A vida não morre

Data de publicação: 28/10/2015

O sentido da celebração do Dia de Finados na perspectiva cristã, a partir da tradição das primeiras comunidades cristãs, e na bíblica

Por: Judinei Vanzeto

A morte é uma realidade assustadora para muitas pessoas, porque pelo uso da razão sabem que vão morrer. O homem, ao contrário de todos os seres vivos, cultiva a fé e possui inúmeros privilégios em relação aos animais, mas também sente a angústia diante da realidade da morte.
Para os cristãos, a vida com Deus começa no ato da concepção e nunca mais termina. Na visão cristã católica, o ser humano é único e eterno. Nisso se entende a comunhão íntima com Deus no ontem, no agora, no amanhã e sempre. A vida eterna, portanto, começa na vida terrena e tem sua plenitude ao passar pela morte num encontro pessoal e profundo com o Senhor da Vida. “Os homens devem morrer uma só vez” (Hb 9,27). Não existe “reencarnação” depois da morte, pois a vida continua numa outra dimensão.
Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC n° 1007): “A morte é o termo da vida terrestre. As nossas vidas são medidas pelo tempo, ao longo do qual passamos por mudanças, envelhecemos e, como acontece com todos os seres vivos da terra, a morte aparece como o fim normal da vida. Este aspecto da morte marca nossas vidas com um caráter de urgência: a lembrança de nossa mortalidade serve também para recordar-nos de que temos um tempo limitado para realizar nossa vida: ‘Lembra-te de teu Criador nos dias de tua mocidade (...) antes que o pó volte à terra donde veio, e o sopro volte a Deus, que o concedeu’” (Ecl 12,1.7).

Dia de Finados − Já no primeiro século da Era Cristã os cristãos rezavam pelos falecidos. Visitavam os túmulos dos mártires nas catacumbas para rezar pelos que morreram sem martírio. Mas, somente a partir do século 4º, há a Memória dos Mortos na celebração eucarística. Do século 5º em diante, a Igreja passou a dedicar um dia por ano para rezar especialmente pelos mortos, sobretudo por aqueles que ninguém reza e lembra.
O Dia de Finados, no entanto, foi introduzido aos poucos na comunidade. No século 10, por exemplo, Santo Odilon (962-1049), abade do mosteiro beneditino de Cluny, na França, determinou aos seus monges que rezassem pelos mortos, conhecidos ou desconhecidos, de todos os lugares e de todos os tempos.
No século 11º, os papas Silvestre II, João XVIII e Leão IX propuseram às comunidades um dia por ano de oração pelos mortos. Mas, somente no século 13, esse dia anual é comemorado em 2 de novembro, logo após a Festa de Todos os Santos, celebrada no dia 1º de novembro.
Na compreensão da Igreja, o Dia de Todos os Santos é a celebração para todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. E o Dia de Finados é a celebração de todos os mortos que morreram e não são lembrados na oração cotidiana. A tradição de rezar pelos mortos, no dia 2 de novembro, chegou ao Brasil pelos portugueses. Em Portugal era costume neste dia visitar as igrejas e cemitérios, bem como enfeitar os túmulos com flores e acender velas.
Segundo padre Maicon Malacarne, da Diocese de Erexim (RS), acender velas “está ligado a questões humano-divina, somos limitados e vamos nos apagando, e as velas fazem referência a esse sentido de finitude, que com a chama encontra o divino. Um dos fundamentos bíblicos é a afirmação de Jesus ‘Eu sou a luz’, que nos leva a fazer essa experiência de fé”.


Tradição bíblica −
A prática da oração pelos defuntos se apoia no livro de Macabeus, que afirma: “Eis porque ele (Judas Macabeu) mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos de seu pecado” (2Mc 12,46).
Judas Macabeu é elogiado por oferecer sacrifício pelos mortos em vista da ressurreição, pois sua ação significa apenas três coisas: primeiro, o autor acreditava na ressurreição; segundo, que os mortos podem receber o perdão dos pecados; e terceiro, é possível pela intercessão dos vivos.
Também, se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai, por que duvidar de que nossas oferendas em favor dos mortos lhes levem alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer nossas orações por eles (cf. Jó 1,5).
Desde os primeiros séculos, a Igreja honra a memória dos defuntos e oferece sufrágios em seu favor, em especial, o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, eles possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda oferecer esmolas, indulgências e obras de penitência em favor dos falecidos.
A celebração eucarística oferecida pelos fiéis defuntos faz memória dos que morreram em Cristo e não estão ainda plenamente purificados. A “Eucaristia é também oferecida em reparação dos pecados dos vivos e dos defuntos, e para obter de Deus benefícios espirituais ou temporais” (CIC nº 1414).
Já no livro de Hebreus capítulo 9, versículo 27, se lê que após a morte se segue o juízo final. E, na parábola do homem rico e o pobre Lázaro, em Lucas capítulo 16, versículos 19 a 31, se percebe a situação daquele que morreu. Nestas duas citações, podem ser extraídos quatro ensinamentos:
1) Que há consciência e vida após a morte;
2) Existem sofrimento e bem-estar;
3) Não existe comunicação de mortos com os vivos;
4) A situação dos mortos não permite mudança. Cada qual ficará no lugar da sua escolha em vida. Os que morrem no Senhor gozarão de felicidade eterna (cf. Ap 14,13) e os que escolheram viver fora do propósito de Deus, que escolheram o caminho largo (cf. Mt 7,13-14), irão para seu devido lugar.

Comunhão, união e amor −
Com a saudação final, no cemitério, daquele que preside a celebração de despedida, reza: “Canta-se por causa de sua partida desta vida e por causa de sua separação, mas também porque há uma comunhão e uma reunião. Com efeito, ainda que mortos, não estamos separados uns dos outros, pois todos percorremos o mesmo caminho e nos reencontraremos no mesmo lugar. Jamais estaremos separados, pois vivemos por Cristo, e agora estamos unidos a Cristo, indo em sua direção, e estaremos todos reunidos em Cristo” (CIC nº 1690).
No entardecer de nossa vida, seremos julgados sobre o amor. Por muito tempo se pensou sobre os acontecimentos últimos da vida a partir da compreensão temporal, mas para Deus o tempo é diferente. No momento da morte, a pessoa sai da dimensão de espaço e de tempo. Ela entra numa nova dimensão que é desconhecida até então.
Para Deus a realidade é o agora, sempre presente. Quando a pessoa morre, o tempo para e ela fica desligada do momento temporal. Após a morte, a pessoa se encontra com Deus simultaneamente de uma maneira que o tempo não faz mais parte. Este encontro com Deus é muito profundo, pois se dá entre duas pessoas: humana e Divina. É o encontro da Pessoa com a pessoa humana numa dimensão totalmente atemporal, o ser humano se reúne com Deus na Pessoa de Jesus Cristo. Este encontro pessoal é marcado pelo amor. A pessoa humana será acolhida por um amor, para o qual não tinha imaginado.
Diante da ternura do amor de Deus, a pessoa irá descobrir aquilo que sempre buscou em sua vida e não sabia: o amor, ou melhor, o amor de sua vida (Deus é amor). Será, então, envolvida por Ele e verá perante si mesma toda a sua vida vivida conforme os parâmetros de Deus e sua correspondência.
A pessoa, ao ver sua vida vivida em comparação aos parâmetros de Deus, se julgará a si mesma. Deus não julga ninguém, mas ama e quer a salvação de todos, bem como a conversão à prática do amor verdadeiro. Este julgamento não deve ser compreendido como o primeiro ato de uma série de acontecimentos, é mais do que isso, ou seja, é uma das muitas dimensões do encontro com Deus.
A pessoa em vida tem plena consciência do verdadeiro valor de sua vida vivida. Também é capaz de tomar decisões através dos olhos de Deus e se julgar a si mesma a partir dos critérios evangélicos. Dessa mesma forma se pode entender o encontro pessoal com Deus após a morte.
Em vida e a cada momento a pessoa pode se confrontar com a Palavra de Deus e se julgar continuamente conforme o projeto divino. Segundo o evangelista João, “o Pai não julga ninguém, mas deu ao Filho o poder de julgar” (Jo 5,22), mas também o Filho não julga, porque ele não veio a este mundo para julgar, mas para salvar (cf. Jo 3,17). Assim, a Palavra de Deus, pela ação atualizadora do Espírito Santo, é que chama a pessoa à conversão e envia em missão.
O apóstolo Paulo se pergunta sobre o que seria melhor: morrer ou continuar a viver, pois, segundo seu sentimento, o que acontecer é lucro. “Entretanto, se o viver na carne ainda me permitir um trabalho frutuoso, não sei o que escolher. Estou como que na alternativa. Pois de um lado desejo partir para estar com Cristo, o que é muito melhor. Por outro, quisera permanecer na carne, o que é mais necessário para vós. E por ter esta convicção, sei que hei de ficar e permanecer convosco para vosso proveito e alegria na fé. Assim podeis congratular-vos tanto mais em Cristo Jesus por minha causa, quando estiver novamente em vosso meio” (Fl 1, 2-26).
Quando o homem é atingido pela luz divina, o Verbo enviado do Pai, toda a sua vida aparece tal qual é, sem disfarce e camuflagem. Se alguém acolhe a luz, isto é, crê no Filho de Deus, é transformado, recebe o poder de se tornar filho também (cf. Jo 1,12).
Portanto, não precisa temer a morte, porque é com a luz de Deus que o homem se encontra com ela. Os “sim” e “não” dados a Cristo ao longo da vida vivida vai fazer a diferença neste momento. Também as pessoas que, independentemente de suas fragilidades, disseram sim ao projeto de Deus no exercício do amor, do perdão e do serviço discreto já começam aqui e agora a viver a bonita experiência do encontro definitivo com o Senhor da Vida e um dia na plenitude eterna. Entendendo dessa maneira a realidade da morte, o Dia de Finados passa a ser uma celebração da vida e de gratidão por aqueles que foram primeiro e estão em comunhão na glória celeste com todos os batizados.







Fonte: Edição 9598,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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