À sorte da pele

Data de publicação: 18/11/2015

   Entre jovens negros, a taxa de homicídios com idade de 15 a 29 anos, é 155% maior do que a de jovens brancos

Por: Karla Maria
Fotos: Felipe Larozza

A cor da pele pode ser motivo de morte no Brasil e aumenta as probabilidades de uma pessoa ser assassinada. Segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial, 2014, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a taxa de homicídio entre jovens negros é 155% maior do que a de jovens brancos. 
O mesmo estudo mostra que em todos os estados brasileiros, com exceção do Paraná, os negros com idade de 15 a 29 anos correm mais risco de exposição à violência de que os brancos na mesma faixa etária. O risco de uma pessoa negra ser assassinada no Brasil é, em média, 2,5 vezes maior que uma pessoa branca.
No estado da Paraíba, por exemplo, a probabilidade de um jovem negro ser vítima de homicídio é 13 vezes maior do que um jovem branco. Em Pernambuco, o risco relativo é de 11,565, e em Alagoas é de 8,748.
Os números são frios, como as calçadas das periferias que recebem os corpos de jovens ali anônimos. Na sua maioria são pobres, assassinados pelo tráfico ou pela polícia e que não ganham destaque na mídia nacional.
“Ao passo que conquistamos direitos, convivemos ainda com o racismo institucional, que tem sua materialidade mais abrupta na ação policial, o que denominamos Genocídio do Povo Negro, um projeto antigo do racismo que impera em todo o mundo”, afirma Bruna Rocha, 25 anos, jovem, negra, militante do Coletivo Enegrecer, para quem as mortes não são por acaso.
Foi assim com Eduardo de Jesus Ferreira, morto antes mesmo da adolescência, aos 10 anos, em abril deste ano, na porta da casa onde morava no Morro do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). “Eu sei que policiais do bem não entram encapuzados na favela. Estes, que entram encapuzados, são os que atiram primeiro para depois perguntar. São verdadeiros bandidos armados”, desabafa a mãe de Eduardo, dona Terezinha de Jesus Ferreira, durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Assassinato de Jovens no Brasil, realizada em Brasília (DF).

Mortes, não por acaso – A pesquisa feita em parceria com a Unesco e o Fórum de Segurança conclui a associação de variáveis socioeconômicas e demográficas na determinação das condições de vida da população jovem negra no País. A contextualização dos indicadores revela a necessidade de conectar tais análises à forma como o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem respondido a essa realidade, como tem possibilitado, por exemplo, o acesso da juventude à cultura, ao lazer e à educação.
É o que defende Bruna, como saída para a violência contra a juventude negra. Violência que não surge apenas da bala de uma arma, mas que brota do preconceito já institucionalizado no Brasil. “Defendemos todas as políticas de reparação racial que forem possíveis, entendendo que o povo negro precisa ser verdadeiramente indenizado pelos anos de escravidão por que passamos”, aponta a jovem militante do Coletivo Enegrecer.
Entre as propostas do Coletivo está também a democratização dos meios de comunicação. “Precisamos desconstruir o imaginário racista formado pelos grandes oligopólios da comunicação que continuam nos estereotipando e não nos dando visibilidade”, denuncia Bruna, que não está sozinha.
“Quer dizer que uma mulher negra tem de ser sempre faxineira, pobre, favelada, e que além disso só usa roupas insinuantes? Qual o problema em uma negra fazer um papel na TV de uma mulher bem-sucedida, rica, estudante? Realmente a TV Globo fala de preconceito, mas é a primeira a expor esses tipos de estereótipos”, reclama a gaúcha Ariana Santos, 27 anos, da cidade de Alvorada.

Avanços e contradições - O Coletivo avalia que a juventude negra no Brasil contemporâneo vive profundas contradições. Por um lado, desfruta de direitos conquistados que gerações anteriores não tiveram, como o acesso a universidades públicas e a bens de consumo, desdobramentos das políticas de transferência de renda dos últimos governos que não acabaram com as assimetrias de classe e raça, mas iniciaram um processo de democratização de alguns espaços, gerando novas condições de vida e sociabilidade para a atual geração.
Bruna e o Movimento em que milita também defendem a “efetivação da Lei 10.639 e uma reformulação radical nos currículos escolares e universitários, na perspectiva da ‘descolonização do conhecimento’”.
A lei a que se referem torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, e embora tenha sido promulgada em 2003, ainda não foi aplicada em sua integralidade. A historiadora Carla Carvalho, 33 anos, explica o motivo.
“Penso que evoluímos muito. Caminhamos bastante no que diz respeito à inclusão da história do povo negro nas escolas, mas isto muito mais por iniciativas de professores, porque de modo geral as escolas públicas estão carentes do mínimo, de estrutura física em seus prédios, do básico. Então fica mais difícil avançar em debates como este”, denuncia a historiadora, que foi compelida por seus alunos a também assumir sua identidade estética negra.

Violência estética – Ao longo de toda sua adolescência e juventude, Carla usou os cabelos alisados. Em suas aulas falava sobre o Movimento Negro e a identidade do povo, até que um dia foi questionada pelos alunos do motivo de alisar seus cabelos. Decidiu ali também assumir esteticamente sua identidade.
“É difícil para a adolescente assumir seu cabelo crespo, porque ela olha para a TV e não se identifica com ninguém. Foi um processo e hoje estou feliz, me sinto bonita, naturalmente bonita”, explica a professora, que, para ajudar outras mulheres a se identificarem com seus fios, abriu uma loja com produtos voltados especificamente para cabelos crespos.
“Esta loja também é um espaço de aceitação e valorização do cabelo natural, por isso assim é chamada. Cabelos naturais demandam cuidados maiores e produtos diferenciados”, conta a historiadora e proprietária do Meu Cabelo Natural.
Bruna, que mantém seu cabelo afro digno de capa de revista, vê com bons olhos o momento que as mulheres negras passam ao assumir as madeixas tais como são. “Milhares de jovens, sobretudo mulheres, têm recuperado sua autoestima a partir de seus cabelos crespos e da aceitação e afirmação de sua cultura afrodescendente. Tal ‘empoderamento’ não é superficial e tem tornado estes sujeitos verdadeiros catalisadores da luta racial no Brasil de hoje”, conta a jovem, que conclui.
“Nós no Enegrecer curamos as nossas feridas, nossa dor pelas mortes diárias de irmãos e irmãs, com a esperança revigorada que estes novos movimentos têm nos trazido.”




Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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