Jovens fazendo política

Data de publicação: 29/07/2016

Ocupações estudantis espalham-se pelo País e demonstram a capacidade de organização, é a pressão de uma juventude que está cansada do velho jeito de cuidar do que é público

Por:
Karla Maria

“Mãe, pai! Estou na ocupação, e é só pra tu saber, eu luto pela educação!” O vídeo com a música cantada por estudantes secundaristas da rede estadual de ensino de São Paulo correu solto pelas redes sociais e mostrou mais do que as matérias de três minutos das emissoras de TV foram capazes de apontar, além das ocupações desordenadas, meninos e meninas com cartazes fazendo algazarra, destruição do bem público.
Eles mostraram que, para conseguirem seus direitos, precisam se articular e dar visibilidade a seus métodos de reivindicação, já que, segundo eles mesmos, a mídia não o faz. “Escolhemos não falar mais com a imprensa. Adotamos essa medida após jornais distorcerem nosso movimento”, escreveu-nos um porta-voz do Ocupa Marga, um movimento de alunos que desde 26 de maio ocupa a Escola Estadual de Educação Básica Professora Margarida Lopes, em Santa Maria (RS).
Em seu diário de bordo, entre posts sobre limpeza da escola, atividades culturais e organização de doações para a permanência na escola, o movimento revela o motivo de sua ocupação. “Nesses últimos tempos, temos visto a educação se afundar, vemos educadores desanimados, desistindo. Nós, como alunos, nos apavoramos e então resolvemos enfrentar essa luta, para buscar uma educação de qualidade...”

As ocupações –
Os estudantes protestam também contra o Projeto de Lei (PL) 44/2016, do governador estadual, que visa a privatizar parcialmente a educação pública, e exigem o fim do parcelamento dos salários dos professores, mais investimentos na área da educação e ensino de qualidade também para o campo.
A relatora do PL na assembleia gaúcha, deputada Manuela d’Ávila, apresentou parecer contrário ao projeto. “A situação proposta pelo governador viabiliza que pessoas jurídicas privadas, chamadas de Organizações Sociais (OSs), realizem despesas com recursos públicos, sem obedecerem às normas constitucionais ou qualquer regra; disponham de agentes estatais, sem observar o regime jurídico dos servidores públicos; façam contratações sem regras de concurso público e administrem bens e verbas públicas livres do controle do Tribunal de Contas e do Ministério Público”, disse. “O setor privado estaria substituindo o poder público na prestação de serviços que são típicos deste. Dessa forma, o Estado atuaria como mero agente indutor, fiscalizador e regulador dos serviços públicos”, concluiu a deputada, que apoia as manifestações estudantis.
As ocupações nas escolas públicas não são exclusivas aos gaúchos. Começaram em São Paulo, contra o processo de reorganização proposto pelo governo estadual, ocorreram em Goiás, contra a proposta do governo estadual de terceirização da administração das escolas a Organizações Sociais, e no Espírito Santo, contra a reorganização do ensino.
Além do Rio Grande do Sul, em Mato Grosso ainda ocorrem ocupações contra a proposta de Parcerias Público-Privadas (PPPs) nas escolas, bem como no Rio de Janeiro e no Ceará, onde os estudantes apoiam os professores e pedem melhores condições de ensino.

Grandes ágoras –
Para um leitor mais atento às redes sociais, é possível verificar que as ocupações tornam-se também grandes ágoras, palco de atividades culturais, com “aulões” de temas específicos, como cidadania, política, sociologia. Mas não só. Há também repressão. “Após as ocupações do fim do ano passado, sentimos o peso da perseguição da Polícia Militar, que continuou mesmo depois das ocupações”, revela Emerson Santos, estudante de Dança na Escola Técnica de Artes, em São Paulo (SP), e presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes).
Emerson foi um dos estudantes que ocupou a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo por quatro dias e exigia a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigasse a máfia da merenda. Conseguiram. No dia 10 de maio, a abertura da CPI da Merenda foi protocolada com 91 assinaturas, de 94 deputados da casa. Algo histórico.
“A partir daqui, iniciamos um novo patamar da nossa luta, talvez mais difícil do que a abertura da CPI. A permanente mobilização e acompanhamento de toda a investigação para que não haja qualquer tipo de seletividade ou isenção de nenhum envolvido, disputando portanto a execução de uma CPI realmente ampla. A corrupção não ficará impune”, apontaram os estudantes secundaristas, em nota à imprensa.
Sobre as consequências dessas ocupações para o ensino, o cientista social Wagner Romão, do Departamento de Ciência Política, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, avalia: “Isso certamente gera um aprendizado sobre como conviver em uma coletividade, em uma comunidade. E isso é o elemento mais genuíno do que é a política, a capacidade de viver juntos segundo regras produzidas e respeitadas por todos. Tomara que eles aprendam e que nós aprendamos com eles”, disse o cientista social, em entrevista ao site Nexo.
Para o cientista político Humberto Dantas, as ocupações desmistificam preconceitos contra a despolitização dessa geração e a suposta incapacidade de fazerem algo. Coloca em questão quanto as gerações são diferentes e devem ser entendidas na nossa realidade.
“Desvenda que temos dois desafios adicionais para encarar. O primeiro é: quanto esses movimentos seriam significativamente mais eficientes, corriqueiros, vistos como necessários e eficientes se nossos jovens tivessem noções elementares de direitos, política, economia e gestão pública nas escolas? O segundo é: quanto nossa democracia representativa não mais representa e, consequentemente, quanto os modelos culturais devem ser revistos?”, observa.





Fonte: FC ediçao 967 -JULHO 2016
Postado por: Família Cristã




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