A surdez nada muda

Data de publicação: 03/11/2015

Estudante de Design e superativa, uma jovem com deficiência auditiva fala de seu dia a dia nada silencioso

Por Karla Maria

Aos quatro meses de idade, Thalita Barros Leite foi diagnosticada com meningite meningocócica e uma lesão neurológica lhe causou perda de audição e dificuldade para falar. Um problema mais comum do que se pensa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 9,7 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva. Cerca de 1 milhão são crianças e jovens até 19 anos e 6,7 milhões vivem em áreas urbanas. Thalita, no caso, tem 21 anos, deficiência severa e mora em Niterói (RJ). Sem aparelho auditivo, percebe sons a partir de 90 decibéis como o emitido por um tráfego pesado de automóveis. Já com aparelho ouve som de 30 decibéis, equivalente ao de uma voz humana. A título de comparação, uma pessoa com audição normal escuta sons de até cinco decibéis (música suave em baixo volume) enquanto alguém com perda moderada escuta algo a partir de 40 decibéis (pingos de chuva), o que faz perder importantes informações sonoras emitidas abaixo dessa medição.
Como pode uma menina com deficiência auditiva interagir plenamente com um mundo tão barulhento? Ela própria pode responder. “Fui orientada por uma fonoaudióloga até meus 16 anos e, com ajuda de amigos e da família, ninguém percebe minha surdez. Falo sem dificuldade”, conta. Obviamente, ela lê os lábios do interlocutor por mais rápidos que estes sejam. “Perdi a conta de quantos amigos meus já aprenderam comigo a técnica de estimulação da leitura labial”, completa.

Senso comum – O fonoaudiólogo e mestre em Linguística Aplicada, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo (SP), Marcus Vinicius Nascimento, explica o equívoco do senso comum de que todo surdo é mudo.  “Se não acometidas por alterações psíquicas e ou orgânicas que interfiram em suas pregas vocais, pessoas surdas podem produzir sonorização vocal. Ainda que se comuniquem pela língua de sinais e não saibam falar, elas apresentam vocalizações ao sinalizar e usam a voz quando estão em perigo. Além disso, podem desenvolver a linguagem oral por meio de um processo terapêutico fonoaudiológico.”
Além de desmistificar um senso comum errôneo, Thalita revela curiosidades da vida de uma jovem portadora de deficiência auditiva que, com o uso de aparelhos, segue quase normal. “Eu gosto muito de ouvir músicas e cantá-las. Não posso imaginar minha vida sem música. Faço cursos de karatê, inglês e tento aprender japonês sozinha”, conta a estudante de Design. Thalita ainda adora assistir a filmes desde que, claro, sejam legendados. Para ela, filme dublado é difícil de compreender. Em relação ao teatro, prefere os musicais. Gosta de livros, revistas e desenhar, além de cuidar dos seus cachorros, de um porquinho-da-índia e de um hamster.

Quem decide? – O uso do aparelho exigiu adaptações da jovem e de sua família. Para dormir, tomar banho e mergulhar, ela precisa de cuidado. “Para mergulhar, sinto que a água amplia os sons e escuto algumas coisas. De manhã cedo, alguém me acorda ou uso travesseiro despertador. Às vezes, quem me acorda é minha cachorrinha”, diz, referindo-se a uma pequena poodle de latido agudo. No dia a dia, momentos engraçados também acontecem. “A pergunta mais comum quando pego táxi é se eu sou estrangeira. Dizem que eu falo engraçado!”. Então Thalita explica que é deficiente auditiva e que a trava na língua se deve a um corte na língua proveniente de uma queda, quando era criança.
Mas nem sempre as situações foram contornáveis com um sorriso. Tanto que sua mãe, a pediatra Teresa Leite, escreveu o livro Quem Decide? Os Caminhos e Escolhas na Vida de Uma Criança Surda para contar a dificuldade que enfrentou para matricular a filha em uma escola regular. “Os surdos, profissionais que trabalhavam com surdez e muitos pais não entendiam por que eu queria Thalita em uma escola regular para falar e se comunicar com um mundo ouvinte. Chegaram a dizer que eu queria ser diferente”, conta a médica ao jornalista Luiz Alexandre Souza Ventura, por ocasião do lançamento do livro. Para Teresa, a escola brasileira ainda não está preparada para a inclusão. “Os caminhos não estão postos para todas as crianças, e os surdos se fecham em comunidades, dificultando a troca de experiências e a possibilidade real de integração”, afirma.
Thalita sentiu a discriminação nos olhares. “Sofremos preconceito não vindo das pessoas que escutam e falam, mas de outros surdos que falam a língua dos sinais, não usam aparelho e dos seus professores. Eles sempre discordam de quem usa aparelho e trabalha com estimulação da leitura labial. É uma luta”, desabafa. Nem por isso, no entanto, a jovem deixa de escutar o que deve e falar o que precisa.




Fonte: Edição 953,maio 2015
Postado por: Família Cristã




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