O amor é o caminho

Data de publicação: 18/01/2016

A diversidade sexual tem sido tema aflitivo entre pais e filhos, por isso, grupos dentro e fora da internet mostram caminhos de conhecimento, diálogo e amor

Por Karla Maria

Ela chega aflita na porta de uma paróquia na zona oeste de São Paulo (SP). Está acompanhada por uma amiga de décadas. Chora desesperada, perdida. Busca na secretaria da paróquia de um bairro tradicional da capital paulista uma orientação sobre como lidar com a notícia que acabara de receber de sua filha, a sua única, de 18 anos: “Ela gosta de meninas”.
A secretária, com a maior boa vontade, a acalma. Oferece um copo com água e sente-se aflita ao falar em nome da Igreja Católica Apostólica Romana sobre o tema. “É uma situação para a qual não estamos preparadas, fica muito difícil responder a isso”, confidencia a secretária, que aqui chamaremos de Maria.
Ela, a secretária atenciosa e preocupada com a situação da família paroquiana, se sai bem e cita o papa Francisco. “Olhe, se o papa diz que não é ninguém para julgar, imagine nós. Acolha e ame sua filha como ela é”, orientou a secretária.
A mãe chora. “Imagine se a minha família, que é muito católica, fica sabendo de uma coisa dessas. Coitadinha da minha filha.” A situação não é nova e cada vez mais pais e filhos buscam apoio na Igreja para lidar com o tema – ainda tabu – em alguns lares: a diversidade sexual, a homossexualidade.
“Quando soubemos da orientação sexual do nosso filho, minha companheira e eu tivemos a sensação que não teríamos forças suficientes para suportar tamanha dor. [...] Queria achar alguma justificativa, culpados, no que eu errei, culpei a vida e até Deus por permitir que esta desgraça atingisse a minha família”, desabafa um pai em sigilo, aqui chamado de João.
Ele é membro do Grupo de Pais de Homossexuais, uma organização nãogovernamental fundada com o intuito de suprir a falta de um ambiente seguro e acolhedor no qual pais e mães, gays, lésbicas e transexuais (em grupos específicos) possam trocar informações e experiências sobre seus filhos, suas vidas e, se for o caso, solidarizarem-se durante o difícil processo de aceitação.
“Aqui fomos acolhidos com muito amor, carinho e generosidade. Podíamos discutir e desabafar, aprender com nossos pares. Tenho orgulho de estar me empenhando com todas as minhas forças, junto com a minha companheira e junto com meus amados filhos, e diariamente estarmos nos aceitando e nos amando com mais intensidade e respeito, admitindo o desconhecido”, diz João.
Iniciativas como esta, de apoio e acolhida a homossexuais e seus familiares, têm surgido há algum tempo: em grupos discretos, associações e paróquias. O Grupo de Ação Pastoral da Diversidade (GAPD), que atua na região central de São Paulo, completou cinco anos em outubro e realiza periodicamente encontros de reflexão, bate-papo e a Celebração da Palavra. O grupo não é reconhecido pelo arcebispo local, o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, mas ainda assim padres e leigos se encontram para partilhar a vida e suas agruras à luz do Evangelho.
“O objetivo é justamente ser um espaço de acolhimento, de trocas, de diálogo interno e, na medida do possível, também externo, de aprofundamento teológico e, acima de tudo, um espaço de florescimento de nossa espiritualidade, de nossa entrega a Deus, que nos ama acima de tudo”, conta o educador Lula Ramires, 52 anos, um dos articuladores do grupo.
Ramirez lembra que sofreu na juventude “por ter interiorizado ideias e valores machistas e heteronormativos. Quando você se vê como alguém que está fora, que não cumpre a regra dos demais, da maioria, você se sente muito mal. Foram muitos anos de leitura, conversas, encontrar pessoas – dentro e fora da Igreja – que me acolheram pelo que eu sou, pela minha sexualidade”, revela.
Outra iniciativa como a do GAPD tem oferecido apoio a pais e homossexuais, só que dessa vez na internet e com retornos de até 72 horas. Trata-se do Amai-vos, Inteligência e Tecnologia a Serviço do Amor, um site, um canal de comunicação que oferece conteúdos culturais ligados a amor e direitos humanos. Entre tantos temas, a que se dispõem comunicar e tirar dúvidas, estão os assuntos ligados à população LGBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais), especialmente cidadania, família, religião, espiritualidade e autoestima.
Nele, dúvidas do tipo: “Como deve ser recebido pela Igreja um homossexual?” são respondidas – como dito – em até 72 horas. “Deve ser recebido com amor, delicadeza e respeito, evitando-se para com ele qualquer forma de discriminação injusta, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (nº 3.528). Também a recente afirmação do papa Francisco deve ser lembrada: ‘Se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?’. É importante encontrar comunidades e ambientes na Igreja nos quais reine este espírito, e não o assédio espiritual”, orienta o também jesuíta, como o papa Francisco, padre Luís Carlos, professor do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e líder do Grupo de Pesquisa.
O grupo dedica-se ao estudo da diversidade sexual relacionada a questões de família, direitos humanos, ciência e religião. É formado por professores e alunos de diversos departamentos da universidade, bem como por profissionais das áreas de Serviço Social, Psicologia e Teologia que procuram conhecer e se aprofundar nesse tema.

Apoio e informação – Segundo o diretor-geral do Amai-vos, Tony Piccolo, o site recebe consultas de todo o Brasil e do exterior. O perfil dos usuários é bastante variado, tanto econômica como culturalmente, devido ao grande alcance da internet, sobretudo agora através das mídias móveis, justifica. Em relação à faixa etária, Piccolo revela que os jovens são os que mais procuram auxílio. “Atendemos a um público grande, entre 13 e 25 anos (45%), adultos de 25 a 45 anos (35%) e os demais 20% são os com mais de 45 anos.”
Só em 2014 o Amai-vos contou mais de 2,5 milhões de visitantes únicos no portal. Foram 3 mil atendimentos on-line, nos 16 serviços disponíveis. “O serviço ‘diversidade sexual’ recebeu em torno de 200 consultas”, revela.
As consultas são confidenciais, e as respostas têm como base os valores cristãos e humanistas. “Nossa proposta no Amai-vos é acolher as diferentes culturas, religiões, etnias e minorias da sociedade contemporânea, de forma dialogal, amorosa e respeitosa, sem discriminação, preconceitos e julgamentos”, o diretor-geral.
Recentemente, em 3 de novembro, no município de Poá (SP), um jovem de 16 anos e filho de um lar católico cometeu suicídio por não mais suportar o preconceito e a intolerância que sofria por conta de sua condição homossexual. Segregado e sem rumo, ele se enforcou.
O Grupo de Ação Pastoral da Diversidade de São Paulo, formado por cristãos católicos leigos LGBT, dirigiu uma carta aberta aos bispos do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que compreende o estado de São Paulo. “Caros bispos, nós também somos filhos dessa Igreja, também somos o Povo de Deus, e pedimos a vossa bênção e a vossa acolhida para crescermos em comunhão enquanto participamos do anúncio da Boa-Nova de Jesus. Enquanto Comunidade LGBT, nós esperamos por mudanças, mas sabemos que a principal mensagem do Evangelho é que ninguém pode ser excluído, especialmente de uma comunidade que guarda em seu coração a mensagem da salvação.”

Amai-vos
amaivos.uol.com.br

Grupo de Ação Pastoral da Diversidade SP
www.facebook.com/diversidadepastoralsp
spdiversidade.blogspot.com.br

Grupo de Pais de Homossexuais
www.gph.org.br/home.asp




Fonte: Família Cristã, 960
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Dai-me paciência!
A paciência é uma virtude difícil de conquistar. Isso mesmo! É uma conquista!
Jovens protagonistas em ação
É preciso estar atento àqueles jovens protagonistas nas ações políticas, sociais e humanitárias
Autoestima sem tamanho
Jovens inspiram autoestima por seu físico,quebram padrões e desafiam publicitários.
Um canto negro
As mulheres da família de Soffia souberam educar e cultivar o amor à origem negra
Mãos ao alto
Jovens da periferia denunciam abuso na abordagem policial
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados