Diversão off-line

Data de publicação: 05/10/2016


Os modernos jogos de tabuleiro, com diferentes dinâmicas e mecânicas de jogo, começam a fazer algo que muitos não conseguiram: reunir a família e amigos durante horas de diversão

           
Por: Nathan Xavier

Os jogos eletrônicos de hoje são bem diferentes dos famosos, e clássicos, jogos de tabuleiro, bem como War, Perfil, Imagem & Ação e Banco Imobiliário. Mas não apenas pelo meio que se joga um e outro, mas também a forma: atualmente os eletrônicos são em grande parte individuais e poucos são multiplayer locais. Você pode até jogar com pessoas do mundo inteiro, mas não é a mesma coisa de ter amigos e família jogando localmente na sala de casa. É o mesmo que acontece com uma pessoa que mora longe da família: sabe que a internet facilita o contato e ajuda a diminuir a saudade, mas não substitui uma interação física, o olho no olho, compartilhando o cotidiano. Agora, para surpresa de muitos, os novos jogos de tabuleiro, ou board games, com mecânicas de jogo totalmente diferentes das dos antigos, começam a atrair e reunir a geração de Detetive e Banco Imobiliário com a nova geração de Minecraft e Assassin’s Creed.

Marcel Campos é administrador de empresas e fala com a propriedade de quem descobriu um novo hobby: “Fomos bombardeados de uma mesmice durante décadas. Minha geração e algumas anteriores e posteriores ficaram nos antigos. Enquanto os jogos eletrônicos lançavam muitas opções, as empresas de tabuleiro ficavam em versões que, no fundo, eram a mesma coisa”. No site de uma das grandes lojas on-line do segmento, a Caixinha Board Games, há uma apetitosa comparação para ilustrar a nova febre: “Digamos que o War seja aquele arroz com feijão delicioso que a sua avó fazia. Tem seu valor, traz nostalgia.

Mas o que você acha de experimentar um Filé Mignon ao Sal de Alecrim com Peras ao Vinho?”. De propriedade de Osmar Campbell e Mariana Lessa, o casal é mais conhecido pelo público como comediante e atriz, respectivamente. Mas a paixão pelos jogos de tabuleiro os fizeram, há um ano, sócios da loja. “No War você preparava tudo, fazia uma boa estratégia, mas, se os dados não colaborassem, você perdia e acabou, não tinha saída. Os jogos hoje exigem mais de você, propõe reviravoltas maiores e são mais imersos na temática” afirma Osmar. E, como ele, Marcel também observa um retorno: “O ser humano não nasceu para se relacionar sozinho, muito menos se divertir sozinho. “Essa necessidade encontrou a vinda da nova safra de jogos de tabuleiro, muito mais dinâmicos e interessantes e com uma qualidade maior”, reflete. Na contramão, os jogos eletrônicos deixaram de ser multiplayer e passaram a ser muito mais individuais. A geração hoje na faixa dos 30 anos, que cresceu com video games em que reuniam os amigos para horas de partidas, juntos, na mesma sala, ficou sem opção. Foi aí que os modernos jogos de tabuleiro encontraram seu nicho.

Necessidade – O administrador de empresas conta que entrou em contato com os novos board games por uma necessidade de diversão com amigos e família: “Eu vou muito ao sítio com amigos, a maioria já tem filhos como eu, e lá não temos muita opção de jogos que todos possam participar. Os de vídeo game têm apenas de futebol, mesmo assim não agrada a todos e já enjoou. Fui pra internet pesquisar algo novo e redescobri esse ramo. Quando meus amigos ouviram falar que eu ia levar um jogo de tabuleiro pela primeira vez ao sítio, perguntaram se era tipo War”. A brincadeira, no fim, contagiou: “Engraçado porque a primeira vez que jogam é um choque, porque é muito diferente. Demora um pouco pra pegar, mas na segunda partida já vira paixão”. O jogo, no fim, termina por ser um divertido pretexto para a interação de toda a família. “Nesse último fim de semana, tive que voltar mais cedo do sítio e, quando fui embora, vi uma cena muito bacana. Um dos meus amigos estava na mesa jogando Zombicide com os quatro filhos, e ele ajudando os menores, ensinando as estratégias. Coisa que no vídeo game não acontece, porque ele jogaria sozinho.”

É o que o casal Helton e Andréia Leite, da cidade de Franca, interior de São Paulo, faz toda semana. Eles têm dois filhos, a Camila de 11 anos, e o Vítor, de 7. “Há uns quatro anos eu tive um problema de trombose e fiquei 30 dias de cama”, conta Helton. “Eu não aguentava mais computador e fui pesquisar por jogos, porque sempre joguei na minha infância e adolescência. Na época, os meus filhos eram pequenos, mas eu já via os meus sobrinhos muito tempo no computador, se afastando das pessoas, e isso também me preocupava. Foi quando comecei a entrar em contato com esses modernos jogos de tabuleiro e tive uma ótima aceitação deles.” A diversão se tornou rotina: “Pelo menos três dias por semana jogamos, eu, minha mulher e meus filhos. E eventualmente, fins de semana, ou algum dia de semana à noite, encontro alguns amigos também”.

E, com tantas coisas se “virtualizando”, por que voltar ao tabuleiro? “É justamente por voltar a reunir amigos e família em volta da mesa. O jogo de tabuleiro permite uma interação que no computador é apenas virtual, com pessoas que você nunca viu e com quem não conversa de fato. No tabuleiro você conversa, ri junto, se diverte junto por um bom tempo.” E emenda contando do jogo favorito, ao menos no momento: “Gostei muito do Catan. Você começa a colonização de uma ilha, construindo aldeias e estradas e, para isso, você precisa juntar recursos. É preciso planejamento, negociação, trocando recursos com outros jogadores. A interação nele é fantástica”. Em uma das postagens na página da Galápagos Jogos, uma das editoras brasileiras que trazem esses jogos para o Brasil, Helton e sua família ficaram famosos. Ele conta que um dia estava saindo para o trabalho de manhã, quando viu a tarefa da escola que o filho mais novo, Vítor, tinha feito. O trabalho vinha com uma pergunta “O que te faz feliz?”, com linhas para escrever e um espaço para um desenho ilustrando a resposta. O garoto desenhou a família em volta da mesa com a frase ao lado: “Jogar jogos de tabuleiro com meus pais”. Helton não pensou duas vezes. Fotografou a resposta e mandou um e-mail para a empresa agradecendo por proporcionar esses momentos de lazer em família. A mensagem, junto com a foto, foi colocada na página da Galápagos e fez sucesso na rede social da empresa.

Reunião saudável – A interação não é o único grande destaque que Ricardo Kuma, representante da Galápagos Jogos, faz: “Podem ser usados para ensino, desenvolvimento de habilidades, além da diversão, claro”. Ele explica que há séculos a distração faz parte da humanidade: “O primeiro jogo de tabuleiro que se tem registro é de 7 mil a.C. (antes de Cristo), um jogo chamado Mancala. Além dos clássicos que perduram até hoje: xadrez, damas, jogo da velha, gamão e ludo”.  De fato, quem começa a conhecer as modernas versões de tabuleiro observa primeiramente a qualidade do material, dos desenhos e a quantidade de temas diferentes. À medida que se conhecem as regras, se vê que, diferentemente dos antigos jogos da década de 1980, a sorte não é mais tão necessária para vencer. Aliás, alguns jogos nem dado têm. A habilidade, o raciocínio e as interações durante o jogo são peças fundamentais. E não necessariamente você vencerá sozinho ou poderá ser eliminado, caso não jogue bem, pois há jogos em que a colaboração mútua é fundamental. Marcel Campos relata que prefere os estratégicos: “Gosto muito do Terra Mistica. Você tem raças e cada uma possui uma habilidade diferente, e seu papel é desenvolver sua civilização. Não necessariamente vai duelar com outras pessoas, porque, quando constrói perto de outras civilizações, você tende a se desenvolver mais rápido. Mas claro que você também não pode deixar a outra civilização crescer muito. É bem estratégico, precisa pensar jogadas à frente.”

Ricardo garante que há um jogo pra cada tipo de pessoa, e a classificação dos tipos de jogos nas lojas especializadas já dá dicas, caso dos que se enquadram na categoria Party Games, com partidas rápidas e fáceis para jogar com amigos, ou Family Games, com temáticas familiares. Osmar, da Caixinha Board Games, conta que, apesar da crise, as vendas aumentam mês a mês e vê com bons olhos a nova febre: “O adolescente de hoje em dia não jogou Banco Imobiliário. Teve um vácuo de uma geração que simplesmente parou de jogar jogos de tabuleiro. Com esse boom, isso tende a acabar. Meu filho já vai nascer com uma coleção de jogos, e essa nova geração crescerá com os jogos dos pais e a cultura de tabuleiro continuará”. Ricardo afirma que quem joga uma vez vai querer jogar sempre: “Recebemos depoimentos muito legais de pais que jogam com filhos e de amigos que se reúnem. São momentos especiais que se repetem sempre, pois toda partida é única, sempre será diferente da anterior. Esse momento nenhum tablet ou celular vai substituir”.





Fonte: FC ediçao 969-SETEMBRO 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

A infertilidade no casamento
A infertilidade atinge oito milhões de pessoas no Brasil e cerca de setenta milhões no mundo.
Medo do doutor?
Como ajudar as crianças a superarem o receio de consultas médicas e odontológicas.
Navegue com segurança
Viver no ambiente digital abre novos horizontes e possibilidades, mas requer cuidados
O melhor alimento para o bebê
O aleitamento materno é uma unanimidade mundial. Todos os profissionais de saúde reconhecem
Hora do pesadelo
Pesadelos são ruins em qualquer idade, mas os pais ficam mais angustiados quando são seus filhos.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados