Mudar de rumo

Data de publicação: 04/02/2016

A 4ª Campanha da Fraternidade Ecumênica objetiva assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis

Por: Moisés Sbardelotto*

Na Quarta-Feira de Cinzas deste ano, dia 10 de fevereiro, inicia o tempo da Quaresma. Concomitantemente, será lançada a 4ª Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2016, dedicada este ano ao tema Casa Comum, nossa responsabilidade, com o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24).
Reunindo os esforços ecumênicos das cinco Igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) do Brasil – Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e Igreja Presbiteriana Unida –, além da Aliança de Batistas do Brasil, do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e da Visão Mundial, o objetivo principal da campanha é “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum”.
Desde o início, a CFE 2016 se coloca em sintonia com o papa Francisco, cuja encíclica Laudato Si’ (LS) “é a voz profética que clama para que assumamos o desafio de proteger a Casa Comum unindo-nos por um desenvolvimento sustentável e integral”, como afirma o Texto-base da campanha (no 17). Segundo o documento da CFE 2016, o papa chama a atenção para o fato de que o modelo de desenvolvimento das sociedades atuais está ameaçando a vida e a biodiversidade do planeta. “A perspectiva ecumênica aponta para a necessidade de união das Igrejas diante dessa questão. Nossa Casa Comum está sendo ameaçada. Não podemos, portanto, ficar calados. Deus nos convoca para cuidar da sua criação” (no 10).
Por isso, o tempo da Quaresma deste ano pode ser um momento propício para que cada cristão e cristã, e cada comunidade, paróquia, grupo e movimento, possam retomar e aprofundar essa importante encíclica de Francisco. Nela, temos o principal documento de toda a história da Igreja Católica a tratar especificamente da “nossa irmã, a mãe Terra” (no 1).

Casa Comum – Para Francisco, a Casa Comum necessariamente envolve um “diálogo com todos” (LS, 3). Ela não é direito nem propriedade de alguns escolhidos, mas envolve cada um(a) e todos(as) os seres humanos: é a humanidade toda que possui “a capacidade de colaborar na construção” dessa casa (LS, 13), e a sua proteção – é o apelo do papa – deve unir “toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral” (LS, 13). Isso também se soma ao desejo da CFE 2016, cujo Texto-base afirma que a responsabilidade pelos direitos humanos e pela justiça climática “é de todos, dos governantes e da população” (no 25), e também deve ser assumida “ecumenicamente, indo além das fronteiras geográficas e confessionais” (no 14).
O cenário, contudo, não é muito esperançoso: “Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”, afirma Francisco (LS, 53), e basta olhar a realidade “com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum” (LS, 61). E a Laudato si’ quer chamar a nossa atenção para a “relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS 16).
Nesse sentido, o texto-base da CFE 2016 traz dados assustadores levantados pelo Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento Básico (2013): 82% da população brasileira não tem acesso à água tratada; mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto; apenas 39% dos esgotos são tratados; e, diariamente, em território brasileiro, despeja-se na natureza o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento. Em termos mundiais, afirma o Texto-base, o Brasil está entre os 20 países do mundo nos quais as pessoas têm menos acesso a banheiros e é considerado também o campeão mundial em desperdício de água.
Os últimos anos registraram ainda graves problemas ambientais: em 2014, o Sudeste viveu uma das maiores crises hídricas já registradas na história recente do País; e, em 2015, a região de Mariana (MG) foi palco do maior desastre ambiental da história brasileira, com o rompimento da barragem da mineradora Samarco, despejando mais de 62 milhões de metros cúbicos – algo em torno de 25 mil piscinas olímpicas – de lama tóxica em todo o vale e o leito do Rio Doce, que já percorreram mais de 500 quilômetros até desembocar no mar, deixando um rastro de devastação.
Toda a questão do saneamento básico – que envolve o abastecimento de água potável, o esgoto sanitário, a limpeza urbana etc. – é também condição para erradicar a pobreza e a fome, para reduzir a mortalidade infantil e defender a sustentabilidade ambiental, afirma o Texto-base da CFE 2016. “Há que se ter em mente que ‘justiça ambiental’ é parte integrante da ‘justiça social’” (no 21).
É o que Francisco chama de “ecologia integral”. Segundo o papa, esta é inseparável da noção de bem comum, que é “um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres” (LS, 158). Por isso, afirma o pontífice, “não percamos tempo imaginando os pobres do futuro; é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que têm poucos anos para viver nesta Terra e não podem continuar esperando” (no 162), como todos aqueles que, no Brasil, ainda não têm seu direito garantido pelas políticas públicas na área de saneamento básico ou perderam os seus direitos mais básicos perante a cobiça de uns poucos.
Para o papa, contudo, “a esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas” (LS, 61). No próprio território brasileiro, temos diversos sinais da imensa Providência Divina: como aponta o Texto-base da CFE 2016, se apenas 0,007% da água da Terra está disponível para o consumo humano, o Brasil tem aproximadamente 12% da água doce do mundo, e 70% dela está concentrada na Região Norte. Por isso, ao mesmo tempo, todos os brasileiros – principalmente os seus governantes – são chamados a ser “administradores responsáveis” desta Casa Comum, e não seus “dominadores” (LS, 116).
Nesta Quaresma, tempo propício para a mudança de vida, em pleno Ano Extraordinário da Misericórdia, com uma CFE sobre a Casa Comum, somos chamados a uma “conversão ecológica”. E as convicções da nossa fé, aquilo que o Evangelho nos ensina, afirma Francisco, devem ter consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver, devem “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo” (LS, 216). Trata-se de fazer surgir, em comunhão com o mundo que nos rodeia, “todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa” (LS, 217).






Fonte: Fc edição 962- FEV- 2016
Postado por: Família Cristã




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