As novas Malalas

Data de publicação: 03/02/2016

Extremistas radicais quase mataram a menina Malala Yousafzai por ela apenas lutar pelo direito de estudar. Não conseguiram e, agora, para azar deles e sorte nossa, o mundo está cheio de Malalas

Por  César Vicente

Mais jovem personalidade laureada com um Prêmio Nobel – aos 17 anos, em 2014 –, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai entrou para a História como uma garota corajosa que desafiou o movimento fundamentalista islâmico Taliban que se difundiu em seu país e, entre outras arbitrariedades, impede as meninas e adolescentes de frequentarem as escolas. Muitas vezes com violência e covardia. Para quem ainda ignora, aos 15 anos, Malala sofreu um atentado reivindicado pelo Taliban que quase lhe tirou a vida. Recuperada, ela vive com a família na Inglaterra, onde estuda em uma escola da cidade de Birmingham. Mas com planos de voltar ao Paquistão. “Vou ser política no futuro para ajudar a mudar meu país. Quero que ali a educação seja obrigatória. O melhor modo de lutar contra o extremismo é educar a próxima geração. Espero que chegue o dia em que o povo do Paquistão seja livre, tenha direitos, paz e todas as crianças, incluindo as meninas, possam ir às escolas”, acredita a jovem.
Em setembro passado, defendendo suas ideias, Malala esteve na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao seu lado estavam outras sete garotas de quatro países – Brasil, Filipinas, Quênia e Paquistão – participantes do Projeto Essa É Minha Vez, promovido pela organização não governamental Plan International. Com a meta de empoderar as adolescentes a ponto de essas poderem emitir opiniões de forma eficaz e sem barreiras, o projeto traduziu o desejo de mais de 500 jovens autoras da Declaração das Meninas, documento entregue às lideranças da ONU com reivindicações de políticas públicas específicas nas áreas da saúde, proteção, educação e profissionalização. O texto pediu aos líderes mundiais que os direitos das meninas constem entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que orientarão as políticas nacionais e as atividades de cooperação internacional nos próximos 15 anos, sucedendo os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). “As meninas são a chave para toda solução sustentável, e não será possível progredir sem elas”, ressalta o documento.

Debates – No Brasil, o projeto passou pela realização de oficinas com adolescentes em cinco estados – Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pará – e mais o Distrito Federal (Brasília), onde a Plan International desenvolve atividades voltadas para a defesa dos direitos da infância e adolescência e capacita as comunidades a fazer valer esses direitos. “A defesa passa pela luta da igualdade de gêneros e o combate ao machismo em suas variadas formas”, aponta a socióloga e assistente técnica de programas da Plan International Ana Nery Lima. Segundo ela, a defesa pode começar a ser empreendida ainda na adolescência através da capacitação das meninas, uma vez que a segregação por gênero é perceptível logo no início da vida. “Uma pesquisa da Plan ouviu 1.700 meninas e adolescentes de todas as regiões do País e apontou que a maioria delas sofre algum tipo de discriminação apenas por ter essa marca de gênero”, afirma Ana.
Das 90 adolescentes participantes das oficinas, onde elas debateram e refletiram sobre as condições de vida das meninas e seus direitos, duas foram eleitas para representá-las na Assembleia da ONU: Luiza Xavier, do Rio de Janeiro (RJ), e Irlane Félix, da cidade de Codó (MA). Com 17 anos, ambas encararam a missão cientes de serem portadoras dos anseios de todas as garotas brasileiras. “Quando fui tirar o visto para a viagem, o cara olhou para mim e perguntou: ‘É turismo, né?’. Eu disse: ‘Não, eu vou participar da Assembleia Geral da ONU’”, reforçou Luiza. “Fiquei um tanto surpresa pelas demais meninas acharem que eu tenho capacidade de representá-las, e às outras meninas do Brasil inteiro, na Assembleia Geral da ONU. As oficinas e viagem à Assembleia da ONU foram importantes para eu saber de outras realidades que não são tão diferentes da minha e que, na verdade, são bem próximas”, completa Irlane, encarregada de entregar uma cópia da Declaração das Meninas à presidente Dilma Rousseff – a íntegra do documento está no link plan.org.br/declara%C3%A7%C3%A3o-das-meninas-do-brasil 

Igualdade – Para Ana Nery, autoridades e a sociedade como um todo têm a ganhar ao prestar mais atenção às reivindicações das garotas. “Por mais que existam pesquisa, estudos e teorias sobre elas, ao ouvirmos os próprios sujeitos de direito e de fala, no caso as garotas, temos a ganhar mais liberdade, conscientização e poder de luta. A grande vantagem dessa Declaração das Meninas é ser um instrumento de incidência política produzida por elas mesmas e que pode ser utilizado em prol de seus direitos”, explica. “Há tempo demais as meninas são discriminadas e acho que, batendo na tecla da igualdade de gênero, nós podemos mudar muita coisa, como os casos de violência contra as mulheres. A partir do momento em que a mulher estiver no mesmo patamar de igualdade do homem, isso mudará, e para bem melhor. Pode ser um trabalho de longo prazo, mas não impossível de ser realizado”, acredita Irlane, que tem na, agora, colega de luta Malala Yousafzai uma referência. “Não só para as garotas de hoje, mas também para as que vão nascer. De certa forma, todas as meninas do mundo têm um pouco ou muito da Malala. Somos todas como ela”, conclui.




Fonte: Fc edição 961- JAN- 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Das ondas ao altar
Se pregava, era de todo coração; se surfava, era para encarar as maiores ondas.
Somos peregrinos
A Jornada Mundial da Juventude, realizada na cidade do Panamá, país da América Central
Um chamado que faz chamar!
Um chamado que muitas vezes é questionado e rejeitado por um bom tempo, até que se percebe como o profeta Jeremias, que é uma luta desigual
ENTRE JOVENS
Grande parte dos jovens entre 15 e 29 anos, em algum momento experimentou dupla jornada.
Sonho desperto
Jovens de diferentes estados do Brasil, focados no coletivo, buscam uma carreira e uma profissão
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados