplação do belo por vezes nos desprende de certa percepção do tempo. Em contato com o belo, “tão antigo e tão novo”, abstraímo-nos de uma cronologia baseada na sucessão de explicações e na repartição de tarefas. Segundo Schopenhauer, a contemplação pura que caracteriza a experiência estética chega a apagar relações de causa e efeito, detendo, portanto, a “roda do tempo”.
Em sintonia com a suspensão temporal no contexto religioso, o receptor de uma obra de arte “sai” deste tempo ao “entrar” na (a)temporalidade expressa pelo “objeto” experimentado. Desse modo, não é raro que percamos o vínculo com o tempo rotineiro ao mergulhar no tempo constitutivo de expressões como a poesia, a música e o cinema, que, além de reversível, se molda pela estilização da métrica e do ritmo. À semelhança do que constata São João da Cruz em referência à oração, o filósofo alemão Theodor Adorno afirma em O Fiel Correpetidor, que, para o ouvinte, certas obras musicais, como os primeiros movimentos da 5ª e da 7ª Sinfonias de Beethoven, “não duram sete ou quinze minutos, mas – se bem executados – duram apenas um único instante”.
Segundo alguns autores, junto à sua relatividade para a percepção, o tempo poético-musical efetua um corte no tempo encadeado, na medida em que propicia uma revelação. Segundo o poeta mexicano Octavio Paz, em O Arco e a Lira, “o poema traça uma linha que separa da corrente temporal o instante privilegiado: nesse aqui e nesse agora começa algo: um amor, um ato heroico, uma visão da divindade, um momentâneo assombro diante daquela árvore ou diante da testa de Diana, lisa como uma muralha polida”.
Também enfatiza o poeta que o próprio conteúdo do poema, como o do rito, ultrapassa um tempo histórico definido. Longe de ser mero passado, “o que Homero nos conta (...) é uma categoria temporal que flutua, por assim dizer, sobre o tempo” e, graças à declamação, se atualiza numa espécie de eterno presente.
Desperto do tempo flutuante, retomo o tempo cronológico que indica o encerramento desta coluna. Muito haveria ainda a refletir sobre estas fascinantes tramas entre arte e espiritualidade. Caberia apenas registrar, como despedida, o meu desejo de que, como o belo contemplado por Albert Camus (Carnets), a eternidade dos minutos envolvidos ao longo desta pesquisa pudessem se “esticar em toda a extensão do tempo”.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br

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Transcendendo o tempo
As experiências espiritual e estética podem se oferecer como vias capazes de descolar, ainda que de modo passageiro, de uma vivência mais corriqueira da temporalidade
 




Fonte: Edição 958,outubro de 2015
Postado por: Família Cristã




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