Esperar Deus

Data de publicação: 16/11/2015

O Advento é o momento da espera do grande mistério de Deus feito humano, e a preparação, uma  etapa importante dessa alegria

Por: Nathan Xavier

O Ano-Novo aproxima-se trazendo aquele sentimento de fim de um ciclo para a chegada de um novo. Mas para a Igreja esse novo ciclo começa um pouquinho antes, na verdade, quase um mês antes. O Advento marca o início do Ano Litúrgico para o catolicismo e é o tempo de espera para a alegria do Natal. A palavra vem do latim adventus, que significa “chegada”, momento de preparação e de expectativa, mas também de arrependimento e perdão que favorece a paz e a fraternidade entre todos. E não é para menos, pois, com exceção da Páscoa, maior festa cristã, o Natal é o grande e surpreendente mistério em que Deus, em sua infinita grandeza, se torna uma pequena criança humana, numa lição de humildade sem precedentes.
A primeira referência ao Advento é encontrada na Península Ibérica (atual Espanha e Portugal), em 380, no 1º Concílio de Saragoça (Espanha), que orientou a preparação de três semanas para a Epifania do Senhor, data em que, antigamente, se celebrava o nascimento e apresentação de Jesus aos Reis Magos. Hoje essa Epifania é celebrada em 6 de janeiro, desvinculada do nascimento de Cristo. Em Roma, um antigo livro contendo orações da missa, chamado Sacramentário Gelasiano, do século 5º, cita o Advento. Já naquele tempo, em todas essas regiões, tinha um caráter penitencial com jejum e abstinência, como uma preparação espiritual para a Epifania. Outras denominações cristãs também celebram o Advento, como a Anglicana, Luterana, Metodista, Batista, entre outras. A Igreja Ortodoxa tem um período de 40 dias de jejum como preparação para o Natal.
Independentemente de data e Igreja, desde muito tempo os bispos e papas incentivam a prática dessa preparação. Vendo por um prisma moderno, em que as atribulações de fim do ano tomam todo o tempo e parecem tornar os meses de novembro e dezembro mais curtos, essa preparação vem muito a calhar. “O período do Advento é como um oásis no meio do deserto”, afirma José Carlos Pereira, padre passionista, teólogo pastoralista e doutor em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “É uma forma de não chegarmos estressados ao Natal. Essa parada, esse olhar instrospectivo, nos ajudará até a lidarmos melhor com todo o emaranhado de coisas que acumulam no fim do ano e ocasionam tal estresse. Se aproveitarmos a preparação do Natal e o próprio Natal, chegaremos ao fim do ano de uma forma mais equilibrada para recomeçarmos abastecidos espiritualmente e com paz no coração”, ressalta o padre.

Ano-Novo Litúrgico - Sobre esse início de ciclo, padre José Carlos ressalta que “a liturgia tem uma sabedoria muito profunda e é harmônica. Ela é como que passos de toda a história da salvação. A sequência do tempo litúrgico acompanha isso e, se seguirmos isso, entendemos essa história”. E lamenta que as pessoas, em geral, não prestem muita atenção a essa marcação de tempo da Igreja: “É uma pena as pessoas não terem atenção a isso. O Advento faz parte desses passos, é o início do tempo litúrgico”. Sobre tal período, aliás, o teólogo destaca o uso das cores e símbolos, que enriquecem a liturgia e ajudam a entrarmos no espírito desse tempo: “A cor roxa lembra a penitência, momento de preparação e vigilância, que ambos os tempos litúrgicos, da Páscoa e do Advento, têm. Mas com uma diferenciação: no último domingo, antes do Natal, temos a cor rosa, que simboliza a aproximação da alegria do nascimento de Cristo”.
E, para auxiliar nessa preparação para a segunda mais importante data do cristianismo, padre José Carlos escreveu o livro Natal com Maria, de Paulinas Editora, em que sugere quatro roteiros de meditação para comunidades, grupos de oração e toda pessoa que quiser se preparar melhor para o Natal. A ideia é que cada roteiro seja realizado nas quatro semanas que antecedem a data e que correspondem ao Advento. Como diferencial, o livro ainda traz mais um roteiro para o tempo do Natal e mais um para reflexão individual: “O individual é um roteiro bem interessante que ajuda na meditação sobre o Advento, caso a pessoa queira se aprofundar mais ou não possa participar de uma novena comunitária”. Além dos roteiros de reflexão e meditação que seguem o método de leitura orante da Bíblia, utilizado há séculos pela Igreja, Natal com Maria explica os símbolos do Natal, objetos desse período e curiosidades que favorecem a vivência natalina: “É uma riqueza de símbolos muito grande e, quanto mais as pessoas conhecem, melhor celebram o Natal. De muitos deles o comércio, infelizmente, se apropriou, mas eu procurei resgatar a origem cristã desses símbolos”.
A forma simples, prática e bem didática torna o livro fácil de ler e ser aplicado em qualquer ambiente. “Este livro partiu primeiro de uma experiência prática para depois ser escrito. Isso tem vantagens, pois ele se tornou mais dinâmico, enriquecido com a experiência prática que o precedeu.” Quanto ao título, padre José Carlos explica: “Depois de Jesus, Maria é figura central. Ela faz parte de uma forma muito especial da história da salvação. Maria grávida, à espera de Cristo, nos ensina como nos comportar neste tempo, e o Advento, de certo modo, é esse período de gestação para o Natal”.



Com Maria a mãe do Senhor

Por
José Carlo Pereira*

Estamos em pleno tempo de preparação para o Natal. Tempo de espera e de esperança, e Maria nos ensina a esperar com esperança, uma espera ativa, de quem confia plenamente em Deus. Vemos em Maria que ela se coloca à disposição de Deus e aguarda que nela seja feita a vontade dele. Dá-nos um exemplo de como deixar-nos guiar por ele. Com o seu sim dado ao anjo, Maria redime a humanidade do pecado, como sugere o livro de Gênesis (Gn 3,9-15.20).
O Evangelho de Lucas (Lc 1,26-38) apresenta o anjo Gabriel, enviado por Deus para anunciar a uma virgem prometida em casamento que ela seria mãe de seu Filho. Embora isso seja motivo de grande alegria, é também algo assustador, e não é de estranhar a confusão e o medo sentidos por Maria. Ainda mais nas circunstâncias em que vivia (mulher, adolescente, virgem, prometida em casamento etc.).
O primeiro anúncio do anjo é um pedido para que ela se alegre. Com este anúncio e pedido, Deus quer não apenas a alegria de Maria, mas de todos os seus filhos e filhas, por isso o tempo de preparação para o Natal, com Maria, é um tempo de alegria.
Ele quer a alegria da humanidade, ou da nova humanidade, representada na pessoa de Maria. Assim, somos convidados neste tempo alegre a perceber quais são os motivos para que Deus, através dos seus inúmeros anjos (pessoas, situações etc.), continue pedindo que nos alegremos. Que motivos temos para nos alegrar? Cada um pode fazer um levantamento e apontar, na sua vida, esses inúmeros motivos. Esse levantamento e partilha poderão ser feitos nas celebrações propostas neste subsídio.
Podem ter certeza de que, se fizermos isso, vamos descobrir muitas razões para nos alegrarmos. Teremos muito mais motivo para nos alegrar do que para temer. Vamos descobrir que, semelhante à situação de Maria, em um sentido figurado deste tempo de preparação para o Natal, Deus está conosco. O anjo disse para Maria se alegrar porque Deus estava com ela.
Se Deus está com Maria, mulher, humana, que é representante da humanidade, ele também está conosco. Tanto é que Jesus é o Emanuel, O Deus conosco, como o apresenta o evangelista Mateus. Temos, portanto, um grande motivo de alegria: ele está conosco. E se ele está conosco, tudo é possível.
Com o anúncio, Maria ficou perturbada. Quais são as nossas perturbações, hoje? Elas têm fundamento, ou nós nos perturbamos por qualquer coisa? Mesmo que haja motivos para perturbações em nossa vida, logo se dissiparão se confiarmos plenamente que Deus está conosco. As perturbações servem para questionarmos, refletirmos sobre determinada situação e procurarmos uma solução, uma resposta. Foi o que Maria fez. Ela indagou, questionou o anjo, e a resposta que ouviu foi: "Não tenhas medo". O novo, as mudanças, os acontecimentos da nossa vida não nos devem amedrontar.
Precisamos enxergar em cada situação, por mais surpreendente que seja, a graça de Deus. A explicação do anjo não é totalmente compreendida por Maria, mas ela sente no coração que é a vontade de Deus e isso lhe basta. Quando conseguimos perceber a vontade de Deus na nossa vida, nada nos amedronta ou nos detém. Maria percebeu isso e se colocou à disposição de Deus, dando a ele seu sim. É uma entrega total. A partir daquele momento, não era mais a vontade dela que contava, mas a de Deus. Dizemos isso todos os dias, quando rezamos a oração do Pai-Nosso (“Seja feita a vossa vontade ...” ), mas temos ainda muita dificuldade em permitir que a vontade de Deus seja feita em nossa vida.
Assim, este tempo de preparação para o Natal nos ensina, a exemplo de Maria, a dizer sempre sim a Deus e a sermos coerentes com ele, assim como ela. Ensina-nos a fazer de nossa vida uma entrega total a Deus. Que este tempo que estamos vivendo deixe em nossa vida esse e outros bons ensinamentos, tendo Maria como mestra e guia.

Do livro Natal com Maria: reflexões e roteiros para celebrar o Natal de Jesus – Editora Paulinas





Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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