A pequena sereia

Data de publicação: 04/03/2016


Por Sérgio Esteves

Quando setembro chegar, o Rio de Janeiro (RJ) receberá a 15ª Paraolimpíada de Verão, com competidores de 23 esportes disputando 528 provas. Mais do que isso, o Brasil espera conquistar uma posição ainda melhor do que o 7º lugar no quadro geral de medalhas – sua melhor colocação até hoje – obtido ao final dos Jogos Paraolímpicos de Londres (Inglaterra) em 2012. Na ocasião, o País subiu ao pódio 43 vezes para levar 21 medalhas de ouro, 14 de prata e oito de bronze. A exemplo do ocorrido há quatro anos, a natação, tendo à frente Daniel Dias – recordista em várias modalidades – e André Brasil – atual campeão nos 100 metros borboleta – deverá ser a maior responsável pelo bom desempenho nacional. De quebra, entre as mulheres, na expectativa de obter o índice paraolímpico, o Brasil ainda poderá revelar uma surpresa: a catarinense Izabela Dias de Souza, de 18 anos. Natural de São José, município da grande Florianópolis, a nadadora é uma promessa que, se não surgir no Rio-2016, certamente despontará em Tóquio-2020.
Em pouco mais de dois anos de carreira nas piscinas, Izabela já garantiu pelo menos 45 medalhas, sendo 30 delas de ouro. As mais recentes dessa galeria foram conquistadas em novembro passado no Aberto Internacional do México, realizado em Mérida, onde a jovem nadadora garantiu quatro medalhas, sendo três de prata e uma de bronze. Uma das medalhas de prata foi obtida em sua especialidade, na chamada piscina curta, com os 50 metros livres, e outra foi nos 50 metros borboleta. O terceiro pódio veio com o segundo lugar nos 100 metros de peito. Já a única medalha de bronze foi obtida com os 100 metros livres. Mas por pouco ela também não ficava com outras duas de bronze ao chegar em 4º lugar nos 400 metros livres e nos 100 metros de costas. “Fiquei muito satisfeita com os resultados, sobretudo por ter conseguido baixar um pouco mais os meus tempos. Sei que estou ainda aprendendo e adquirindo experiência”, comentou a atleta, ao regressar ao Brasil.

Síndrome – Izabela é treinada atualmente por Fladimir Klein, que bota fé em seu potencial. “Fazemos um treino puxado, mas ela é muito dedicada e realmente gosta de nadar, faz isso com prazer”, afirma o técnico, que já trabalhou com outros atletas e campeões paraolímpicos. Segundo ele, uma das metas a curto prazo da paratleta é baixar seu tempo de 47 para 44 segundos nos 50 metros livres, o que deverá acontecer naturalmente à medida que Izabela adquirir mais maturidade e aprimorar sua habilidade. “Ele diz para não me preocupar tanto com o lado competitivo e me orienta muito quanto à técnica, uma vez que a redução do meu tempo será consequência disso”, confirma a jovem, que compete na categoria S6. Isso porque na natação, como em outros esportes paraolímpicos, os atletas são divididos segundo seus comprometimentos, e as categorias de número 1 a 10, por exemplo, são reservadas aos atletas paraplégicos, amputados e com outras dificuldades motoras – quanto maior o número menor é o grau de comprometimento do competidor. Já as categorias de 11 a 13 estão reservadas aos atletas com deficiência visual, enquanto na categoria 14 competem atletas com deficiência intelectual.
A nadadora nasceu com a Síndrome Antifosfolipídica (APS), também chamada de Síndrome de Hughes, uma doença autoimune rara que atinge cerca de 1% da população mundial e compromete a habilidade de coagulação do sangue. O problema provoca um aumento do risco de formação de coágulos que obstruem a passagem do sangue pelas veias e artérias. Como consequência, os portadores da doença podem desenvolver  trombose venosa profunda, um coágulo que prejudica a circulação do sangue nas pernas – mas pode atacar os membros superiores –, e sofrer os desdobramentos de uma trombose arterial (coágulo nas artérias): acidente vascular cerebral ou ataque cardíaco. No caso de Izabela, aos sete anos, ela perdeu parte das duas pernas e o braço esquerdo. Menos mal que a doença tem tratamento que, normalmente, é feito à base de medicação anticoagulante como doses diárias de aspirina, varfarina ou heparina. Hoje, Izabela tem a saúde sob controle.

À luta – A natação, que surgiu na vida de Izabela como resultado de suas sessões de fisioterapia, teve e tem um papel fundamental na atitude positiva da paratleta perante suas limitações físicas. “O esporte tem feito de mim uma pessoa mais bem resolvida e continuamente me mostrado que não posso temer os desafios da vida. Preciso vencer meus limites como qualquer ser humano, ter coragem e vontade de lutar. De nada adianta ficar parado, chorando e se deixar abater pelas dificuldades”, aponta Izabela, que, no dia a dia, faz uso de próteses para se locomover sem precisar de ajuda. Essas locomoções incluem as viagens necessárias que, muitas vezes, ela faz sozinha até as competições. Isso devido à falta de mais apoios e patrocínios que acaba por limitar as verbas para as passagens aéreas, estadias e alimentação. “Por isso, uma de nossas lutas, minha e de minha família, é para conseguir mais recursos. Se já é difícil para atletas, imagine para os paratletas...”, compara ela.
Atualmente, Izabela conta com uma bolsa de cerca de 800 reais da Prefeitura de São José, município pelo qual ela compete nos torneios. Mas a verba cobre somente as despesas com academia, material esportivo e outros gastos menores. “Por enquanto, vamos dando um jeito, mas se tivesse um patrocinador não seria tão difícil estarmos em todas as competições. Sem falar que minha esposa poderia ir junto com Izabela e ajudá-la”, acredita Aderildo de Souza, pai da nadadora e que hoje distribui o portfólio da filha pelas empresas da região à procura de apoios e patrocínios. As pessoas físicas, claro, também podem ajudar entrando em contato com o próprio Aderildo, através dos telefones (48) 8466-6508, (48) 8466-6491 e (48) 9914-2305.
 




Fonte: Fc edição 962- FEV- 2016
Postado por: Família Cristã




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