Natal de Jesus

Data de publicação: 24/12/2015

Ano C – 25 de dezembro de 2015

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Texto Celso Pedro da Silva
Arte Sergio Ricciuto Conte

Missa da noite – És o meu Filho, eu hoje te gerei
Is 9,1-6 − Nasce um Menino, seu reino será grande e a paz não terá fim
Sl 96 − O céu e a terra se alegram, batem palmas o mar e tudo o que nele existe
Tt 2,11-14 − Aguardamos que se realize o que esperamos e que se manifeste a glória do Salvador
Lc 2,1-14 − Os Anjos anunciam aos pastores o que aconteceu e cantam a glória de Deus.

Missa da aurora – Hoje surgiu a luz para o mundo
Is 62,11-12 – O Salvador está chegando. Nunca mais seremos uma cidade abandonada.
Sl 97– Uma luz se levanta para o justo. Há muita alegria no coração de quem é reto.
Tt 3,4-7 – A bondade de Deus se manifestou. Seu amor nos fez herdeiros da vida eterna.
Lc 2,15-20 – Os pastores vão a Belém ver o que aconteceu. Glorificam e louvam a Deus, enquanto Maria meditava em seu coração tudo o que estava acontecendo com seu Filho, Jesus.

Missa do dia – Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado
Is 52,7-10 – Como são belos os pés que anunciam a paz
Sl 98 – Toda a terra se alegra porque os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus.
Hb 1,1-6 – Deus nos fala por seu Filho, pelo qual o universo foi criado. Quem vê Jesus vê a glória e o coração do Pai.
Jo 1,1-18 – A Palavra vem morar em nosso mundo e nos revela o íntimo de Deus.

João Cabral de Melo Neto escreveu “Morte e vida Severina”, um auto de Natal pernambucano. Pinçando aqui e acolá algumas partes de seu poema, podemos meditar, do jeito brasileiro, olhando para o presépio de Jesus.
Conversando com São José, o pai adotivo do recém-nascido:
– Compadre José, compadre, que na relva estais deitado: conversais e não sabeis que vosso filho é chegado? Estais aí conversando em vossa prosa entretida: não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? Saltou para dentro da vida ao dar o primeiro grito; e estais aí conversando; pois sabei que ele é nascido

Escutando o canto dos anjos:
– Todo o céu e a terra lhe cantam louvor e cada casa se torna num mocambo sedutor. Cada casebre se torna no mocambo modelar que tanto celebram os sociólogos do lugar. E a banda de maruins que toda noite se ouvia por causa dele, esta noite, creio que não irradia. E este rio de água cega, ou baça, de comer terra, que jamais espelha o céu, hoje enfeitou-se de estrelas.

Os pobres dando presentes:
– Minha pobreza tal é que não trago presente grande: trago para a mãe caranguejos pescados por esses mangues; mamando leite de lama conservará nosso sangue.
– Minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar: somente o leite que tenho para meu filho amamentar; aqui são todos irmãos, de leite, de lama, de ar.
– Minha pobreza tal é que não tenho presente melhor: trago papel de jornal para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor.
– Minha pobreza tal é que não tenho pre- sen­te caro: como não posso trazer um olho d’água de Lagoa do Carro, trago aqui água de Olinda, água da bica do Rosário.
– Minha pobreza tal é que grande coisa não trago: trago este canário-da-terra que canta corrido e de estalo.
– Minha pobreza tal é que minha oferta não é rica: trago daquela bolacha d’água que só em Paudalho se fabrica.
– Minha pobreza tal é que melhor presente não tem: dou este boneco de barro de Severino de Tracunhaém.
– Minha pobreza tal é que pouco tenho o que dar: dou da pitu que o pintor Monteiro fabricava em Gravatá.
– Trago abacaxi de Goiana e de todo o estado rolete de cana.
– Eis ostras chegadas agora, apanhadas no cais da Aurora.
– Eis tamarindos da Jaqueira e jaca da Tamarineira.
– Mangabas do Cajueiro e cajus da Mangabeira.
– Peixe pescado no Passarinho, carne de boi dos Peixinhos.
– Siris apanhados no lamaçal que há no avesso da Rua Imperial.
– Mangas compradas nos quintais ricos do Espinheiro e dos Aflitos.
– Goiamuns dados pela gente pobre da Avenida Sul e da Avenida Norte.

Ouvindo profecias de magos:
– Atenção peço, senhores, para esta breve leitura: somos ciganas do Egito, lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas que desde já posso ver na vida desse menino acabado de nascer: aprenderá a engatinhar por aí, com aratus, aprenderá a caminhar na lama, como goiamuns, e a correr o ensinarão os anfíbios caranguejos, pelo que será anfíbio como a gente daqui mesmo. Cedo aprenderá a caçar: primeiro, com as galinhas, que é catando pelo chão tudo o que cheira a comida; depois, aprenderá com outras espécies de bichos: com os porcos nos monturos, com os cachorros no lixo. Vejo-o, uns anos mais tarde, na ilha do Maruim, vestido negro de lama, voltar de pescar siris; e vejo-o, ainda maior, pelo imenso lamarão fazendo dos dedos iscas para pescar camarão.
– Atenção peço, senhores, também para minha leitura: também venho dos Egitos, vou completar a figura. Outras coisas que estou vendo é necessário que eu diga: não ficará a pescar de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu de dizer todas as linhas; não pensem que a vida dele há de ser sempre daninha. Enxergo daqui a planura que é a vida do homem de ofício, bem mais sadia que os mangues, tenha embora precipícios. Não o vejo dentro dos mangues, vejo-o dentro de uma fábrica: se está negro não é lama, é graxa de sua máquina, coisa mais limpa que a lama do pescador de maré que vemos aqui, vestido de lama da cara ao pé. E mais: para que não pensem que em sua vida tudo é triste, vejo coisa que o trabalho talvez até lhe conquiste: que é mudar-se destes mangues daqui do Capibaribe para um mocambo melhor nos mangues do Beberibe.

Falando de sua encarnação:
– De sua formosura já venho dizer: é um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher.
– De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.
– Sua formosura deixai-me que cante: é um menino guenzo como todos os desses mangues, mas a máquina de homem já bate nele, incessante.
– Sua formosura eis aqui descrita: é uma criança pequena, enclenque e setemesinha, mas as mãos que criam coisas nas suas já se adivinha.
– De sua formosura deixai-me que diga: é belo como o coqueiro que vence a areia marinha.
– De sua formosura deixai-me que diga: belo como o avelós contra o Agreste de cinza.
– De sua formosura deixai-me que diga: belo como a palmatória na caatinga sem saliva.
– De sua formosura deixai-me que diga: é tão belo como um sim numa sala negativa.
– É tão belo como a soca que o canavial multiplica.
– Belo porque é uma porta abrindo-se em mais saídas.
– Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia.
– É tão belo como as ondas em sua adição infinita.
– Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria.
– Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia.
– Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia.
– Ou como o caderno novo quando a gente o principia.
– E belo porque com o novo todo o velho contagia.
– Belo porque corrompe com sangue novo a anemia.
– Infecciona a miséria com vida nova e sadia.
– Com oásis, o deserto, com ventos,a calmaria.




Fonte: Família Cristã, 959
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Liturgia da Palavra
11 de novembro de 2018 - 32º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da palavra
A inculturação do Evangelho
Quero caminhar com o meu povo e estar no meio dele, sofrer com ele as mudanças e enxergar
Sim, eu creio!
A primeira experiência no ato de crer não se faz com a inteligência. Num primeiro momento não cremos
Liturgia da Palavra
28 de outubro de 2018 - 30º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da Palavra
Liturgia da Palavra
21 de outubro de 2018 - 29º Domingo do Tempo Comum - Ano B – Liturgia da Palavra
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados