Acertar os ponteiros

Data de publicação: 07/12/2015

Homens e mulheres não são só corpos, mas também formas de pensar

Impossível negar: os conflitos de gênero são tão antigos quanto os próprios gêneros, e só não acontecem em casais que já não mais se falam e muito menos se relacionam. Talvez, com os viúvos. Aliás, esses conflitos não estão restritos sequer aos casais e podem acontecer a todo o momento e em quaisquer espaços e relações da vida privada e pública: entre mães e filhos, pais e filhas, irmãos e irmãs e mesmo entre homens e mulheres desvinculados de laços afetivos, seja no trabalho, na escola, nas ruas etc. Entre marido e mulher, ou mulher e marido – porque nesse caso a ordem pode alterar muito os fatores –, é apenas uma das instâncias e, não por acaso, das mais sensíveis onde ocorrem. Porque se há algo que os uniu – além do amor, supõem-se – foi a diferença entre os gêneros. Ou as diferenças, pois o que distingue homens de mulheres vai além dos dimorfismos sexuais, termo que os biólogos empregam para explicar as diferenças físicas entre machos e fêmeas de uma espécie.
Convenhamos: se todos os conflitos entre casais viessem desses dimorfismos, os relacionamentos seriam mais tranquilos. Mas homens e mulheres não têm apenas corpos físicos, mas diferentes formas de pensar que fazem a complexidade de uma vida a dois valer a pena e, por outro lado, ser desafiadora. Nada, claro, que o diálogo não resolva. Ou, como se diz, não possa ser discutido na relação. Ainda que isso assuste os homens, algo já explicado. Um trabalho realizado em 2011 pela pesquisadora Amanda Rose, da Universidade do Missouri (EUA), junto a 2 mil entrevistados, concluiu que rapazes evitam falar sobre seus problemas não por receio de parecerem fracos, mas por acharem perda de tempo, enquanto garotas acham que alivia conversar muito sobre os incômodos. Uma saída para o impasse, segundo Amanda Rose, seria as moças não insistirem exageradamente na discussão de um problema, pois isso pode torná-las mais ansiosas e deprimidas, e os pais incentivarem os filhos desde cedo a serem menos avessos à demonstração de seus sentimentos.

Sem regras – Enquanto tais correções de rumo não surtem efeitos, homens e mulheres convivem como são, comprovando que as características masculinas e femininas são bem mais universais do que aparentam. Um exemplo: casados há 11 meses, a pedagoga Lidiane Costa Lessa, de 24 anos, e o jornalista Daniel Gomes do Nascimento, de 32 anos, pintam um quadro bastante semelhante ao levantado pela pesquisadora Amanda Rose. Na verdade o que muda é só o endereço. “No nosso relacionamento, a Lidiane costuma partilhar mais as situações que vivencia do que eu”, confirma Daniel. “Sim, os maridos precisam saber ouvir mais suas esposas e acreditamos que, no nosso caso, isto está sendo bem resolvido. Mas o Daniel poderia aprender a falar mais dos seus sentimentos”, revela Lidiane. E por que não o faz? “Por que ele foi formatado na família e na faculdade para agir por conta própria. Talvez isso aconteça com muitos outros maridos, pois em uma sociedade ainda patriarcal, por mais que se tente negar, a ideia ainda vigente é a do homem provedor e a da mulher que precisa partilhar seus problemas com o marido. Não que concordemos com essa ideia, mas é a que está posta, ainda que sutilmente”, completa a pedagoga. 
Logo, as diferenças entre o que os homens entendem por “coisas de mulher” e as mulheres criticam como sendo “coisas de homem” certamente começam por suas falas, pelo que deixam de falar e, enfim, pelo modo com que se relacionam. E quando, cedo ou tarde, essas diferenças aparecem em palavras, atos ou omissões, o mais seguro é ter equilíbrio para resolver o problema em comum e não deixar que ele se avolume e pareça ser maior do que é, tornando-se um monstro devorador de relações. Regras para resolvê-las, certamente, não existem prontas. Cada casal deve trabalhar para encontrar suas próprias estratégias para acertar seus ponteiros antes que algum mal maior apareça. Um exemplo: “Discutir a relação, para nós, é algo tranquilo e cotidiano, não chegamos ao extremo de expormos nossas insatisfações. Não é algo que passa para um bate-boca, gritaria, essa coisa desrespeitosa. Aí jamais!”, revela Daniel.

Momento – Os terapeutas de casais e os casais mais experientes são unânimes ao afirmarem que nada é mais importante para assegurar longa vida a um relacionamento amoroso do que um clima de diálogo franco com uma base na intimidade. Pois, não por acaso, assim acontece entre Lidiane e Daniel. “Sinceramente, para nós não há diferença entre o ‘discutir a relação’ e uma ‘conversa a dois’. O que existe é o diálogo. Quando acontece algo mais pontual, que tira um de nós do sério, preferimos esperar um pouco para conversar, horas mais tarde ou no dia seguinte. Acreditamos que as questões delicadas podem ser mais bem resolvidas nos momentos descontraídos e jamais durante uma discussão da relação, pois aí a tendência é a situação piorar. Mas o diálogo sempre acontece”, afirma a jovem.
De fato, tão importante quanto o diálogo é o momento em que esse acontece. Porque é necessário saber o momento de colocar a palavra. Nada pior para uma conversa densa do que, por exemplo, acontecer em um momento de cansaço. “Sem dúvida, homens e mulheres têm jeitos diferentes de interagir com o mundo e pensar soluções para os problemas cotidianos. Não sabemos se a melhor coisa a fazer é buscar um denominador comum, mas temos certeza de que o que gera menos conflito é respeitar o jeito de ser do outro. Quando um rotula o outro fica difícil perceber que a vida a dois é estar um em função do outro, com suas virtudes e defeitos”, aponta Daniel. Ainda que muitas mulheres e alguns homens gostem de ter tudo resolvido antes de encostar a cabeça no travesseiro, uma noite de sono pode ser uma boa conselheira e ajudar a enxergar as coisas mais claras no dia seguinte. Quem ama também faz a hora.





Fonte: Edição 959,novembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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