La Madrecita de Dios

Data de publicação: 11/12/2015

     

Por: Karla Maria, especial do Arizona (EUA) e da Cidade do México

A fé do povo latino-americano na Virgem de Guadalupe atravessa fronteiras e desafios, que para alguns parecem intransponíveis
Está calor, ar seco, horizonte perdido. Estamos no deserto, a 16 quilômetros de Tucson, no estado do Arizona, (Estados Unidos). Há uma capelinha em honra à Virgem de Guadalupe, na Missão de San Xavier del Bac, que carinhosamente chamam de “Pomba Branca do Deserto”, localizada na terra dos índios Tohono O'odham, que protegiam a missão por centenas de anos.
As paredes brancas e grossas do século 18 chamam atenção em meio ao cenário hostil de terra seca, sol escaldante, cactos e pequenos répteis. No interior da pequena e escura capela, o as velas crepitam. Iluminam as centenas de medalhinhas, imagens da Virgem de Guadalupe.
Objetos de devoção, bonecas, fotografias, lembranças de pedidos, de milagres alcançados, enfeitam o espaço. As velas iluminam também o rosto dos fiéis que carregam em si a cor, o jeito e a fé indígena, feito Juan Diego, o jovem que avistou a Virgem de Guadalupe pela primeira vez, em 1531. Todos ali adoram a Virgem, a Madrecita. 
"Sou guadalupano. Vim agradecer à Madrecita. Quase morri ao atravessar o deserto. Mas atravessei, cheguei aqui e estou mesmo ilegal. É a oportunidade da minha vida e da vida da minha família", confidencia um homem forte, de chapéu nas mãos, voz baixa e pausada. Mais um imigrante, mexicano, que não quer se identificar.
O homem que reza não está sozinho e, embora o número de pessoas que arrisquem a travessia pelo deserto esteja diminuindo, cerca de 11 milhões de pessoas, a maioria mexicanos, vivem e trabalham clandestinamente nos Estados Unidos há vários anos. Quem vive ou passeia nos estados que fazem fronteira entre ambos os países observa a presença massiça de imigrantes mexicanos e da cultura, seja pelo idioma ou pelo jeito de viver e de se alimentar, apropriada pelos norte-americanos.
Juanita Encinas conhece bem essa realidade. Vive diariamente o drama e a alegria da chegada de um imigrante ilegal que busca seus sonhos, e isso há décadas. É mexicana e há 30 anos vive em Chandler, cidade a 25 quilômetros de Phoenix, a capital do Arizona. Ativista de direitos humanos, ela mantém um escritório que ajuda imigrantes mexicanos ilegais a se legalizarem no país. "As condições da travessia são desumanas, ficam dias sem alimento, sem água e chegam aqui com sonhos. A fé na Virgem é o que os move", conta Juanita, observando a pequena imagem da Madrecita na mesa de seu escritório.

Atravessando a fronteira, chegamos ao México e à sua capital: a Cidade do México. Com cerca de 20 milhões de habitantes em toda a região metropolitana, a cidade guarda características contrastantes entre seus bairros, que perambulam entre a pobreza das periferias, das mulheres que esmolam migalhas e a elegância dos centros culturais, bibliotecas e Igrejas que estabeleceram sobre a cultura pré-asteca, a cultura do colonizador espanhol.
Seja pela resistência da cultura indígena que se identificou com a Mãe Morena ou pela mão do colonizador católico, o fato é que ali está impregnado o amor à Madrecita, e a cidade respira e inspira essa fé.
Nela, encontramos Pablo (nome fictício). Ele, assim como o homem encontrado no deserto do Arizona, fez a travessia até os Estados Unidos de modo ilegal. Pagou coyotes. Quase morreu de sede, de frio, de calor. Passou fome. Permaneceu quatro meses na terra de Barack Obama e retornou ao seu país, o México, onde nos encontramos. "Não gosto nem de me lembrar. Foram dias difíceis. Sofri muito e voltei para viver com a minha família", conta ele, sentado nas escadarias do maior santuário católico das Américas: o Santuário de Guadalupe.
Ele acompanha a caravana da família que ali está para agradecer à Virgem por sua vida. Devotos, estão com um andor enfeitado de flores, estandartes e o brasão da família, prontos para a procissão que adentrará o corredor central da basílica nova, para a segunda missa do dia. As crianças estão enfeitadas com roupas típicas da terra e do colorido da pintora mexicana Frida Kahlo.
O santuário está localizado no Monte de Tepeyac, região norte da cidade, onde a imagem da Virgem de Guadalupe teria aparecido pela primeira vez a um jovem indígena asteca, Juan Diego. Era 1531 quando Diego teve um encontro com Maria – a mãe de Jesus – e deste encontro surgiu o pedido dela ao então bispo franciscano frei Juan de Zumárraga de que ali, naquele mesmo monte, fosse construída uma igreja dedicada à Virgem de Guadalupe.
Zumárraga não acreditou de imediato nas palavras do jovem que ajudava nos afazeres do convento dos Franciscanos. Apenas depois de três encontros de Juan com Maria, e da entrega de algumas rosas ao bispo a pedido da Virgem, que o bispo percebeu que ali havia algo extraordinário.
Envolvidos em seu tilma, uma veste típica da região, Juan Diego leva as rosas, colhidas no inverno, onde elas jamais brotariam em situação normal. Ao depositar aos pés dos Franciscanos as rosas frescas, revela-se, estampada no manto de Juan Diego, a imagem daquela que hoje todo o povo latino-americano chama de Virgem de Guadalupe.
E foi assim que surgiu o santuário, a pedido da Madrecita. Sua construção iniciou no século 16. Foi projetado pelo arquiteto Pedro Ramirez Vasquez, o mesmo que construiu o belíssimo Museu Nacional de Antropologia, localizado na mesma cidade. Atualmente, o santuário é composto de várias igrejas e capelas, dentre elas as duas basílicas, uma construída a partir de 1531 e a outra em 1974. A mais nova foi erguida em razão do afundamento da anterior, já que se encontra sobre um terreno movediço. Quem entra no prédio mais antigo pode sentir o grande aclive sob os pés.


“A basílica (nova) foi construída em forma de uma concha, que é um símbolo mariano, e tem dois andares. O andar de cima é conhecido pelo nome de galeria e está ocupado por capelas. Trata-se de um santuário barroco popular. A cobertura interior é de madeira pré-fabricada no Canadá. Um dos mais bonitos do centro do México”, conta o antropólogo e guia turístico Guillermo Westphal.
Bandeiras de diversos países estão espalhadas pela basílica nova, apontando que a devoção a Guadalupe viaja junto com os imigrantes. Da porta desta igreja de torres altas é possível observar o adro comprido e os fiéis que, de hora em hora, acompanham a apresentação que acontece no relógio central, rememorando a história das aparições da Virgem a Juan Diego.
Procissões também chegam de todo lugar, muito coloridas, com balões e flores. Homenageiam a Mãe Morena com música, orações e lágrimas. Grupos organizados, com camisetas personalizadas e bonés para proteger do sol também chegam com os andores enfeitados. “Adorei ter vindo. Fiquei muito emocionada quando vi a pintura de Nossa Senhora de Guadalupe. Fiquei rezando terços, vendo a imagem”, conta a peregrina brasileira Tiyoko Elizabete.
Yoko é professora aposentada, pinta quadros e dedica-se agora a pintar a imagem da Virgem de Guadalupe. Ao seu lado, estava outro brasileiro, o também professor Éder Massakasu Aono, mais um devoto. “Já tinha estado duas vezes aqui, estudando e sozinho. Pela primeira vez vim peregrinar e passear. É fantástico estar na casa da Mãe Morena, neste espaço divino. Surpreende-me a fé do povo, a história do manto com a imagem da Morenita. Imagino-me um pouco no lugar de Juan Diego”, desabafa Aono.
É de fato extraordinária a fé do povo em Maria, que, de todos os modos, uns mais simples e outros mais extravagantes, declaram seu amor e gratidão à Guadalupe. Tatuagens com o rosto da Madrecita espalham-se pelos corpos brancos e morenos, joelhos se arrastam pelo chão sagrado daquele grande santuário, orações surgem de todo lado.
“Morena de Guadalupe, Maria do Tepeyac, congrega todos os índios na estrela do teu olhar, convoca os povos da América que querem ressuscitar”, pede dom Pedro Casaldáliga, mais um fiel entre tantos desta América por ela não esquecida.




Fonte: Edição 960,dezembro de 2015
Postado por: Família Cristã




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