“Valei-me, meu santo!”

Data de publicação: 09/11/2015

A Brasil ganha seu segundo beato, que já fora escravo, o primeiro sacerdote negro do País, o mineiro padre Victor

Por: Karla Maria
A professora Maria Isabel Figueiredo, 36 anos, recebeu um milagre e convive com ele há quatro anos: sua filha Sofia, uma menina bonita, saudável e falante. Ela veio ao mundo graças à fé da mãe no padre brasileiro, o venerável servo de Deus Francisco de Paula Victor. Ela mesma conta, pelo telefone e com o bom sotaque mineiro, lá de Três Pontas, na região sul do estado.
“Descobri que tinha dificuldades para engravidar, então logo comecei os tratamentos, foram sem sucesso. Até que no último eu descobri que tinha uma trompa obstruída.” Maria fez tratamento de ovulação, que evoluiu para uma gravidez tubária. Passou por cirurgias e perdeu sua trompa saudável. “Minha médica nos comunicou que não seria mais possível uma gravidez, porque eu tinha apenas uma trompa e obstruída, então eu teria de fazer um tratamento de fertilização in vitro − que é mais complicado − ou esperar por um milagre”, lembra a mineira.
Maria esperou, e o milagre aconteceu. Recém-chegada da maternidade, após dar à luz sua segunda filha, Alice, Maria diz com orgulho que a menina que agora carrega nos braços, com 3.610 quilos e 50 centímetros, é a comprovação do milagre alcançado pela intercessão do padre mineiro.
Padre Victor era filho de Lourença Maria de Jesus e ambos eram escravos, na propriedade de dona Marianna Barbara Ferreiro, quem o ajudou a enfrentar preconceitos, humilhações e a se tornar em 14 de junho de 1851 o primeiro padre negro do Brasil. Permaneceu em Três Pontas por 52 anos, como pastor do povo. Era conhecido por visitar doentes, amparar os inválidos e atender a população em suas necessidades.
Convencido de que a cultura, aliada à fé, poderia fazer emergir uma nova sociedade, fundou o Colégio Sagrada Família, que tinha o objetivo de iniciar nos estudos pobres e ricos, brancos e negros.
E assim, como que continuando o ofício que tinha quando ainda era jovem, padre Victor passou a alinhavar a vida de seu povo, com exemplos de caridade, de fé, de superação, concedendo graças e alegrias. Foi assim com Maria, que, desde pequena e levada pelas mãos de dona Teresa Jesus de Figueiredo, 69 anos, sua mãe, passou a rezar ao padre Victor.
“Desde criança, minha mãe sempre rezou para ele e sempre falou para a gente da fé que tínhamos de ter. Quando eu tinha 12 anos tive uma meningite muito forte e cheguei a entrar em coma. Minha mãe atribui minha vida a ele também, não fiquei com nenhuma sequela”, conta Maria, que passou a fazer a novena.
Já adulta, a professora casou-se com José Maurício Silvério, 37 anos. Estão juntos há oito, e desde o enlace o casal tentava engravidar. Com o fracasso dos tratamentos médicos, Maria recorreu ao padre Victor. “Nós sofremos muito com essa notícia e foi então que eu fiz a novena. Com muita fé, pedi ao padre Victor que eu fosse mãe. Se eu não pudesse engravidar e ter um filho da minha barriga, que ele me desse então um filho do coração, porque eu queria ser chamada de mãe. Ter uma família completa”, conta a mineira.


O milagre − Era 2009 e, como reza a tradição, Maria escreveu o pedido durante a novena, queimou o papelzinho com as letras banhadas de lágrimas e confiou. “Escrevi com muita fé aquele pedido e, na hora que o padre falou na missa que aquela fumaça seria levada ao céu, e que o padre Victor ia interceder a Deus, eu acreditei que seria atendida”, revela.
E deu certo. “Em 2010, para minha surpresa, comecei a ter os sintomas da gravidez. Minha mãe falou: ‘estou achando que você está grávida’. Eu falei: ‘não posso engravidar, mas vou fazer exame’. E fiz. O exame deu positivo”, diz emocionada.
Maria ligou para sua médica, que logo – desconfiando do tal milagre – lhe pediu calma e orientou a fazer o ultrassom. “Ela falou: ‘calma, Maria Isabel, vamos aguardar, fazer o ultrassom para confirmar, porque isso pode ser uma alteração. Não tem como você engravidar. Eu já tinha te falado que a gravidez não aconteceria’. Aí eu aguardei, isso foi em um sábado. Na segunda eu fui e, quando fiz o ultrassom, o bebezinho já estava lá, o coraçãozinho batendo. Nós o vimos dentro do útero. Foi uma emoção muito grande”, descreve a mãe.
E assim, com a imagem do filho na memória, rumou para a igreja para agradecer ao padre Victor. Pediu que ele abençoasse a gravidez e que ela fosse bem até o final. “Pedi que nossa filha nascesse com saúde, perfeita”, revela a mãe, e o pedido foi atendido.

O milagre foi reconhecido pelo papa Francisco em junho deste ano e só foi possível porque a família decidiu testemunhar e ajudar a provar a existência da graça. Maria e José juntaram todos os exames, escreveram um relato de como foi feito o pedido e alcançada a graça, e levaram até o Memorial Padre Victor, hoje localizado na Praça Cônego Victor, no centro de Três Pontas. Ali estão preservados objetos que pertenceram ao padre e contam melhor a história do Anjo Tutelar, como carinhosamente é chamado.
“Assim que a minha menina (Sofia) nasceu, o Vaticano pediu que os exames fossem feitos, e nós fizemos e todo o processo foi correndo”, conta o pai, lembrando-se da espécie de tribunal pelo qual ele, familiares e médicos passaram. “Até que veio a notícia de que o milagre que foi reconhecido para a beatificação dele foi a minha gravidez. Foi uma emoção muito grande, claro que a gente já acreditava que tinha recebido um milagre, para a gente já era milagre, como para a gente ele já é santo”, desabafa a mãe.
“Todo o processo relativo ao venerável Victor se encaixa inteiramente no Código Canônico de uma causa de beatificação e canonização . Uma vez que foi apresentado em suposto milagre, foi estudado e avaliado da mesma forma que todos os outros. No final, não teve qualquer dificuldade particular, e assim foi aprovado sem nenhum problema”, afirma em entrevista exclusiva o postulador das Causas dos Santos, Paolo Vilotta.
O milagre não pôde ser detalhado pela Santa Sé. “Conforme exige a prática canônica, não é possível entrar em detalhes sobre os casos”, completa Vilotta. O que não diminui em nada a fé do povo, que já o considera santo.
“Por aqui é muito comum ouvir as pessoas dizerem: ‘valei-me, meu santo padre Victor’”, revela dom frei Diamantino Prata de Carvalho, bispo de Campanha (MG). Ele desde 1998 acompanha o processo de beatificação do venerável padre Victor e está feliz com a legitimação pela Igreja da fé do povo no padre Victor, elevando-o aos altares como beato, ao lado da também mineira e negra Nhá-Chica, de Baependi, também no sul de Minas, beatificada em maio de 2013.
“Eu lutei por essas causas. Quando cheguei acompanhei a exumação de ambos. São coincidências bonitas. Os processos correram bem e chegamos a este importante momento”, confidencia dom Diamantino.
A escolha da data da beatificação, 14 de novembro, não foi por acaso. “Escolhi esta data. Eu sou português e os portugueses escravizaram os negros. É um sinal de que se houve tanta celeuma, exploração, violação, então eu quero agora – com a beatificação – resgatar aquilo que foi feito, para que nós possamos conviver em maior fraternidade e caridade entre as raças e povos diferentes”, pontua o bispo.

De geração em geração - “Vamos deixar para a Sofia levar essa devoção junto dela também. Às vezes fico sem palavras para descrever o quanto foi importante para nós o venerável padre Victor, que intercedeu junto a Deus para que eu fosse pai, a Isabel mãe, e está mantendo nossa família assim alegre e crescendo com a chegada da Alice”, desabafa o pai. A família participará da beatificação do padre Victor dia 14 de novembro, em Três Pontas.






Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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