A liberdade de Deus

Data de publicação: 09/09/2016


De detento a estudante de Teologia, conheça a história de Vilson Lima, que aponta um caminho para o sistema prisional
                                   

Por: Nathan Xavier

O céu completamente azul prometia um dia não tão frio quanto os anteriores, ao menos em Taubaté (SP), cidade a 139 quilômetros de São Paulo (SP). Era por volta das 9 e meia da manhã e a Faculdade Dehoniana estava tranquila, por ser a última semana de aulas antes do recesso escolar de julho. Meu entrevistado me esperava. Um jovem de camisa social, com um pulôver escuro por cima, calça jeans e bolsa carteiro preta a tiracolo. O cabelo bem curto e um jeito de seminarista, mesmo não sendo. Compreensível, afinal, é estudante de Teologia, numa faculdade pertencente a uma congregação religiosa, e a convivência diária com muitos alunos, estes sim, seminaristas, terminam por influenciar o jeito do jovem de 21 anos. Porém, ao contrário dos muitos estudantes, que, ao término das aulas, vão para suas residências ou suas casas religiosas, meu entrevistado, Vilson Daniel Mendes Lima vai para a prisão. Ele é um dos detentos do Centro de Detenção Provisória Dr. Félix Nobre de Campos, em Taubaté.
Natural da cidade de São José dos Campos (SP), a mãe de Vilson teve o filho com apenas 15 anos e morava com os pais e irmãos. Cresceu com uma infância “muito feliz e bem normal”, ele conta. A família era grande, afinal, eram os avós, três tios, uma tia e sua mãe morando todos na mesma casa. “Depois veio minha prima e tanto minha mãe quanto meus tios eram jovens. A imagem de pai é do meu avô, pois meu pai faleceu quando eu tinha dois anos. E eu acho que tudo aquilo que tenho de bom em mim veio do meu avô. Ele gostava de plantar, tinha uma horta e sempre acompanhava ele.” Era aluno exemplar, sempre com boas notas desde pequeno. “Fiz curso preparatório na adolescência como bolsista por ser bom aluno, entrei no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e me formei em Mecânica de Manutenção. Tinha 14 anos quando comecei, e terminei com 16. Entrei no técnico depois com bolsa também, por nota.”

Erros e acertos –
Na época que foi preso, estava num carro roubado, tinha 18 anos, e a mãe estava grávida do segundo filho. Ele narra um caminho buscado por muitos: o mais fácil. “As luzes atraem muito os jovens. Você vê pessoas alcançando sucesso da forma errada e pensa que se fizer só uma vez pode dar certo.” Porém, hoje sabe que o mais fácil, ainda mais de forma ilegal, custa muito caro. “Aquilo que começa errado não termina certo. Não tem como começar um edifício sem um alicerce forte, virá uma tempestade e vai derrubar aquilo.” O processo para mudar de atitude foi difícil e doloroso, segundo Vilson. “São muitos fatores que levam ao arrependimento.” A realidade, para ele, falou alto: a mãe grávida indo visitá-lo, família, amigos e vizinhos o apoiando. “Isso foi positivo para surgir em mim a mudança de direção”, ensina Vilson, reafirmando a família como meio essencial no processo: “Quando você vê que toda a sua família está sofrendo por algo que só você cometeu, não pode ser leviano, tornando-se pior. Minha mãe nunca passou a mão na minha cabeça, mas ela me amou pelo que eu era antes e, agora, estou pagando pelo que eu fiz. Errei e pensava o que tinha que fazer para não ser isso pra sempre, mas retomar o que um dia sonhei”.
Nem todos os detentos têm a sorte de uma família estruturada que o apoie. Segundo ele, é aí que entra a religião. “A pessoa que cometeu um delito tem que pagar pelo que fez, mas ela também tem o direito de mudar de vida, e são poucos os que estendem a mão. O detento vê o descrédito da sociedade, de pessoas que convivem com ele, geralmente não tem estudo, a família é desestruturada e sua autoestima é baixa. Ele pensa que não pode sair daquilo, já começa perdendo. E se a gente não tem a família, é aí que Deus entra, investindo em nós.” Com a ajuda do diretor do presídio, conseguiram disponibilizar uma das celas para que funcionasse como casa de oração. “Foi em 22 de agosto de 2013 quando conseguimos. O nome é Ebenézer, que significa ‘a terra que o Senhor nos sustentou’, como uma porta de escape para aqueles que querem se levantar. Entendemos que Cristo nunca deixa de perdoar e nunca abandona, então, como cristãos, nós éramos uma família lá dentro, com a força da casa de oração. Porque numa cela para 12 pessoas, vivem 36, e sua cama, seu banheiro, seu quarto são ali e você tem que dividir com seu colega. O que aconteceu comigo é bom para a sociedade ver que é possível, e não sou o único. Muitos se recuperaram e estão no caminho correto.”

Amor que liberta – A mãe de Vilson sempre trabalhou para o sustento do filho, só fazendo uma pausa quando Valentina, irmã de Vilson, nasceu. “Em agosto vou para casa e vamos fazer uma festa pra minha irmã. Quando minha mãe disse que estava grávida, eu falei que o nome dela seria Valentina, pois essa menina seria valente. Antes de ser preso, ela foi fazer ultrassom e o médico disse que tinha 99% de chance de ser menino. Eu falei pra minha mãe que era menina e se chamaria Valentina. O exame morfológico confirmou que eu estava certo”, conta sem esconder a alegria pela irmã. Algum tempo depois, no quinto mês de gestação, Vilson seria preso. “Valentina foi assim, valente, pois apoiava minha mãe. Esse contato delas tenho certeza que ajudava minha mãe a dar a força de que eu precisava.”
O jovem estudante de Teologia afirma que queria ser engenheiro, “mas mudou quando eu me deparei com os dramas da vida e a ter contato com Deus”. Após a Teologia, quero fazer pós-graduação em Psicologia Pastoral. Citando precisamente todas as datas da sua vida, lembra também a da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 3 de dezembro de 2015, realizada em data diferente nos presídios. “Eu lia muito na prisão e, nos últimos meses, pedi que minha família trouxesse as provas dos anos anteriores para estudar”, afirma. A boa nota na redação ele credita às cartas que escrevia para a família e também para outros detentos que passaram pela Ebenézer e estavam em outros presídios, para que não desanimassem na fé. Em atitude inédita, Vilson foi autorizado pela juíza a sair da Casa de Detenção para ele próprio fazer sua matrícula na faculdade “no dia 27 de janeiro de 2016”. E foi com o uniforme prisional.
“Jesus é a verdade e a vida. Quando buscamos algo longe de Deus, buscamos aquilo que é mentira e não produz a verdadeira felicidade. Eu vi a luz de Cristo brilhar num local onde pra sociedade não há saída.” Considera a frase “bandido bom é bandido morto” um grande erro: “Quem tem o coração que recebe o amor de Cristo nunca vai pensar dessa maneira. Não podemos determinar que a solução para a vida dele é a morte. Não. A solução é o amor de Deus que pode restaurar o ser humano, ele é digno de ter a oportunidade de se arrepender, ainda que seja crime mais cruel”. Ele reclama dos obstáculos para projetos que ressocializam o preso e cita a Ebenézer como um bom exemplo que transformou vidas e lembra de quantos podem ser implantados em outras áreas, como educação e cultura, também para a família, e que poderiam diminuir a alta taxa de reincidência no sistema prisional. E quanto ao seu futuro? “Quero ser educador, um pai presente e honrar minha mãe e família, e não parar de estudar. Não pensar que estamos no topo, senão o que resta é o desfiladeiro, estamos sempre subindo, degrau a degrau.”




Fonte: FC ediçao 968 -AGOSTO 2016
Postado por: Família Cristã




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