Eu sou o samba

Data de publicação: 07/03/2016

          Entre personagens canônicos do samba rural paulista, aos 92 anos, dona Maria Esther emociona e encanta com seus versos espontâneos, criativos e instigantes                

Por Jucelene Rocha, especial de Pirapora do Bom Jesus (SP)

Em uma tarde de domingo, da charmosa e excêntrica janela de sua casa a 54 quilômetros de São Paulo, em Pirapora do Bom Jesus, a sambista mais antiga da cidade que é berço do samba paulista, Maria Esther de Camargo Lara, 92 anos, conta sua história, dessa vez para você, leitor(a) da Revista Família Cristã.
Acostumada a ser abordada por estudiosos, pesquisadores e jornalistas, dona Maria Esther rapidamente mostra seu maior talento, improvisar pequenos versos ao ritmo do samba. “Como é seu nome?”, ela me pergunta. Eu respondo Juce, e, com um largo sorriso no rosto, a Imperatriz Baluarte do Samba do estado de São Paulo se mostra à vontade e canta: “Na festa de Pirapora /Quem achar um lenço é meu, /Amarrado as quatro pontas /Foi a Juce quem me deu”. Orgulhosa, completa contando qual a fórmula do sucesso: “Eu faço samba para senhoras, minha roda de samba tem respeito, não é bagunçada, não entra bêbado não! Por isso faço samba até hoje”.
De forma simples e carinhosa ela descreve a própria arte: “Meu samba é pequeninho, mas é cheio de palavras bonitas e, quando a turma insiste para continuar, eu explico: meu samba é assim, pequeninho e engraçado, primeiro eu provoco os homens, depois eu provoco as mulheres e tenho que deixar espaço para as outras pessoas que vão entrar”, conta sorrindo. “Soldado não me prenda, não me leve pro quartel, eu não vim fazer bagunça, eu vim buscar minha mulher”, diz a letra de mais um samba cantado por dona Maria Esther, que busca com sua arte também contar a história de Pirapora e agradar aos romeiros do Bom Jesus.
Pirapora do Bom Jesus ─ Depois de mais alguns versos, as histórias que marcaram nossa conversa pela janela certamente ultrapassam a trajetória pessoal de dona Maria Esther. Ela viu nascer e ajudou a criar a escola de samba, hoje extinta, Unidos da Galvão Bueno e o cordão Lava-Pés. É também uma das fundadoras da Vai Vai, agremiação paulista que frequenta há 30 anos. Maria Esther foi muita amiga do compositor Geraldo Filme, para quem fez os versos de improviso que motivaram mais tarde o sambista para a composição da conhecida e icônica canção Batuque de Pirapora. Os primeiros versos da canção mostram o contexto popular religioso que se davam as rodas de samba em Pirapora ainda no início do século XX: “Eu era menino /Mamãe disse: vamos embora /Você vai ser batizado /No samba de Pirapora(...) Aqui nessa procissão /Mamãe, mulher decidida /Ao santo pediu perdão...”
A festa do Bom Jesus de Pirapora acontece há 290 anos sempre no mês de agosto, outro momento especial para a cidade ainda hoje é o carnaval, Pirapora é uma das únicas cidades da região que mantêm o tradicional carnaval de marchinhas. Foi neste cenário que o samba rural abriu espaço para integrar definitivamente a história da música genuinamente paulista.
Na década de 1940, aos 12 anos dona Maria Esther chegou a apanhar e ser expulsa de casa pelo pai que não aceitava que sua filha mulher e branca participasse das rodas de samba promovidas pelos negros. Naquela época, eles já cultivavam a tradição de seus pais e avós, que, impedidos de entrarem na Igreja dos brancos, encontravam nos batuques sua maneira de prestar homenagem ao Bom Jesus e viver a alegria da festa, que, a partir de 1725, passou a atrair católicos dos mais diversos lugares do interior dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Ao coração do samba ─
Ao recordar a rejeição que o pai mostrava ter pelos batuques, Maria Esther manifesta que hoje não compreende tal postura: “Papai nunca aceitou me ver numa roda de samba, eu pulava a janela, fugia, às vezes era mamãe que deixava ir, eu sempre dava um jeito de participar, Pirapora ficava cheia de gente! Era um mundo de gente que vinha a cavalo de todos os lugares do interior”. O fato é que a postura severa do pai paradoxalmente a levou para o coração do samba, porque ao sair de casa foi acolhida em São Paulo por sambistas que, com ela, construíram a história do samba paulista, hoje perpetuado em grupos espalhados principalmente na região metropolitana e interior.
Depois de uma longa temporada na capital paulista, há anos, dona Maria Esther voltou para Pirapora do Bom Jesus onde, apesar de ter muitos discípulos e discípulas, continua sendo a maior estrela do samba. Sobre esse período na capital, ela recorda os momentos difíceis em que chegou a se alimentar apenas com pão e água literalmente.  “Eu morei em Porto Feliz (SP), onde trabalhei na fábrica de tecidos Nossa Senhora Mãe dos Homens, dois anos e meio, depois fui para São Paulo onde morei na Rua Genebra, na Bela Vista. Eu dividia um quarto e cozinha com uma amiga que estudava comigo no curso de atendente de enfermagem”, lembra.
Dos antigos galpões, em Pirapora, onde aconteciam as rodas de samba, nada restou, mas em 2003 um antigo casarão foi transformado em ponto cultural na cidade. A Casa do Samba abriga um acervo histórico e mantém uma agenda de apresentações onde a matriarca do samba se apresenta com o Grupo Samba de Roda, que ela mesma criou entre as décadas de 1940 e 1950. Nestas ocasiões dona Maria Esther encontra novos e velhos amigos e compartilha versos improvisados e inspirados pelos participantes da roda. Para justificar o sucesso de suas apresentações sempre seguidas de muitos aplausos e pedidos de mais um improviso, dona Maria Esther, sempre bem humorada, repete uma de suas máximas: “A idade não regula nada, o pé é que regula o rebolado da gente, o que importa é o samba no pé, aonde eu chego a turma grita feliz, lá vem Maria Esther!”.
Aos romeiros do Bom Jesus ─ Em Pirapora do Bom Jesus dona Maria Esther é uma lenda viva, amada e respeitada por todos, hoje vive sozinha e modestamente em uma pequena casa no centro da cidade onde guarda à sete chaves os muitos troféus e homenagens que recebeu ao longo das últimas décadas.  Na cidade se diz que nunca se ouviu falar que alguém tenha conseguido entrar na sua casa, que segundo ela representa um sonho conquistado com muito trabalho. 
Entre os morros, montanhas e ruas estreitas de Pirapora do Bom Jesus, da vida que hoje leva entre um giro pelo centro para tomar sorvete e passear pelo comércio, e os muitos convites que recebe para participar de eventos na capital e no interior dona Maria Esther segue como uma grande referência e guardiã do samba rural paulista. Em nossa longa conversa apresentou apenas uma queixa que logo se transformou em reconhecimento agradecido: “é duro viver sozinha, não ter com quem contar, mas eu rezo minhas orações e aqui todo mundo me ajuda, todo mundo me respeita muito, não me falta nada”, conclui.
A cada apresentação nas rodas de samba dona Maria Esther esbanja bom humor, sagacidade, charme e elegância na evolução como sambista experiente, mas faz questão de reservar espaço para uma oração como essa que repete a cada despedida dos romeiros de Bom Jesus de Pirapora: “A pedido de um amigo, de um velho companheiro, hoje eu faço esta oração em homenagem aos romeiros, romeiro de toda parte, também do interior, que presta homenagem ao Bom Jesus, Nosso Senhor! Ciclistas e rodoviários, grandes cavaleiros, àqueles que vêm à pé e também os charreteiros, todos tem seu presidente, tem a sua devoção, os que morrem ficam na lembrança e o que ficam seguem a tradição. Boa sorte a todos os romeiros, boa viagem e até a próxima!”




Fonte: Fc edição 962- FEV- 2016
Postado por: Família Cristã




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