As feridas sagradas

Data de publicação: 30/12/2015

O que fazer com os traumas e dramas que aconteceram no percurso da vida, talvez olhando as feridas, acolhendo e habilitando os talentos e desenvolvendo-os


Por Cleusa e Alvício Thewes

Eulália, 42 anos − Casada. Mãe de quatro filhos legítimos e quatro adotados. Rejeitada e maltratada pela mãe na infância, que privilegiava os filhos homens, tornou-se mulher humilde. Quando relembra a infância e a juventude, qualquer referência à mãe a faz chorar. Já as menções ao pai acendem uma chama dentro dela. Seu rosto se ilumina, seus olhos brilham, e ela relembra, radiante, o amor e o carinho recebidos do pai. Sua mãe não a orientou para a vida e se livrou dela ainda muito jovem. Jogou-a nos braços de um homem bem mais velho, como esposa dele.  Eulália sofreu nas mãos do marido, com quem teve filhos. Depois foi abandonada e passou fome. Criou os filhos com extrema dificuldade e ainda teve a coragem de adotar mais quatro.
Recentemente, com as chuvas de granizo, o telhado de sua casa virou uma peneira. Perdeu colchões, roupas de cama, geladeira, móveis. Foram dias difíceis. Apesar disso, ela não tem motivos para reclamar. A união dos filhos salvou a situação. Eles compraram telhas novas e reconstruíram o telhado.  Ela fala com orgulho dos filhos: “Meus filhos são pobres, como eu, mas são unidos, graças a Deus. Tenho orgulho de todos eles. Devem isso à mãe. Sempre cuidei bem deles. Nunca agi com eles como minha mãe agia comigo. Os objetos que a chuva destruiu, vamos dar um jeito, afinal, estamos vivos”. A vida de Eulália resume-se a passar a limpo sua história.  Consciente das feridas causadas pela rejeição e abandono maternos, adotou postura contrária à da mãe. Foi o meio que encontrou para se curar. Ela é uma vencedora.  

Lisa, 26 anos – Enfermeira jovem e bela.  Dedica-se a cuidar de idosos, em um lar geriátrico. As recordações da infância de Lisa são tristes. Ela ainda era pequena quando os pais se separaram. Ela não entendia bem por que o pai fora embora e nunca mais regressara. Só mais tarde veio a compreender que o pai fizera da separação o motivo para descumprir suas obrigações paternas. A avó assumiu as obrigações do pai ausente. Criou Lisa e os irmãos. A mãe dela, muito jovem, resolveu desfrutar a vida, após a separação. Festas e bailes eram o seu foco. E os filhos? Bem, dependiam da abnegada vovó.
 Aos oito anos, Lisa teve que aprender a cozinhar e cuidar dos irmãos. Enquanto o pai andava sumido e a mãe se divertia. Aos 17 anos, resolveu formar seu próprio lar. Casou, e hoje é feliz. Tem um esposo bom e cuidadoso.  Está em terapia preparatória para a maternidade. Quer curar as feridas abertas pelo abandono do pai e da mãe, antes de ser mãe. Ela sabe que precisa se tratar para se tornar uma mãe presente e amorosa para os seus filhos.

Embrião para a cura − O que são as feridas sagradas em nossa vida? São as dores, as perdas, as rejeições, as discriminações, os traumas, vividos, sentidos, padecidos ao longo da vida.
A causa das feridas de Eulália são a rejeição materna.  A criança rejeitada torna-se insegura. Foi isso que aconteceu com Eulália e a fez aceitar um casamento precoce. Esses ingredientes tinham tudo para que a história se repetisse. E se repetiu. O esposo também a rejeitou. 
Na história de Lisa, a ferida sagrada é o abandono.  O pai a abandonou por completo; e a mãe, embora morasse na mesma casa, era ausente, descomprometida com os filhos. Nesse quase caos familiar, os filhos experimentaram solidão, desamparo e desespero na tenra idade.
 As feridas doídas têm de ser olhadas, acolhidas, apreendidas e superadas. É dessa forma que se tornaram sagradas. Sagradas porque se tornaram traumas compreendidos. E a compreensão é o embrião para a cura e o crescimento.
Passar pela vida integrando e dando hospedagem à própria história é sábio. Mas não esqueçam: deve ser uma opção, uma opção pessoal e não uma imposição. Não é saudável negar e resistir aos capítulos que compõem o livro da vida. As experiências e vivências demonstram isso. Olhar, sem dramas, o passado é a melhor forma para compreendermos os fatos que inviabilizam mudanças. Mas, atenção: eles escapam facilmente ao nosso controle. É preciso que sejamos determinados e persistentes. E acreditem: atrás das feridas, há belos tesouros escondidos. 
Para melhor compreensão do tema, voltemos às histórias de Eulália e Lisa, que tinham tudo para serem trágicas. E por que não foram? Por dois motivos: a)  Elas olharam e analisaram o passado e superaram as feridas; b) Elas criaram suas próprias famílias. E aqui está um ponto que eu considero fundamental. As feridas são buracos, vazios, dentro de você. Se você apenas olha o passado, a cura pode ser incerta. Falta o lado oposto, o futuro. É fundamental construir o que perdeu e preencher o buraco dentro de você.  No lugar das perdas, coloque o que construiu. Aquele que perdeu a família deve construir a sua. Sem preencher as perdas, a cura nunca será completa. 
Recordemos a ferida sagrada da mulher adúltera da Bíblia. É em tudo semelhante às feridas de Eulália e Lisa.  Ela foi rejeitada, excluída do círculo familiar pelo preconceito, abusada e mal-amada. E a cura também foi uma opção pessoal. Ela reconheceu as dores de sua ferida, a sua fragilidade, e isto a tornou aberta a acolher o amor e a cura do Mestre. Este logo percebeu o estado de espírito da pecadora: “Mulher, eu não te condeno. Vai e não peques mais”. Essas palavras de Cristo a tocaram profundamente e a curam.
 Notem: o gesto do Mestre foi ao encontro do que ela necessitava.
E você? Tem feridas? Sim? Todos nós temos, não é mesmo? E do que necessita? Ah! Reconhecer, cuidar, tratar, aprender... Quando fizer isto, as suas feridas se tornarão sagradas, e, então poderá, nos limites de sua vida, considerá-las mestres de vida.

Ferida sagrada cicatrizada −
A ferida sagrada estará cicatrizada no instante em que você parar de utilizar seus traumas e suas perdas como escudo de proteção e do fracasso pessoal. Transformar a ferida traumática mantenedora do “coitadismo” e justificativa doída em ferida sagrada é assumir o cuidado pela saúde integral, corpo, mente, sentimentos, espírito, e pela vida que lhe foi presenteada por Deus.
Para cicatrizar a ferida, é preciso um gesto. Um gesto seu, na busca da realização e da felicidade, habilitando seus talentos para devolvê-los multiplicados ao Senhor da vinha, que virá ao cair da tarde. Ferida sagrada cicatrizada é a manifestação do sorriso no olhar, da doce palavra no falar, da mão estendida no acarinhar, do coração pulsante para perdoar.
Sente-se, agora, aos pés do Mestre Jesus e, com os olhos dele, olhe sua ferida sagrada e, com as mãos dele, cure o que ainda dói e lhe impede de ser feliz. Não hesite, entregue-se.  Permita que a voz do Mestre brade dentro de você: “Levanta-te e anda!”.
Apresente-nos, ó Mãezinha, ao teu amado Filho. Amém!




Fonte: Família Cristã, 9659
Postado por: Família Cristã




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